Casas Bahia e Le Biscuit: entenda a crise das varejistas que atuam no Ceará

Uma combinação de fatores levou empresas a pedirem Recuperação Judicial neste ano.

Escrito por Paloma Vargas paloma.vargas@svm.com.br
19 de Agosto de 2026 - 14:00
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Legenda: Casas Bahia demitiu 3 mil funcionários e fechou quase 300 lojas em agosto, no Brasil. No Ceará foram 3 lojas encerradas.
Foto: Kid Junior.

O encerramento das atividades da Casas Bahia no bairro Montese, em Fortaleza, e nos municípios cearenses de Itapipoca e Pacajus expõe a atual crise do varejo brasileiro.

Nesta semana, a empresa fez um pedido de recuperação judicial (RJ) para renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas. Mas ela não é a única. No fim de abril, a CVLB Brasil — dona da Le Biscuit e Casa & Vídeo — também adotou medida semelhante para reestruturar um passivo de R$ 1,7 bilhão.

Em Fortaleza, a Le Biscuit mantém nove lojas e 95 funcionários. "Avaliamos com preocupação, especialmente pelos possíveis efeitos sobre empregos, consumidores, fornecedores e prestadores de serviços", diz a empresa.

Já a Casas Bahia opera 29 unidades remanescentes no Estado.

Além dessas duas, há outros casos recentes no varejo brasileiro, como a crise da Americanas, Tok&Stok e Polishop. 

O que explica essa crise no varejo brasileiro?

Para especialistas, a deterioração das operações reflete a combinação entre a escalada dos juros, o encarecimento do capital de giro e o represamento do crédito popular.

Para o diretor do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Ceará (Ibef-CE), Alan Lutife, a busca pela recuperação judicial tornou-se o único caminho viável diante da perda de liquidez e do esgotamento do fôlego operacional das empresas.

"A partir daí, a reestruturação deixa de ser apenas uma agenda de eficiência e passa a ser uma questão de preservação de caixa. No varejo de bens duráveis, esse efeito é ainda mais sensível porque a operação depende de estoque, prazo ao consumidor, financiamento da cadeia de fornecedores e confiança dos credores", analisa Lutife.

Segundo Lutife, o "estopim" operacional ocorreu quando a alta da taxa Selic — que saltou de 2% para patamares próximos a 15% ao ano — encareceu drasticamente a dívida das empresas e o crédito para o consumidor.

Já para o assessor de investimentos Thomaz Bianchi, o ponto de virada para a crise não foi apenas uma "maré baixa" econômica, mas um descasamento entre o que as empresas declaravam e a realidade dos balanços.

Bianchi aponta que a tentativa anterior da Casas Bahia de renegociação não atacou a raiz estrutural do negócio. "A recuperação extrajudicial de 2024 comprou tempo, mas não resolveu o problema. Reestruturou R$ 4,1 bilhões em dívida, mas não mudou a operação por trás", explica.

Ele ainda detalha os desdobramentos operacionais imediatos sobre os canais de suprimento. "As seguradoras de crédito cortaram limite para fornecedor e o nível de estoque retido em balanço caiu de R$ 5,4 bilhões para R$ 4,2 bilhões entre março e junho".

Jessé Fonteles, advogado e contador, explica que esse "deserto de estoque" leva à queda inevitável das vendas, comprimindo o caixa e impedindo o financiamento do ciclo operacional.

Ele ainda reforça que este não é um cenário exclusivo das Casas Bahia ou da Le Biscuit. "O próprio ambiente nacional demonstra, o número de empresas do varejo brasileiro em recuperação judicial cresceu 20,4% em 12 meses, chegando a 986 casos só no primeiro semestre", pondera.

Gestão e governança 

Para além da conjuntura de juros, no caso da Casas Bahia, falhas de gestão interna e o desgaste da credibilidade junto ao mercado financeiro aceleraram o processo de degradação. O advogado e contador Fonteles destaca que a situação patrimonial do grupo tornou-se insustentável.

"O patrimônio líquido da empresa, positivo em R$ 1,5 bilhão um ano antes, passou a ser negativo em R$ 8,27 bilhões, ou seja, a empresa passou a ter mais dívidas do que ativos para cobri-las", detalha.

"A auditoria (EY) se absteve de dar opinião sobre o balanço, isto é, nem os auditores independentes conseguiram confirmar a base de continuidade operacional", avalia. 

Ele conclui, assim, que o problema é híbrido. "Não foi só a maré macroeconômica, pois outros concorrentes, no mesmo cenário, não chegaram a esse ponto".

Sustentabilidade dos modelos de crédito 

O tradicional carnê, símbolo da ascensão da classe C no consumo, não morreu, mas o modelo em que a própria loja assume o risco do crédito perdeu a viabilidade. O diretor do Ibef-CE, Alan Lutife, explica que o setor varejista necessita abandonar posturas comerciais defasadas. 

"O que perdeu viabilidade foi o modelo baseado em expansão física pesada, crédito próprio amplo, estoque elevado e margem apertada", analisa. 

Ele defende uma nova postura financeira. "A sustentabilidade daqui para frente exige menos romantismo comercial e mais disciplina financeira. Vender bem não basta. É preciso vender com margem, giro, risco controlado e geração de caixa", lista. 

Sobre o crediário próprio, Bianchi complementa ressaltando a migração do modelo. "Como hábito de consumo, sim, ele ainda é viável e está crescendo. O parcelamento fora do cartão (de crédito) já responde por parte relevante das compras. O que deixou de ser viável é bancar isso sozinho, no caixa do lojista". 

A CVLB Brasil, criada a partir da fusão entre a Le biscuit e a Casa & Vídeo, protocolou um pedido de recuperação judicial em abril.
Legenda: A CVLB Brasil, criada a partir da fusão entre a Le biscuit e a Casa & Vídeo, protocolou um pedido de recuperação judicial em abril.
Foto: Luciano Rodrigues/Diário do Nordeste.

Poder de compra da população 

A retração das gigantes não é apenas uma questão de números, mas um problema social para as famílias cearenses de menor renda que dependem do crédito parcelado para mobiliar a casa.

O advogado e contador Jessé Fonteles aponta que este é o "ponto mais sensível socialmente". 

Para uma parcela relevante da população de menor renda, especialmente fora dos grandes centros, o crediário dessas grandes redes era a porta de entrada para bens duráveis".
Jessé Fonteles
advogado e contador

"Em relação a restrição de crédito, o calendário agrava o cenário. (estamos entrando) no período de Black Friday e Natal, que concentra a maior parte das vendas do ano no varejo e depende, mais do que nunca, da confiança de fornecedores e seguradoras de crédito para financiar o giro de mercadoria, fatores que estão abalados no setor nesse momento. Por isso, é razoável esperar um aperto adicional de crédito ao consumo popular nos próximos meses, não apenas no caso específico (Casas Bahia), mas no varejo como um todo", reforça.

Impactos no Ceará 

A crise dessas varejistas também pode afetar os polos comerciais do Ceará. Enquanto lojas de shopping tentam se manter — caso da Le Biscuit, que informou não ter fechado lojas após o pedido de recuperação judicial (final de abril), porém, em janeiro, fechou a unidade no Shopping Iguatemi, o varejo de rua sente o impacto imediato da desocupação.

Bianchi pontua que as três lojas encerradas da Casas Bahia no Ceará situam-se em corredores comerciais de rua. "O aluguel de shopping costuma ter parte percentual sobre a venda, o que dá ao empreendedor interesse direto em segurar a loja funcionando. Na rua, o locador não tem esse incentivo. Isso deve pressionar mais a desocupação comercial de bairro do que dentro de shopping", avalia.

Segundo o presidente do Sistema Fecomércio Ceará, Luiz Fernando Bittencourt, o impacto da crise no mercado cearense dependerá da disponibilidade de caixa para sustentar estoques e aluguéis e das decisões apresentadas no plano de recuperação judicial. 

A federação entende que o caso não representa a situação de todo o comércio, já que tem como base um endividamento próprio elevado do grupo.

"Ao mesmo tempo, a crise evidencia dificuldades que atingem o varejo de bens duráveis, como juros altos, crédito restrito e menor capacidade de consumo das famílias. Portanto, é um caso empresarial específico, mas inserido em um ambiente econômico desafiador", aponta.

Bittencourt ressalta que a recuperação judicial oferece proteção temporária contra cobranças e pode reduzir o risco de interrupção abrupta, mas não elimina os riscos nem os problemas operacionais e financeiros.

A possível perda de empregos no Ceará dependerá da aprovação e da execução do plano de recuperação, da capacidade de negociação com credores e da disponibilidade de recursos para sustentar operações, bem como do desempenho dos negócios.

"Estamos acompanhando o caso com atenção, especialmente pelos possíveis reflexos no comércio e no mercado de trabalho do Ceará. A preocupação envolve a continuidade das lojas, a preservação dos empregos e os efeitos sobre fornecedores, transportadores e prestadores de serviços locais", afirma.

Resiliência do varejo local 

O encolhimento das gigantes nacionais levanta a questão sobre quem ocupará o espaço vago. Enquanto no setor de bens duráveis a tendência é a migração para o e-commerce e para concorrentes nacionais sobrepostos, como o Magazine Luiza, o ecossistema regional cearense mostra força em outros segmentos do varejo.

Segundo Alan Lutife, neste mometo, há oportunidade para o varejo regional, mas não de forma automática. Ele afirma que redes locais e regionais podem ganhar participação se conseguirem combinar proximidade, atendimento, conhecimento do consumidor, assistência, crédito responsável e presença digital. 

"O consumidor cearense valoriza relação, confiança e solução rápida, especialmente em bens duráveis. Esse é um campo onde redes regionais podem competir bem. Mas uma parte relevante da fatia tende, sim, a ser capturada pelo e-commerce, principalmente nas compras mais orientadas por preço, comparação rápida e conveniência".

O presidente do Ibef ainda pondera que a oportunidade para o varejo regional está em "não tentar imitar simplesmente os grandes marketplaces, mas em usar suas vantagens próprias como relacionamento, entrega local, montagem, pós-venda, negociação personalizada e presença física como ponto de confiança". 

"A disputa não será loja física contra internet. Será varejo eficiente contra varejo ineficiente. Quem conseguir integrar loja, digital, crédito, logística e atendimento ganha espaço", observa.

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