O Brasil precisa resolver três gargalos domésticos para continuar um ciclo de crescimento econômico diante de conflitos globais de grandes potências. A análise é do economista Eduardo Giannetti. Em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, ele aponta que a chamada "hiperglobalização" — modelo que pautou a economia mundial nas últimas décadas — chegou ao fim.
Doutor pela Universidade de Cambridge e formulador de planos econômicos presidenciais, Giannetti será o palestrante de abertura do DN Business. O fórum acontece no próximo dia 10 de agosto, no BS Design, em Fortaleza, com foco na discussão sobre crescimento econômico e contas públicas.
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O primeiro desafio, conforme o economista, é referente ao capital humano e à educação, fatores decisivos na era da Inteligência Artificial.
"Para aumentar nossa competitividade, temos que dar mais atenção à educação", alerta ele, destacando o Ceará como a grande referência nacional no setor.
O estado do Ceará é um exemplo para o Brasil porque tem tido um desempenho muito melhor do que a média nacional nos indicadores de educação fundamental e média. O ponto de maior relevância é que, mesmo sem gastar proporcionalmente mais por habitante do que outros estados, os resultados cearenses no ensino fundamental, médio e técnico são muito acima do padrão brasileiro".
O segundo gargalo é o déficit logístico em transportes, portos, rodovias e ferrovias. Giannetti cita o agronegócio como o grande símbolo desse paradoxo.
"Temos um setor altamente eficiente 'dentro da porteira', mas que é severamente penalizado pelo ônus de uma infraestrutura externa que não agrega valor e dificulta todo o escoamento da produção".
Mais uma vez, ele aponta o Ceará como um laboratório de soluções por sua capacidade de liderar investimentos públicos via equilíbrio fiscal.
"O Ceará tem conseguido usar uma proporção maior do seu orçamento para melhorar a base de suporte à produção. O Complexo do Porto do Pecém é um exemplo concreto disso e de todo o sistema que cerca a região".
Para Giannetti, o terceiro desafio é consolidar a vocação do Nordeste como o hub global da economia verde.
Para o economista, o protagonismo regional em energia eólica, solar, hidrogênio verde e infraestrutura de tecnologia (como os data centers) precisa de um elemento essencial para se consolidar.
"O que precisamos mesmo é de segurança jurídica. Precisamos de continuidade de políticas públicas que sejam políticas de Estado, e não políticas de governo que mudam a cada gestão".
O que esperar da palestra de Giannetti no DN Business
No palco do DN Business, Eduardo Giannetti promete fazer a ponte entre a responsabilidade macroeconômica e a urgência do bem-estar social, defendendo que o combate à desigualdade não se faz com populismo fiscal.
"Acho que temos questões sociais cruciais para enfrentar, mas é preciso fazer isso com responsabilidade. Não se pode imaginar que gasto público insustentável vá atender a essa demanda legítima por um país mais justo e com mais oportunidades", pontua.
Apesar do tom realista de cobrança, o economista garante que o público do evento sairá com perspectivas promissoras.
"Vou levar ao DN Business uma mensagem de otimismo realista. Este novo momento geopolítico e econômico mundial traz ventos extremamente favoráveis ao Brasil. Cabe a nós não desperdiçá-los".
Além de Eduardo Giannetti, o DN Business traz ainda o economista-chefe da XP, Caio Megale.
O fim da "lógica fria" e a nova janela geopolítica
Segundo o especialista, o mundo está testemunhando o esgotamento de um longo ciclo de integração pautado apenas pela busca do menor custo e escala de produção.
"Esse movimento da hiperglobalização levou à incorporação, em um curto período, de centenas de milhões de trabalhadores asiáticos ao mercado global de trabalho e consumo. Levou a China a se tornar o que é hoje, responsável por um terço da produção manufatureira do mundo. Mas esse período chegou ao fim", explica.
Giannetti ressalta que a mentalidade dos grandes players mundiais mudou:
"Não vamos voltar para um mundo de economias fechadas e isoladas, mas está havendo hoje uma busca por diversificação e por segurança nas cadeias globais de produção. Não é mais aquela lógica fria de buscar apenas as regiões que oferecem menor custo. Nesse novo desenho, o Brasil surge como um porto seguro por ser um país geopoliticamente muito bem resolvido".
Para ele, o fato de o Brasil não ter conflitos de fronteira e negociar com altivez com os três grandes polos mundiais (Estados Unidos, China e União Europeia) joga a nosso favor. "Podemos usar em nosso benefício a rivalidade entre essas três potências. Esse novo momento traz ventos muito favoráveis ao desenvolvimento brasileiro."
O "precipício" fiscal e as lições do primeiro mandato de Lula
O maior entrave para que as vantagens competitivas do Brasil se materializem reside na trajetória da dívida pública. Giannetti adverte que, embora não veja uma insolvência imediata, o país caminha para uma situação insustentável.
"Se continuarmos mais um mandato presidencial com a dívida crescendo no ritmo atual, alimentada por gastos públicos elevados e juros altos que viram mais dívida, nós vamos caminhar para o precipício".
Para evitar o desastre, o economista prescreve um "choque positivo de ajuste fiscal" e resgata o pragmatismo econômico adotado pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início de sua trajetória no Planalto:
"Lula, quando assumiu em 2003, fez um superávit primário ainda maior do que o praticado pelo governo Fernando Henrique Cardoso. Durante dois anos, o Brasil praticou superávits de 4% a 4,5% do PIB e depois colheu os frutos disso. Abriu espaço para a política fiscal, o Brasil virou investment grade (grau de investimento), a inflação convergiu para a meta e tudo correu de maneira muito benéfica. O melhor cenário hoje seria a repetição desse padrão que o próprio governo Lula, lá atrás, mostrou que é exequível e possível fazer".
Na visão de Giannetti, o ajuste de hoje não precisa ser tão severo quanto o de 2003, mas precisa ser urgente e focado em três pilares. O primeiro seria o superávit de 2% a 2,5% do PIB.
Ele afirma que segundo um consenso de analistas, este patamar já seria suficiente para estabilizar a trajetória de crescimento da dívida pública a médio prazo.
Outro ponto seria apresentar um plano fiscal crível, "o que geraria a valorização do Real, reduziria a pressão inflacionária e abriria espaço para uma queda consistente e segura dos juros".
Já o terceito ponto seria aproveitar o início do mandato.
O governo não pode ser eleito para pensar o que vai fazer. Ele tem que entrar sabendo e agir de maneira pronta, na largada, que é quando o Executivo detém o capital político das urnas para aprovar medidas ousadas antes que as forças políticas se reorganizem".
Entre as medidas práticas para esse "pente-fino" inicial, Giannetti sugere atacar os gastos tributários (regimes de exceção e privilégios fiscais), repensar a indexação de benefícios sociais ao salário mínimo e desengessar o orçamento, eliminando os pisos obrigatórios de saúde e educação para dar flexibilidade à gestão.
"O dinheiro no Brasil já está gasto antes de ser arrecadado. O governo virou mero gestor de um orçamento engessado, agravado pela aberração completa que se tornaram as emendas parlamentares", critica.
SERVIÇO:
1º DN BUSINESS
Data: 10 de agosto de 2026 (segunda-feira)
Horário: 8h
Local: BS Design - Fortaleza (CE)
Inscrições: Garanta sua vaga diretamente na plataforma Sympla.
Padrão: R$ 349 (acesso a palestras e mesas redondas com especialistas)
VIP: R$ 849 (benefícios do padrão + almoço exclusivo com os palestrantes)
Realização: Sistema Verdes Mares