Corrida por IA sobe preço de memórias e força consumidor a comprar equipamentos com menor capacidade

Com alta de preços de memórias de até 95% e SSDs em até 60%, usuários buscam tecnologias inferiores na hora do upgrade de equipamentos.

Escrito por Paloma Vargas paloma.vargas@svm.com.br
26 de Outubro de 2026 - 06:00
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Legenda: Memórias e espaços de armazenamento deve mser cada vez mais demandado com o aumento de uso de IA.
Foto: Oselote/Shutterstock

Com a disparada dos preços de componentes essenciais de notebooks e desktops ocasionada pela Inteligência Artificial (IA), como memórias e SSDs (dispositivos de armazenamento que substituíram os antigos discos rígidos), os usuários estão sendo forçados a abrir mão de maiores capacidades de armazenamento e comprar equipamentos com capacidades menores e valores mais acessíveis. 

A avaliação é do country manager da Kingston no Brasil, Paulo Vizaco. Ele conversou com o Diário do Nordeste durante o Data Center World Brasil, realizado neste mês em São Paulo.

A Kingston é líder mundial no mercado de fabricação de produtos de memória e soluções de armazenamento de dados. 

Segundo ele, essa mudança de comportamento no varejo retrata um movimento que vem se consolidando desde o ano passado, que é a volta da procura por peças de menor capacidade para conter os custos inflacionados.

​"A gente já nem falava mais de um SSD de 500 giga(byte), falava só de 1 tera(byte) para cima. Hoje o consumidor já voltou a olhar para estes SSDs de 500 giga para comprar", comenta.
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Apenas no primeiro trimestre de 2026, os preços das memórias subiram até 95% e os SSDs 60%, respectivamente, conforme levantamento da consultoria TrendForce.

Setor passa por limitação física de fabricação dos componentes

Por trás do encarecimento nas prateleiras está um gargalo produtivo sem prazo para terminar. Conforme o executivo, a produção global de silício não acompanha a demanda vertiginosa da IA. 

Com a demanda cada vez maior da indústria por novos processadores e data centers, os insumos essenciais tornaram-se disputados e escassos.

O gerente de tecnologia da Kingston, ​Yuri Santos, é categórico sobre a perspectiva de mercado ao destacar que a infraestrutura para inteligência artificial requer "muito semicondutor".

​"Ao mesmo tempo que o silício não é produzido numa velocidade para atender esse crescimento, a humanidade está num momento que entende precisar construir essa infraestrutura (de IA) mesmo que sacrifique os consumidores por um tempo, até essa estrutura se estabelecer, e a gente conseguir casar a produção do silício para o data center de altíssima performance com a produção de silício para o mercado de maneira geral", avalia Santos.
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​Corrida da IA pressiona infraestrutura de TI e data centers no Ceará

​No Ceará, o polo de conectividade — estruturado sobre uma extensa rede internacional de cabos submarinos e impulsionado pelo avanço na construção de novos data centers — vivencia de perto esse duplo impacto. A IA surge como vetor de expansão, mas também como gargalo de insumos e custos.

​A alta no preço dos semicondutores tem atingido diretamente empresas de diferentes portes que precisam definir seus investimentos em TI em curto e médio prazos.

​Conforme Vizaco, a explosão do uso de Inteligência Artificial no último ano rompeu a cadeia global de suprimentos, impactando diretamente os custos de infraestrutura.

Ele afirma que, mesmo diante de aportes massivos, o setor de semicondutores não conseguiu acompanhar o ritmo da demanda.

"O mercado é regulado por oferta e demanda e é um mercado relativamente pequeno. O advento da IA e os investimentos gigantescos nessa área de infraestrutura, na casa de trilhões este ano, fazem com que a demanda seja muito grande e aí os preços acabam sendo muito pressionados", explica.

Além disso, Vizaco reforça que investidores de IA estão tomando o mercado de semicondutores dispostos a pagar o preço que precisar para construir sua infraestrutura, o que também influencia na produção e no preço praticado no mercado como um todo.

Questionado sobre como avalia o comportamento deste mercado no curto prazo, o executivo da Kingston brinca ao dizer que "esta é uma pergunta de bilhões".

Imagino que estes preços ainda não chegaram nem no seu platô, ou seja, vai crescer muito mais. A IA já faz parte da vida de muita gente, vai fazer cada vez mais e para que isso funcione, que tenha realmente espaço para armazenar tanto conteúdo que a gente vem produzindo e processamento de toda essa rapidez que tem a IA, obviamente precisa ter infraestrutura, precisa ter os data centers funcionando".
Paulo Vizaco
country manager da Kingston Brasil

O fim da 'solução pronta' e o mercado secundário

No mundo corporativo, conforme o gerente da Kingston, a escassez acelerou uma mudança de cultura nos departamentos de compras. Se antes a facilidade imperava, a inflação forçou as empresas a compararem preços antes de tomar qualquer decisão.

​Para contornar a crise global, a Kingston ampliou o escopo de atuação corporativa, reportando um aumento de 42% na demanda específica do setor só neste ano, no Brasil. A estratégia inclui a entrada em nichos emergentes de hardware customizado para indústrias.

​Yuri Santos explica que, anteriormente, o modelo tradicional que dominava as operações era o de comprar soluções prontas — realidade que mudou diante da conjuntura atual.

"Com a situação da escassez e esse salto de digitalização, de necessidade de tecnologia, a gente tem percebido que as empresas têm aberto mais os olhos para fazer a conta. Um exemplo, a empresa precisa de dois servidores, faz a cotação, vê que só consegue adquirir um e faz um esforço para garantir esse um e não correr o risco de ter que desembolsar muito mais por ele em um espaço de meses", explica.

​Além disso, no caso dos data centers, a Kingston possui diversos clientes que compram equipamentos para upgrades de grandes servidores, investindo em tecnologias um pouco mais defasadas, mas que mantêm manutenção e reposição, fazendo apenas as adaptações necessárias.

​Neste nicho de mercado, impulsionado pelo posicionamento estratégico do Ceará, Paulo Vizaco destaca que o Estado é estratégico para a Kingston, embora prefira não detalhar valores de investimentos previstos.

​"Temos diversos parceiros na região, tanto na distribuição, quanto em termos de revendas especializadas, então é uma área que realmente a gente está olhando muito de perto, principalmente pelos projetos que estão sendo levantados no setor, mas é só isso que posso dizer por enquanto", revela.

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