Ondas de calor mais intensas, períodos de seca, mudanças na umidade do ar e fenômenos climáticos como o El Niño já fazem parte de uma nova realidade ambiental, e os efeitos dessas transformações também são sentidos na pele.
No Ceará, onde há forte incidência solar durante quase todo o ano, as mudanças no comportamento do clima podem trazer novos desafios para a saúde. Mas será que estamos preparados para esses efeitos?
Exposta diretamente às condições do ambiente, a pele reage às variações de temperatura e umidade, podendo apresentar desde aumento da oleosidade e da transpiração até ressecamento, irritações, queimaduras, manchas e maior vulnerabilidade aos danos provocados pela radiação solar.
Diante desse cenário, especialistas em dermatologia discutem como os eventos extremos interferem na saúde da pele e quais cuidados podem ajudar a protegê-la, enquanto a indústria farmacêutica e de cosméticos busca desenvolver produtos cada vez mais adaptados às mudanças do clima.
"Nessas regiões de forte incidência do sol na maior parte do ano, temos que pensar na fotoproteção de forma diferente. A questão da umidade interfere na formação do filme do protetor, aumentando a importância da reaplicação. Em ambientes mais úmidos, há uma indicação geral de que é preciso reaplicar a cada duas horas, mas é necessário analisar aspectos como a forma que a pessoa aplica esse protetor, o ambiente que ela está, o nível de umidade do local e o contato com roupas", explica Sérgio Schalka, médico dermatologista especialista em fotoproteção e coordenador do Consenso Brasileiro e Latino-Americano de Fotoproteção.
Como os cosméticos se adaptam à pele com as mudanças climáticas
A indústria tem acompanhado esse impacto das ondas de calor e do El Niño na pele e como essas alterações podem afetar a saúde cutânea. Novas tecnologias de formulação de protetores solares visando peles mais sensibilizadas pelo aquecimento e outras adversidades climáticas já chegaram ao País.
Nathalia Harnam, diretora de comunicação científica e especialização da Divisão de Beleza Dermatológica do Grupo L'Oréal no Brasil, destaca a importância de desenvolver fórmulas ultrarresistentes para que o filtro solar permaneça íntegro na pele o máximo de tempo possível.
"Já estamos caminhando para essa questão das mudanças climáticas. Uma formulação que resista às temperaturas mais elevadas é uma prioridade. Se a gente faz uma pequena caminhada, sai pra almoçar, se está em um lugar muito úmido, é importante que o filtro não saia da pele. É recomendada a reaplicação, mas a gente sempre vai tentar que o filtro tenha o maior tempo de vida possível na pele. Existe uma tecnologia aplicada para fazer essa resistência, que conversa muito com o que já estamos imaginando para o futuro, que são condições mais extremas, já estamos antecipando essa tendência intencionalmente", reforça Harnam.
A diretora afirma que os filtros solares da marca passam por testes rigorosos em saunas de 37°C, simulando o clima quente e úmido e outras variações de condições ambientais, estimulando a produção de suor e sebo, para garantir uma entrega eficaz de proteção.
"Os testes são feitos em condições extremas de temperatura, umidade e oleosidade, como saunas, e contam com simulação de situações no dia a dia, com voluntários. Para desenvolver um protetor, são muitas variáveis e um processo complexo de muitas fases, para entregar ao público uma fotoproteção que se mantenha íntegra e proporcione uma proteção segura, com a responsabilidade de garantir uma proteção na medida que o filtro permanece resistente", completa a especialista.
Nathalia Harnam destaca que, além das temperaturas intensas, a ampla diversidade de tipo e cor de pele no Brasil fazem do país um celeiro de estudos científicos em saúde dermatológica, refletindo no desenvolvimento de fórmulas eficazes de proteção solar que são exportadas para o mundo inteiro.
"É essencial ter formulações próprias para todo tipo de pele e entender as necessidades da pele brasileira. É difícil criar essa conscientização para o uso de filtro solar todos os dias se o produto proporcionar uma experiência ruim, de sentir a pele derretida, ou de cor acinzentada, a pessoa pode pensar que aquele produto não é para ela e largar o uso", alerta a diretora de comunicação científica do Grupo L'Oréal.
Como proteger a pele em ondas de calor?
Cientistas alertam que as temperaturas elevadas, por si só, vão gerar uma exposição maior aos raios solares, além de outros fatores estressores como a poluição, que também causa danos como manchas, inclusive o melasma.
Não é apenas o aumento da temperatura, é a mudança no perfil de chuvas, da duração dos dias de sol, tudo isso vai impactar na saúde da pele e é preciso mudar as estratégias de proteção".
A pele oleosa é uma característica comum em pessoas que moram no Ceará. Segundo Tatiane Roseno, dermatologista especialista em oncologia e cosmiatria, é um desafio prescrever protetores solares mais densos, direcionados a peles mais maduras, devido ao clima mais quente no Estado.
"Com o calor extremo, a pele não suporta, derrete com mais facilidade. Então, o cearense prefere um protetor mais seco, com sensorial mais leve, fluido, que seja confortável e estimule o uso contínuo. As pessoas aqui geralmente não gostam da aparência de brilho no rosto, têm a preferência por produtos que deixam um aspecto mais seco porque associam o brilho à oleosidade. Tem que oferecer um bom aspecto sensorial sem abrir mão da segurança. É a ciência se adaptando às novas necessidades", afirma a especialista.
Com essa sensação maior de calor na pele, substâncias que proporcionem uma sensação mais leve e refrescante na hora da aplicação e a formação do filme protetor mais resistente se tornam essenciais.
A proteção é muito associada ao filtro solar, mas há outros recursos e medidas de segurança recomendados pelos especialistas:
- Óculos escuros;
- Chapéu com aba grande;
- Blusas UV;
- Buscar espaços com sombra;
- Ter atenção a áreas geralmente esquecidas, como orelhas e couro cabeludo.
"O que recomendamos na prática, na fotoproteção do dia a dia, é que faça pelo menos uma reaplicação próximo da hora do almoço. Aplica pela manhã, antes de sair de casa, e faz um reforço quando for almoçar para garantir uma proteção no período da tarde. Isso permite uma proteção equilibrada. Mas em ambientes de alta umidade, ou de imersão na água, como praia e piscina, é preciso reaplicar a cada duas ou três horas para não perder o filme que protege a pele", recomenda Schalka.
Como escolher o protetor solar ideal?
O dermatologista explica que o Fator de Proteção Solar (FPS) mede a proteção contra a queimadura do sol, indicando quanto tempo podemos ficar expostos sem queimar a pele. No entanto, esse não deve ser o único parâmetro na hora de escolher um protetor solar.
"Quando a gente escolhe um protetor baseado no FPS, estamos vendo apenas um dos problemas da exposição ao sol. A queimadura é decorrente dos raios ultravioleta B, com radiação mais intensa próximo ao horário do meio-dia. Já o dano do envelhecimento, muito decorrente do UVA, não está medido pelo número do FPS. Não obrigatoriamente um protetor que tem alto FPS vai ter proteção ultravioleta A", explica o médico.
O especialista também alerta para o fato de que estar protegido contra queimadura não garante proteção contra os danos oxidativos invisíveis que se acumulam ao longo das exposições solares, que causam o envelhecimento da pele.
"A escolha só por número de FPS pode ser um engano, tem que ter a proteção UVA adequada, que nem sempre está clara no rótulo do produto. Sempre procure um dermatologista para orientar nessa escolha, atendendo as necessidades de cada pele", alerta o médico.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) recomenda o uso de um protetor com FPS mínimo de 30 para qualquer tipo de pele. Diversos fatores podem alterar essa proteção como suor, água e a própria degradação do produto ao longo do dia.
Os produtos são classificados em diferentes níveis de proteção. Um FPS baixo, de 6 a 15, por exemplo, bloqueia cerca de 93% dos raios UVB, enquanto um FPS médio (15 a 30) bloqueia aproximadamente 97%. Já os protetores com FPS alto (30 a 50) e muito alto (50+) podem bloquear até 99% dessa radiação nociva.
"A diferença de proteção entre um FPS 30 e um FPS 60 pode parecer pequena em termos percentuais, mas é significativa quando pensamos na exposição solar prolongada e diária. Por exemplo, um FPS 30 bloqueia 97% dos raios UVB, enquanto um FPS 60 bloqueia 98,3%, oferecendo uma proteção adicional importante, especialmente para peles mais sensíveis ou com tendência a manchas", diz manual da La Roche-Posay.
No geral, peles claras ou muito claras (fototipos I e II) necessitam FPS muito alto, de 60 ou superior. Para a pele média (fototipos III e IV), recomenda-se FPS alto, de 30 a 50. Já nas peles negras mais pigmentadas (fototipos V e VI), pode-se usar FPS médio a alto.
Mitos sobre a proteção solar em peles negras
Especialistas também alertam para o mito de que pessoas de pele mais pigmentada já são naturalmente protegidas contra o sol. Elas podem não apesentar queimaduras se expostas ao sol, justamente por serem menos sensíveis aos raios UVB, no entanto, podem correr riscos à luz visível e outros danos.
"A pele preta não está protegida do câncer de pele e das manchas. O sol causa problemas para todos os tipos de pele. Então, a proteção é importante para todos, mas o tipo de proteção pode variar", diz Sérgio Schalka.
Em peles negras, alguns tipos de câncer, como o melanoma acral lentiginoso, podem ser mais agressivos e ter um prognóstico pior, muitas vezes devido ao diagnóstico tardio.
Além do fototipo, histórico de queimaduras solares, presença de sardas ou pintas e histórico familiar de câncer de pele são fatores que também devem ser considerados na escolha do FPS ideal.
"De 10 pessoas negras, 6 nunca foram ao dermatologista. Temos essa dificuldade de acesso no Brasil, por isso a importância de desenvolver produtos inclusivos de fotoproteção, que passa pelo amplo número de cores para alcançar todos os fototipos, sem deixar a pele esbranquiçada ou acinzentada", reforça Eduardo Paiva, diretor de Diversidade, Equidade e Inclusão do Grupo L’Oréal no Brasil.
A marca La Roche-Posay, que pertence ao grupo e desenvolveu o primeiro protetor solar com efeito base que oferece alta proteção, lançou uma versão avançada do Anthelios Ultra Cover, com FPS 85.
A cartela de cores também foi ampliada de 5 para 11 cores, com novos subtons para atender a ampla diversidade da pele brasileira. Segundo a marca, o diferencial de inovação traz o pigmento azul para os fototipos mais altos, evitando o aspecto acinzentado e permitindo que pessoas de tons mais claros às peles mais retintas consigam encontrar a cor ideal.
"Até 2040, dois terços da população mundial terão a pele rica em melanina. O Brasil já antecipa o futuro, é o espelho de toda essa miscigenação para o mundo. Temos a oportunidade de promover cada vez mais ciência a partir de toda a diversidade que temos no país, de tipos de cabelo e tons de pele", completa Paiva.
Dermatologia mais inclusiva
De acordo com uma pesquisa realizada pelo Grupo L'Oréal, o Brasil concentra 55 dos 66 tons de pele mapeados no mundo.
Em 15 de setembro, a empresa realizou a segunda edição do evento Dermatologia + Inclusiva, iniciativa que fomenta a produção científica voltada às especificidades da pele, couro cabeludo e fibra capilar da população negra, indígena e de pessoas trans.
Nesta edição, os quatro projetos vencedores foram produzidos por especialistas de diferentes regiões do país e abordam temas desde a criação de modelos de pele em laboratório até o diagnóstico precoce de alopecias em mulheres negras.
*A repórter viajou ao Rio de Janeiro a convite do Grupo L’Oréal no Brasil para o evento "Dermatologia + Inclusiva", com visita ao Centro Científico da marca.