O passeio de pônei, o cheiro do carneiro assado, os trotes dos cavalos e a curiosidade diante de bois e vacas de grande porte estão entre as lembranças que atravessam gerações de visitantes da Exposição Agropecuária e Industrial do Ceará (Expoece), que inicia neste sábado (31) sua 70ª edição.
Ao longo de sete décadas, o evento se consolidou como espaço de negócios, competição entre criadores e apresentação de animais de diferentes raças, mas também como uma experiência de lazer que faz parte da memória de muitas famílias.
Para Dálvaro Paixão, vice-presidente regional da Associação dos Criadores do Ceará (ACC), a relação com a exposição começou ainda na infância. Filho de criador, ele frequentava o parque acompanhado do pai, hoje com 87 anos e ainda presente no evento. As lembranças passam pelos passeios de pônei, pela área dos cavalos, pela comida e pelo movimento em torno dos animais.
A tradição familiar ganhou outro significado quando Dálvaro passou a participar como expositor, entre 2011 e 2012. Foi na própria Expoece que ele comprou os primeiros animais e começou a formar seu criatório. Agora, o filho também acompanha a exposição.
Para ele, a permanência de atrações tradicionais ajuda a explicar a força do evento. “Você chega e vai ter aquele carneiro, aquela parte dos cavalos. O picadeiro é o mesmo até hoje”, conta.
A 70ª edição ocorre no tradicional Parque de Exposições Governador César Cals, em Fortaleza, entre os dias 31 de outubro e 8 de novembro de 2026.
Dos leilões em cruzeiros aos negócios milionários
Além das memórias afetivas com os cearenses, a Expoece sempre teve uma dimensão econômica importante. Os registros de jornais das décadas de 1970 e 1980 mostram que a comercialização de animais, os leilões e o financiamento da atividade pecuária já ocupavam espaço central na programação.
Em setembro de 1980, uma reportagem do jornal Correio do Ceará informava que a exposição havia negociado mais de Cr$ 60 milhões em animais — equivalente a cerca de R$ 14 milhões nos dias atuais. O texto também destacava a participação de instituições financeiras, como Banco do Estado do Ceará (BEC), Banco do Brasil e Banco do Nordeste, no financiamento das compras.
Dois anos depois, o alcance era ainda maior. A organização orçava movimento financeiro de R$ 25 milhões em negócios.
A exposição daquele ano chegou a reunir cerca de 2 mil animais. A programação incluía julgamentos, leilões e linhas de financiamento para a compra de bovinos, caprinos e suínos. A presença de instituições financeiras era uma estratégia para facilitar a aquisição de reprodutores e melhorar a qualidade dos rebanhos.
Legenda:
Um touro de cinco toneladas de mais de uma tonelada.
Foto:
Cedoc SVM.
Em sete décadas, os animais foram e são protagonistas da exposição. Nos arquivos dos Sistema Verdes Mares (SVM), alguns deles aparecem identificados pelo nome, peso, raça e resultados nos julgamentos.
Em uma das edições na década de 1980, o touro Fandango chamou a atenção dos visitantes. Na época, com 38 meses, o animal pesava 900 kg. O criador destacou que, apesar de ainda jovem, o garrote tinha potencial para ganhar mais estrutura e peso.
Em outra edição, uma vaca de cinco anos e 800 kg foi apontada como grande campeã da raça Pardo Suíço. O animal foi vendido a um produtor cearense por R$ 8 mil.
A raça Guzerá também ganhou destaque. Um touro de cinco anos ultrapassava uma tonelada. A resistência às condições de pastagem seca era uma das características ressaltadas pelo criador, especialmente diante dos desafios do clima semiárido.
A produção de leite e o melhoramento genético aparecem em diferentes momentos da história da exposição. O gado Jersey, por exemplo, ocupou dois pavilhões em uma das edições registradas, com animais de diferentes criadores. A raça é reconhecida pela especialização na produção leiteira.
Na avaliação de Dálvaro, a evolução genética é uma das transformações mais perceptíveis ao longo dos anos. Os animais apresentados atualmente são resultado de investimentos dos criadores em seleção e melhoramento dos rebanhos. A exposição continua sendo uma vitrine para mostrar exemplares considerados de alto padrão.
Carneiros, cabras e raças adaptadas ao semiárido
Os ovinos e caprinos também conquistaram espaço na Expoece. As reportagens de arquivo mostram a presença de raças como Santa Inês, Dorper, Somalis, Alpina e Anglo-Nubiana, além de animais de diferentes estados do Nordeste.
No final dos anos 1990, um carneiro da raça Santa Inês, com 20 meses e 105 kg, foi apontado como grande campeão.
A escolha das raças também está relacionada às condições do território cearense. Criadores destacavam a resistência dos animais ao clima quente e à escassez de água.
A exposição também servia para apresentar animais ainda jovens, mas com potencial comercial elevado. Em uma reportagem, criadores explicaram que exemplares ovinos com menos de um ano e meio já podiam alcançar cerca de 100 kg. O investimento em alimentação, cuidados e seleção genética era apontado como parte do caminho para conquistar premiações.
Cuidado com os animais também mudou
A preparação para a exposição vai além da escolha dos exemplares. Os registros da época mostram criadores investindo em estrutura para reduzir o impacto da saída dos animais da rotina das fazendas.
Em uma edição que reuniu mais de 3 mil animais dos anos 1990, entre bovinos, ovinos, caprinos e equinos, o pavilhão de gado Holandês recebeu adaptações para melhorar o conforto do rebanho. Um criador de Pacajus levou 32 animais puros da raça e instalou cortinas para impedir a entrada direta do sol e ventiladores para ajudar no controle da temperatura.
Os cavalos também exigem preparação específica. Nos anos 2000, a égua Gaivota, da raça Mangalarga Marchador, foi apresentada como campeã aos dois anos de idade. O tratamento incluía escovação diária, xampu e alimentação especial para manter a aparência do animal. “A Gaivota é mansinha, ainda vai crescer muito”, dizia a reportagem.
Festa para toda a família
A programação da Expoece nunca ficou restrita aos julgamentos e às negociações. A exposição também se tornou um espaço de convivência, com atrações musicais, comidas, artesanato e atividades para crianças.
Em 2015, quando chegou à 61ª edição, a feira previa receber cerca de 250 mil visitantes e movimentar mais de R$ 13 milhões em negócios. A organização estimava a participação de mais de 4 mil animais e cerca de 300 criadores. A programação incluía exposições de bovinos, caprinos e ovinos, concursos de leite, apresentações de cavalos, atividades para estudantes e a Feira do Pequeno Produtor Rural.
A música também aparece nos registros históricos. Em 2000, a programação nomes como Zanzibar, Maçã do Amor, Estrelas do Forró, Língua de Cobra, Balaio de Gatos e Agitação do Forró. Outras atrações incluíam Cheiro de Menina, Cavalo de Pau e Gaviões do Forró.
A presença de pequenos animais também ajudava a aproximar o público infantil da exposição. Em uma reportagem, aves como rolinhas chinesas, mandarins, diamantes-de-gould e periquitos australianos eram apontadas como algumas das atrações mais procuradas pelas crianças.
A feira também abriu espaço para artesãos, vendedores de alimentos e pequenos empreendedores. Em uma das reportagens, um expositor de roupas e acessórios country apresentava chapéus, botas e cintos com grandes fivelas, enquanto outro trecho mostrava a movimentação em torno de produtos artesanais e da gastronomia.
Em 2026, a expectativa da Expoece é de receber 300 mil pessoas e movimentar R$ 30 milhões.
Personagens que mantêm a tradição
Parte da história da Expoece também é contada por quem retorna ao parque todos os anos. Para Cristina Franco, secretária da ACC, a participação de pequenos empreendedores e municípios cresceu. A área comercial costuma terminar cada edição com uma lista de interessados que não conseguiram espaço para expor seus produtos.
Ela acompanha de perto os pequenos negócios e lembra de vendedores que se tornaram personagens conhecidos da exposição. É o caso de Zé Maria, que comercializa brinquedos há cerca de 25 anos, e de Dona Fátima, que participa há mais de duas décadas com comidas como bolos e pratinhos. Mesmo aposentada, ela mantém o hábito de retornar ao evento.
A participação de artesãos e pequenos produtores envolve preparação durante todo o ano. Para muitos, a Expoece é uma oportunidade importante de apresentar produtos, encontrar consumidores e complementar a renda.
Cristina também destaca o crescimento da presença de municípios, como Maracanaú, Sobral, Itaitinga e Pacatuba, que levam empreendedores e produtos locais ao parque. A estrutura comercial e a articulação com as cidades do interior passaram a ocupar espaço cada vez maior na organização da feira.
Na avaliação dela, mudanças recentes de infraestrutura e a ampliação das parcerias contribuíram para esse crescimento. Ainda assim, a memória de quem frequenta a exposição há décadas continua ligada aos animais, aos encontros e às atividades tradicionais.