Muito além dos limites: cinco histórias de vidas transformadas pelo paradesporto

Igor, Ivanilda, Emylle, Miguel e Andreza encontraram no esporte não apenas um espaço de competição, mas também de pertencimento, identidade e transformação

Escrito por Alexandre Mota, André Almeida, Brenno Rebouças, Crisneive Silveira e Luiê Goís jogada@svm.com.br
19 de Setembro de 2026 - 09:06 (Atualizado às 09:46)
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Legenda: Miguel , Igor, Ivanilda, Emylle, e Andreza são paradesportistas e estão participando do ParaSesc.
Foto: Imagem gerada por IA

Na pista ou na quadra, na cadeira de rodas ou debaixo de uma trave, com espada na mão ou bola no pé. O esporte amplia as possibilidades e transforma vidas. É no powersoccer, na paraesgrima, na bocha, no futebol de cegos e no de amputados que cinco histórias se encontram. Igor, Ivanilda, Emylle, Miguel e Andreza descobriram no paradesporto um espaço de pertencimento. De promessas a nomes consolidados, o quinteto disputa a IV Jogos ParaSesc, em Fortaleza e Caucaia. O evento reúne xx pessoas com deficiência (PcDs) e 27 modalidades diferentes e ocorre até o dia 19 de setembro. 

O evento no Ceará mostra a relevância de oportunizar e dar protagonismo a este público. O Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, ou seja, 7,3% da população. E o Nordeste é casa da maior parte delas, com quase cinco milhões. Os dados são do IBGE, divulgados no Censo de 2022.

Mas essa gente não é só estatística. São trajetórias que traduzem a diversidade de um país que impõe desafios enquanto testa a resiliência de seu povo. Movimentar o corpo surge como resposta a isso.

“Conheci o power soccer e minha vida mudou”

Imagine receber, aos 8 anos de idade, um diagnóstico capaz de transformar completamente a sua vida. Daqueles que impactam não apenas o presente, mas, sobretudo, o futuro. Planos, expectativas, sonhos... Como explicar a uma criança que sua trajetória seria diferente da vivida pelas outras? Que não seria possível sequer praticar atividades simples, como brincar de esconde-esconde, apostar corrida ou jogar futebol com os amigos?

Foi preciso ter maturidade e resiliência de gente grande para virar esse jogo. Assim que o cearense Igor Gomes iniciou uma nova fase da vida quando, em 1998, recebeu o diagnóstico de atrofia muscular espinhal (AME) tipo 3. Trata-se de uma doença genética rara, neuromuscular e progressiva que afeta principalmente os neurônios motores — células da medula espinhal e do tronco cerebral responsáveis por comandar os músculos —, provocando fraqueza e atrofia muscular ao longo do tempo.

Igor Gomes, atleta do power soccer.
Legenda: Igor Gomes, atleta do power soccer.
Foto: Arquivo Pessoal

O que começou com cansaço e perda de força levou, aos 13 anos, à perda dos movimentos das pernas e à necessidade de utilizar cadeira de rodas. Após concluir o ensino médio, em 2008, Igor passou sete longos anos em casa, praticamente sem contato social ou atividades de lazer. O período culminou em crises de pânico e ansiedade, até que veio o estalo de que algo precisava ser feito.

“Foi aí que conheci o power soccer, e minha vida mudou completamente. Foi uma mudança completa de trajetória. Eu estava em um marasmo, sem perspectiva de vida. Quando via meus amigos jogando bola e eu sem poder jogar... era complicado. Poder estar em uma cadeira que dá liberdade para fazer algo de que você gosta representou a abertura de um horizonte muito grande. Finalmente, pude fazer uma coisa de que eu realmente gostava”, disse Igor.

A partir do paradesporto, ele conquistou uma bolsa para ingressar na universidade, graduou-se em Arquitetura e Urbanismo, passou a trabalhar na área e realizou sonhos que, um dia, pareciam impossíveis.

“Jogar pelo Fortaleza, sendo torcedor do clube, foi uma sensação única. Acompanho o time desde os tempos de Clodoaldo, Dude, Erandir, Rinaldo e companhia. Nunca imaginei que poderia representar o meu clube do coração. Isso também me proporcionou viajar de avião pela primeira vez. Já fui disputar o Campeonato Brasileiro, no Rio de Janeiro, e a Libertadores, na Argentina. Nunca passou pela minha cabeça fazer isso”, celebrou.

Igor Gomes, atleta do power soccer.
Legenda: Igor Gomes, atleta do power soccer.
Foto: Arquivo Pessoal

E não parou por aí. O bom desempenho rendeu convocações para a Seleção Brasileira — que Igor integra até hoje —, inclusive para competições internacionais nos Estados Unidos. E ele quer mais.

“Estamos trabalhando para conseguir chegar a uma Copa do Mundo. Disputamos as eliminatórias, mas, desta vez, não deu. Daqui a quatro anos tem mais, e vamos fazer o máximo para classificar o Brasil.”

Independentemente do que faça no power soccer, Igor sabe que dificilmente será capaz de retribuir tudo o que o esporte fez por ele.

“Esporte é vida. Além de dar energia, oferece uma esperança de vida melhor. Tira a pessoa de casa, mostra que há vida para a pessoa com deficiência e dá ânimo para fazer tudo. Sem o esporte, eu não estaria na situação em que estou hoje.”

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“O esporte, para mim, foi renascimento”

 

“Não fui eu que achei a esgrima. Ela me encontrou”. Ivanilda Santos, de 44 anos, não economiza ao se declarar ao esporte que transformou a vida dela. O olhar compenetrado, a máscara e a espada fazem parte da armadura de coragem que sustenta a cadeira de rodas. Ela conheceu a paraesgrima através da Adesul e disputa a ParaSesc de 2026. 

A cearense nasceu com má formação na medula espinhal, mas só perdeu o movimento das pernas aos 16 anos. Cadeirante há 28 anos, Ivanilda encontrou na atividade esportiva um meio de manifestar a presença dela no mundo. 

“O esporte, para mim, foi um renascimento. Sou mãe de dois rapazes, casada. Eu vivia nesse mundo fechado. Ele me trouxe amizades, conheci novos lugares. Ganhei uma bolsa e hoje faço faculdade por causa das minhas conquistas nos campeonatos”, destacou a atleta e estudante do curso de Serviço Social.

“Tive que reaprender tudo. Há 28 anos não se falava muito em PcDs. Pouco se via nas ruas. Se hoje ainda se bate na tecla de lugares acessíveis, há 28 anos isso era mais difícil ", completou. 

Ivanilda Santos durante competição no paraesgrima.
Legenda: Ivanilda Santos durante competição no paraesgrima.
Foto: Arquivo Pessoal

Ivanilda é da categoria A, de atletas com mobilidade no tronco; amputados ou com limitação de movimento. Ela disputa nas três armas: florete, espada e sabre. Entre as alegrias, os títulos da Copa Brasil (2022, 2023 e 2024). A porta de entrada para a atividade física foi a natação, há 12 anos. Depois veio o parabadminton até a esgrima. O encontro foi inusitado.

“No Centro Paralímpico de São Paulo, me deparei com a sala de esgrima vazia. Vi as cadeiras, a plataforma, uniformes, espada... Até então não sabia da existência desse esporte. Eu me apaixonei pela modalidade e quis fazer parte”, relembrou. 

“São três minutos que passam rápido. É um jogo de raciocínio também, de leitura do seu adversário”, completou. 

Ivanilda Santos, atleta do paraesgrima.
Legenda: Ivanilda Santos, atleta do paraesgrima.
Foto: Arquivo Pessoal

Referência no esporte, Jovane Guissone foi o primeiro brasileiro a conquistar uma medalha de ouro na história das Paralimpíadas (Londres 2012) na modalidade. Ivanilda não vislumbra mais a possibilidade de uma participação na competição, mas reforça o valor da prática esportiva.

“Para mim, o esporte trouxe liberdade, conhecimento, abriu portas. ​O ParaSesc dá uma visibilidade muito grande para o para desporto, abrindo portas e alcançando cada vez mais pessoas”, finalizou.

“Estamos lutando por vaga para o futebol de cegos nas Paralimpíadas de 2032”

Apesar da alcunha, autointitulada, do Brasil de “país do futebol”, nem todo brasileiro tem habilidade para chegar ao topo neste esporte. E se alcançar uma prateleira alta já é difícil contando apenas com o talento das pernas, a complexidade é maior quando um dos sentidos do corpo não está presente e o fator do pioneirismo é inerente. Andreza Lima, de 31 anos, superou todos esses obstáculos.

Ela é uma das cearenses que compõem a seleção brasileira feminina de futebol de cegos, criada em 2025. A outra é Lígia Nogueira, que por atuar como goleira, enxerga. Na modalidade, apenas as jogadoras de linha são deficientes visuais. E Andreza não enxerga desde o nascimento. Ela tem tapetorretiniana, doença hereditária que atinge a retina, após a mãe ter sido acometida por rubéola na gravidez.

Andreza Lima, atleta do futebol de cegos, também participa do ParaSesc.
Legenda: Andreza Lima, atleta do futebol de cegos, também participa do ParaSesc.
Foto: Divulgação/CDBV

O futebol de cegos entrou na vida dela em 2019, quando praticava outra modalidade, o goalball. A diferença entre os dois esportes está, principalmente, no modo de jogar. No primeiro, cada equipe tem quatro atletas de linha e uma goleira, que jogam de pé. No outro, são apenas três jogadores por time em quadra, deitadas, e os lances se limitam a arremesso e defesa. O tamanho da bola também difere, com a do goalball sendo maior. Ambas possuem guizo.

Andreza costumava ver os treinos do futebol de cegos começarem logo após os de goalball, na ADESUL. Um dia resolveu experimentar outra modalidade e trocou de esporte.

Ela chegou a treinar entre os homens pela falta de um time feminino. Ainda hoje a equipe das mulheres da instituição conta com apenas quatro atletas de linha e uma goleira, ou seja, não há reservas.

“Eu converso muito com as meninas que treinam comigo. Falo para elas aproveitarem a oportunidade, pois são novas, e mais na frente vão conquistar muitas coisas”, disse.

O pioneirismo dela também se reflete na seleção. A cearense faz parte do primeiro grupo nacional montado para a modalidade. A primeira competição que o Brasil disputou na categoria foi o campeonato mundial, em 2025, na Índia. De cara, um 4º lugar. Já neste mês de setembro, ficaram o vice-campeonato da Copa América de Futebol de Cegas, realizada no Brasil.

Andreza Lima, atleta do futebol de cegos, outra modalidade que também está no ParaSesc.
Legenda: Andreza Lima, atleta do futebol de cegos, outra modalidade que também está no ParaSesc.
Foto: Divulgação/CDBV

Na disputa do ParaSesc 2026, Andreza fala com entusiasmo e esperança do crescimento da modalidade. E enxerga a possibilidade de uma chegada às olimpíadas, mesmo que sem ela.

“Não temos esperança de ir para as Paralimpíadas de 2028, em Los Angeles, mas estamos lutando para em 2032 (em Brisbane, na Austrália), que já nem sei se estarei na seleção por conta da idade, mas se eu não for, que seja com outras atletas”, finalizou.


“Meu treinador sempre acreditou no meu potencial”

 

A bocha mudou a trajetória esportiva de Emylle Torres. Aos 26 anos, a atleta, nascida e criada em Fortaleza, encontrou na modalidade uma oportunidade para competir, superar desafios e projetar novos sonhos. A história começou em 2022, após um convite de um professor de natação.


Até então, o esporte aquático fazia parte da rotina. A bocha chegou apresentando um novo desafio e, principalmente, a oportunidade de competir. Desde então, a modalidade passou a ocupar um espaço importante na vida dela, que vem disputando e acumulando experiências em competições nacionais.

Emylle Torres, atleta da bocha, também disputa o ParaSesc.
Legenda: Emylle Torres, atleta da bocha, também disputa o ParaSesc.
Foto: Arquivo Pessoal


A chegada à modalidade também foi marcada pelo incentivo de pessoas próximas. Uma amiga começou acompanhando os primeiros jogos, passou a estar presente nas competições e, posteriormente, também se tornou atleta de bocha. O treinador foi outro personagem importante no desenvolvimento da carreira.


“Minha amiga começou me assistindo, passou a me acompanhar nos jogos e acabou se tornando atleta também. Meu treinador sempre acreditou no meu potencial e me incentivou a evoluir”, conta.


Emylle compete na classe BC3. Por não conseguir arremessar as bolas, utiliza uma operadora de rampa para realizar os lançamentos durante as partidas. A dinâmica exige concentração e estratégia em cada disputa, já que a atleta precisa trabalhar em sintonia com a operadora para executar cada jogada.

Emylle Torres, atleta da bocha, também está na disputa do ParaSesc.
Legenda: Emylle Torres, atleta da bocha, também está na disputa do ParaSesc.
Foto: Arquivo Pessoal


Nascida com artrogripose, condição que provoca deformidades e rigidez nas articulações, a atleta convive com a deficiência desde o nascimento. As adaptações fazem parte tanto da rotina quanto da prática da bocha. Com o passar dos anos, aprendeu a conhecer os próprios limites e a encontrar maneiras de realizar as atividades do dia a dia.


“Eu nasci com ela, então é a única forma de vida que eu conheço. Hoje eu me conheço muito bem e sei me virar no dia a dia, enfrentando os desafios de acessibilidade com adaptação, paciência (ou não)”, brinca.


Depois de descobrir a bocha e passar pelas primeiras experiências em competições nacionais, o objetivo agora é ampliar os horizontes. O sonho de Emylle Torres é viajar, competir em diferentes lugares e levar consigo as raízes que fazem parte da sua história.


“Quero viajar para o máximo de lugares que eu puder representando meu bairro, minha cidade, meu estado e, um dia, meu país, quem sabe”, completa.

“Atravessei muitas barreiras e consegui seguir”


Uma das principais revelações do paradesporto brasileiro é do bairro do Genibaú, em Fortaleza. Com apenas 18 anos, o cearense Miguel Lucas se tornou uma referência na modalidade do futebol de amputados, virando o goleiro da Seleção Brasileira, em uma trajetória de resiliência e superação.


“Eu nasci com uma paralisia em um braço, uma deficiência desde o parto, então sempre existi assim, cresci assim, e não me vejo como alguém inferior, mas sim com um dom de jogar futebol”, declarou.

O cearense Miguel Lucas é um atleta da Seleção Brasileira de Amputados
Legenda: O cearense Miguel Lucas é um atleta da Seleção Brasileira de Amputados
Foto: arquivo pessoal

Logo, a autopercepção se tornou um processo. As dúvidas com o corpo foram dissipadas pelo apoio da família e pela maturidade, e o sonho de ser um atleta se tornou alicerce, apesar do preconceito.

“No futebol convencional, sofri algumas vezes com comentários depreciativos, xingamentos, que já me deixaram pra baixo, me fizeram pensar em parar, mas acho que isso moldou meu caráter para não encerrar esse sonho. E o futebol de amputados foi essencial para eu enxergar isso”, relembrou.

Antes inserido apenas no esporte convencional, com passagens pelas categorias de base de times como o Calouros do Ar, Miguel se viu paralisado em 2024 após ser alvo de ofensas durante uma final, e esse medo foi ressignificado em 2025, quando foi convidado para o futebol de amputados. “Conheci histórias parecidas com a minha, me adaptei logo e me senti inspirado por eles”, afirmou.

Miguel Lucas também atua no futebol convencional na função de volante
Legenda: Miguel Lucas também atua no futebol convencional na função de volante
Foto: arquivo pessoal

A volta ao esporte veio na posição de goleiro, mas também foi impulso para o campo convencional. Atuando em duas funções, entrou no elenco do time da Adesul no paradesporto, participando pela 1ª vez do Campeonato Brasileiro na temporada passada, sendo eleito o melhor do setor, chamando a atenção da Seleção Brasileira, e acumulando diversas convocações ao time nacional desde então.

“Hoje, me sinto bem comigo mesmo, sou respeitado no meu bairro, na minha casa, e tenho o sonho de crescer no esporte muito vivo junto da minha família. Atravessei muitas barreiras e consegui seguir, atuando nas duas modalidades, com rotina de treino ao longo da semana e o foco de me manter para a Seleção Brasileira, que foi uma sensação indescritível de ser chamado”, completou.


Muitas histórias, um legado


A quarta edição do ParaSesc tem a Adesul como parceira. Além de incentivar o exercício físico, a competição evidencia como o esporte traz outros ganhos: transformação social, envolvimento da comunidade e inclusão.


“Acreditamos que o esporte tem um papel importante na garantia de direitos e na promoção da inclusão, porque ele cria oportunidades de participação, convivência e desenvolvimento para diferentes públicos. A realização de competições como o ParaSesc é fundamental justamente por proporcionar essa vivência esportiva e mostrar que o esporte deve estar acessível a todos”, destacou Luiz Fernando Bittencourt, presidente da Fecomercio (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) . 

“Durante a programação, temos a oportunidade de acompanhar atletas que estão participando de uma competição pela primeira vez, ao lado de pessoas que já possuem uma trajetória mais consolidada no esporte. Essa diversidade é muito significativa e reforça o propósito do ParaSesc de utilizar o esporte como uma ferramenta de inclusão, convivência e transformação social’, completou. 

Além das disputas, o evento também contou com atividades culturais, de lazer e saúde. Mas a contribuição que a competição deve deixar vai além. 


“O principal legado é mostrar que o esporte é uma possibilidade fomentando ainda mais o paradesporto no Ceará, que muitas vezes acaba restrito a outras regiões do Brasil. Queremos que cada participante tenha a oportunidade de vivenciar sua modalidade, de estar com outras pessoas, de desenvolver suas potencialidades e de se reconhecer também como parte desse universo esportivo”, afirmou Bittencourt.

“Quando conseguimos ampliar essas oportunidades, contribuímos não apenas para a trajetória dos atletas, mas também para uma sociedade que compreende cada vez mais a importância da inclusão e da acessibilidade”, concluiu.

Arte e Infográficos: Louise Dutra/SVM

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