Perder um pouco de urina ao tossir, espirrar, rir ou fazer um esforço físico ainda costuma ser tratado como motivo de piada ou como uma consequência "normal" do envelhecimento. No entanto, especialistas alertam que o escape urinário não deve ser ignorado e que merece atenção desde os primeiros sintomas.
Embora seja uma condição frequente entre as mulheres após os 40 anos, também pode afetar jovens, refletindo diretamente na qualidade de vida desse grupo.
“O silêncio em torno do assunto atrasa diagnósticos, e o estigma afasta os pacientes”, afirmou o coordenador médico da farmacêutica Apsen, William Santos, durante evento realizado em São Paulo, na quarta-feira (5).
Reconhecer os sinais de forma precoce e buscar orientação médica é o primeiro passo para evitar que o quadro evolua e comprometa a rotina.
O Diário do Nordeste conversou com as médicas Rebeka Cavalcanti e Carmita Abdo sobre as consequências do tabu em torno da incontinência urinária; as formas de tratamento e como é feito o diagnóstico.
O que é escape de urina?
O escape de urina é uma condição da incontinência urinária. O médico William Santos detalha que essa é a perda involuntária de urina pela uretra, que pode variar de pequenas gotas a volumes maiores.
“Embora comum, pouco se fala sobre essa condição por causa da vergonha, o que impede muitas pessoas de buscarem tratamentos. Algumas nem mesmo sabem que há tratamentos”, disse William.
Quais são as principais causas do escape de urina?
O escape de urina tende a ocorrer principalmente após os 40 anos, mas diversos fatores podem contribuir para essa condição, como obesidade e doenças neurológica. Dentre outas causas, estão:
- Menopausa;
- Gravidez e parto;
- Envelhecimento;
- Esforços físicos intensos.
Quais são os tipos de incontinência urinária?
Existem três tipos de incontinência urinária, conforme destaca o médico William Santos. Ela pode ser de:
- Esforço: caracterizada pela perda de urina em situações de pressão abdominal;
- Urgência: caracterizada vontade súbita e incontrolável de urinar;
- Mista: combinação de esforço e de urgência.
Quando o escape de urina é um sinal de alerta?
O escape de urina, em qualquer quantidade, já é um sinal de alerta, mas pode ser ainda mais urgente se a frequência aumentar. Também pode ser preocupante se vier associado a dor, sangue na urina ou infecções recorrentes.
Segundo uma pesquisa da Apsen realizada pelo Instituto Ipsos sobre o tema, 56% das mulheres acima de 40 anos relataram perdas involuntárias ou escapes de urina. Quando o recorte foca em mulheres com mais de 60 anos, esse número sobe para 60%.
Das mulheres convivem com os sintomas há mais de 2 anos.
Além dos impactos físicos, o escape de urina ainda compromete a autoestima e favorece o isolamento social. As mulheres podem acabar optando por reduzir a prática de atividades físicas ou mudar suas relações familiares e profissionais.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da incontinência urinária considera o perfil de cada paciente, segundo a urologista Rebeka Cavalcanti. A condição pode ser identificada de diferentes maneiras, como:
- Avaliação clínica;
- Exame físico;
- Exames complementares.
Alguns profissionais podem pedir para a paciente manter um diário miccional, detalhando a quantidade de vezes em que vai ao banheiro e o fluxo.
Tratamentos disponíveis para escape de urina
Da mesma forma que o diagnóstico varia para cada paciente, o tratamento também. “Tem que entender quais são os fatores da condição da mulher e sempre começar o tratamento menos invasivo para o mais invasivo”, disse Rebeka.
As opções são diversas, podendo passar por reposição hormonal, medicamento, fisioterapia pélvica, mudanças comportamentais e até cirurgia.
“A gente precisa entender quais são fatores predisponentes que essa paciente tem, se é obesidade, qual o tipo de incontinência, qual é a que predomina para poder direcionar qual o melhor tipo de tratamento”.
É possível prevenir o escape de urina?
Como forma de prevenção, é preciso manter hábitos saudáveis, controlar o peso e realizar o fortalecimento do assoalho pélvico.
“Acho que toda mulher deveria fazer um ciclo de fisioterapia pélvica para conscientização do assoalho pélvico”, destacou Rebeka.
Segundo ela, contrair essa região não é o mesmo que prender a respiração ou travar o abdômem. É preciso ter uma orientação direcionada para isso. “Precisamos aprender o funcionamento dessa musculatura que é tão importante para a gente”, disse.
Toda mulher pode desenvolver incontinência urinária?
Sim. Alguns fatores podem aumentar a predisposição entre as mulheres, como:
- Idade avançada;
- Obesidade;
- Tipo de parto;
- Tabagismo;
- Histórico familiar.
“É mais comum ter do que não ter. É fundamental abordar esse assunto, falar das formas de evitar, previnir ou tratar, para que a população seja mais bem informada”, declarou a sexóloga Carmita Abdo.
Qual médico devo procurar?
O recomendado é buscar uma ginecologista ou urologista, e falar abertamente sobre o assunto.
De acordo com a pesquisa da Apsen, 58% das mulheres não são questionadas pelos profissionais de saúde sobre a perda de urina. Por isso, mesmo que o assunto não seja colocado em pauta, as mulheres devem relatar a perda involuntária de urina.
Mulheres em situação de vulnerabilidade são mais afetadas
Cabe salientar ainda que se as mulheres já tendem a enfrentar problemas de escape urinário ao longo da vida, isso aumenta ainda mais no caso daquelas que estão em situação de vulnerabilidade.
“Quanto pior a qualidade de vida e os hábitos, maiores são as chances de levar a perda urinária. São fatores tanto de ordem física, quanto emocional, como se alimentar de forma inadequada, e com isso ganhar peso, não ter sono reparador e aumentar o nível de ansiedade”.
Por isso, é fundamental que todas as classes tenham acesso aos cuidados e aos tratamentos dessa condição. “A boa notícia é que os cuidados não são dispendiosos, como para outras doenças seriam”, afirma Carmita.
Assim, a mulher que precisar de fisioterapia pélvica, pode aprender os exercícios e depois desenvolver por conta própria. Caso precise de medicamentos, é possível conseguir por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
Nesses casos, talvez a maior dificuldade seja o acesso à informação. “Quanto mais cedo buscar ajuda, mais fácil será o resgate da saúde dessa região e a perda de urina será controlada”, disse a sexóloga.
Pesquisa e campanha sobre incontinência urinária
A pesquisa “Escape do Tabu: retratos da Incontinência Urinária no Brasil” foi realizada entre os dias 30 de junho e 8 de julho deste ano. Ao todo, 1,5 mil mulheres com 40 anos ou mais foram entrevistadas. Os perfis contemplaram mulheres das classes A, B e C, residentes em todas as regiões do Brasil.
Além da pesquisa, a Apsen ainda realizou uma campanha para combater a falta de informação sobre o assunto. A empresária Helô Pinheiro, inspiração da música “Garota de Ipanema”, chegou a conviver com a condição e abordou o assunto durante o evento em São Paulo.
Helô, que também é embaixadora da campanha de conscientizaçao sobre o escape urinário, destacou a importância de quebrar o silêncio sobre o tema.
“Temos que sempre enfrentar tudo de cabeça erguida. Depois de uma certa idade, a gente começa a não ligar muito para os que os outros pensam. Temos que seguir cuidando da saúde, não dá para esconder”, declarou a empresária.
*A repórter viajou a convite da Apsen para evento em São Paulo.