Professora ganha homenagem de escola em Fortaleza após 31 anos no ensino público: 'Muito grata'

Lenisce Magalhães despediu-se da sala de aula sem ter esperado a surpresa.

Escrito por Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
06 de Outubro de 2026 - 06:00
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Legenda: Homenagem ocorreu no intervalo entre aulas e envolveu estudantes, núcleo gestor e até a família da educadora.
Foto: Arquivo pessoal.

Flores, cartas, um corredor de aplausos e muita emoção. A manhã da última sexta-feira (2) nunca sairá da memória de Lenisce Magalhães. Foi quando a professora deu a última aula na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Manoel Rodrigues, no bairro Jardim Guanabara, em Fortaleza, após 31 anos de dedicação ao ensino público. “Não cheguei a desconfiar, foi tudo muito lindo”, conta, sentimentos a mil.

A homenagem aconteceu no intervalo entre aulas e envolveu estudantes, núcleo gestor e até a própria família da educadora. O marido e as duas filhas dela, por exemplo, foram celebrar a esposa e a mãe depois de tantos anos de árdua entrega, tanto em casa quanto no ambiente escolar.

Para Lenisce, o que poderia ser apenas o último dia de trabalho formal – a professora sempre chegava às 7h na escola e dava aula para, pelo menos, 160 alunos diariamente – representou brilho e comoção.

"A gente sabe que a gente deixa alguma coisa, que é exemplo para os estudantes, mas sempre surpreende. Os meninos vinham e queriam me abraçar sem parar, sabe? Faziam filas. Foi muito bom ver que eu fiz alguma coisa, transmiti algo a eles”.

Esta história começa quando a jovem Lenisce Magalhães concluiu a graduação no curso de Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC). A filha mais nova ainda era bebê quando ela trabalhou como professora de forma temporária no Governo do Estado; na sequência, foi aprovada em concurso da Prefeitura de Fortaleza e lotada na mesma instituição onde a despedida aconteceu. Apenas nesta última casa, foram 25 anos de ofício.

Flores, cartas, um corredor de aplausos e muita emoção marcaram tributo à professora.
Legenda: Flores, cartas, um corredor de aplausos e muita emoção marcaram tributo à professora.
Foto: Arquivo pessoal.

“Eu tinha até pensado em falar com a diretora para que, no último dia de aula, eu desse uma mensagenzinha para os meus alunos e um chocolate. Mas ela não chegou a dizer nem por um momento que ia fazer uma despedida. Comentei que ia comprar uns salgadinhos pra levar, mas ela insistiu para eu não fazer isso. Eles já tinham encomendado tudo”, ri.

Vida dedicada à Educação

Lenisce dava aulas de Língua Portuguesa e perdeu a conta de quantos estudantes instruiu. Numa conta rápida, eram 320 por ano, o que, multiplicado a 25, expressa, em números, a grandiosidade de um trabalho feito dia após dia com muito esmero.

Lenisce dava aulas para pelo menos 160 alunos diariamente.
Legenda: Lenisce dava aulas para pelo menos 160 alunos diariamente.
Foto: Arquivo pessoal.

Muito além da estatística, sempre interessou à educadora de 62 anos presenciar os pupilos “vencendo na vida”, como diz. Não que não houvesse desafios na jornada. Foram muitos, principalmente devido às precariedades enfrentadas por escolas públicas, no geral. 

“Havia as condições dos prédios, a carência dos alunos… Muitos chegavam com fome para estudar”, lembra, com pesar. “Agora, no fim da carreira, vi a juventude impactada pela tecnologia, que atrapalhava a concentração dos estudantes. Também precisei me adaptar a várias mudanças ao longo do tempo”.

O resultado reflete-se em brilho no olho e alma em festa quando presencia alunos aprovados no Instituto Federal de Educação (IFCE) – um dos grandes objetivos das turmas de Ensino Fundamental II para as quais dava aula –, por exemplo, ou quando os encontra na vida cotidiana.

Para se ter ideia, hoje o professor de musculação de Lenisce na academia já foi orientado por ela em sala de aula.

“São muitos momentos marcantes – desde receber lembrancinhas e cartinhas, até você ver eles passando no IFCE, quando presencia aquele sucesso... Uma história que é bem interessante é quando fui fazer uma compra e um aluno, quando me viu, correu e me abraçou. Esse menino tinha passado no IFCE na época e perguntei como ele estava”, partilha.

Lenisce com o corpo gestor da escola onde dedicou 25 anos de trabalho.
Legenda: Lenisce com o corpo gestor da escola onde dedicou 25 anos de trabalho.
Foto: Arquivo pessoal.

“Ele estava morando na Argentina, trabalhando como ator de teatro, fazendo sucesso por lá. Quando foi se despedir, me abraçou e disse: ‘Lenisce, tudo que eu sou tem um pedaço de você na minha vida’. Foi uma coisa tão maravilhosa, sabe?”. Ao mesmo tempo, lembra também de quem a encontra no transporte público e diz se arrepender de não ter seguido conselhos. “Isso tudo é muito bom”, gargalha.

O que fazer depois da carreira

Grata por receber tamanho carinho e por ter conseguido encerrar a carreira de pé – “com a saúde mental não tão boa, mas ainda com certa saúde mental”, ri – credita à dedicação dos professores da última escola onde esteve o êxito de tantos estudantes que, mesmo em contexto de precariedade, viram-se dispostos a escrever uma história diferente para a própria vida. “Acho que a gente faz a diferença”, percebe.

“É comovente ver muitos estudantes nos quais os pais foram meus alunos. E gratificante perceber que, apesar de todas as dificuldades, quando a gente realmente exerce ou gosta do que tá fazendo, dá resultado. Existem alegrias e realizações”.

A professora na fachada da escola onde lecionou na última fase da carreira.
Legenda: A professora na fachada da escola onde lecionou na última fase da carreira.
Foto: Arquivo pessoal.

Agora, aposentada do ofício, Lenisce quer sobretudo descansar, mas sem deixar de se movimentar. Pretende seguir cuidando da saúde na academia, alimentar o hobby de fazer peças em crochê, assistir a filmes. Reinvenção é palavra-chave. “Tô encarando como um novo ciclo. Vou me refazer”.

“A energia dos adolescentes é muito grande, e há muita demanda hoje em dia. Mas me sinto muito grata. Agora vou fazer cursos e vamos ver o que a vida me aguarda”.

No mesmo movimento, reflete sobre a importância da Educação para uma nação: “É a base, o alicerce. O País só se desenvolve se tiver Educação. Às vezes, existem esforços dos políticos em fazer projetos, mas ainda é pouco. A gente precisa de mais”.

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