“Denegrido e muito triste”. Foi como resumiu o padre José Severino Cheregatto, 42 anos, o sentimento com as últimas publicações sobre o seu possível envolvimento no caso da Base Aérea de Fortaleza, em que dois soldados foram encontrados mortos, em 10 de setembro de 2004. Romper o silêncio e desmistificar a ‘onda’ de boatos sobre seu nome era o objetivo do ex-capelão da Base Aérea nessa entrevista exclusiva concedida ao Diário do Nordeste. ‘‘Estou bem e realizado. Não fugi de nada. Não quero ser usado como bode expiatório’’ . O padre, de férias na Capital até o dia 8 de março, confessa que recebeu muito apoio e carinho dos fiéis, e que nunca se escondeu de nada. Descansando na casa de amigos, ele tem ido à praia, ao shopping, mas quer fazer o possível para mudar a sua imagem nesse caso resultado, segundo ele, de boato de jornal.
Diário do Nordeste - Sua transferência, 10 meses depois da morte dos soldados, foi coincidência?
Padre Cheregatto - Não existe nenhuma ligação.
Diário - O que o Sr. viu naquele dia?
Padre - Eram cerca de 18 horas quando soube do que tinha acontecido e fui chamado imediatamente pelo comandante Otto Voguet e ele já estava reunido com os outros chefes superiores, com o médico, para decidir como passar a notícia para as famílias. Nessa reunião ficamos uns 40 minutos ou mais e depois fui celebrar a missa.
Diário - Como foi seu horário de trabalho naquele dia?
Padre - Celebrei às 16h30min no Parque da Paz, não lembro bem e depois ....terminou às 17h30min, e foi o horário que cheguei na Base, 18 horas.
Diário - O Sr. chegou a ir ao local onde estavam os corpos?
Padre - Nunca. Me atrasei na missa por causa da reunião e recebi as ordens do comandante de como deveria agir diante da família e da Imprensa. Depois celebrei a missa de corpos presente, de sétimo dia e essa foi minha participação no caso.
Diário - O Sr. chegou a levar o livro contábil da capela para Manaus e depois, às pressas, teria voltado para devolvê-los?
Padre - De forma alguma. A prestação de contas sempre esteve na capela; não há nada para esconder. É algo tão simples. Uma capela humilde, pobre.
Diário - O promotor estaria conduzindo bem as investigações?
Padre - Sinto que ele vai fazer um bom trabalho, sem prejudicar a imagem do capelão e eu peço ajuda da Imprensa para não queimar a minha imagem.
Diário - Os fiéis lhe consideram inocente?
Padre - Sim. Recebi abraços, carinho, aperto de mão. Ninguém acredita nessa história.
Diário - O Sr. conhecia os familiares dos soldados ?
Padre - Sim, porque são todos católicos praticantes e os jovens participavam das suas paróquias, mas não na da Base Aérea.
Diário - Antes da morte, o Sr. ia à casa das duas famílias?
Padre - Não. Fui ter um contato maior depois do falecimento dos rapazes.
Diário - Como foi dar a notícia à família?
Padre - Ficaram chocados. Quando fomos falar eles já sabiam pela Imprensa e por telefone.
Diário - O que o Sr. acha que aconteceu naquele dia?
Padre - Como eu falei para o promotor e falo para qualquer pessoa. No início pensava-se em crime seguido de suicídio, mas os peritos disseram que não. Se foi crime, não existe suspeito. Se foi suicídio, não tem como provar.
Diário - Depois de ser transferido o Sr. manteve contato com os familiares e acompanhava o caso pela mídia?
Padre - Não. Só notícias por poucos telefonemas.
Diário - Quando vieram as recentes matérias envolvendo seu nome no caso e falando de um possível suicídio seu, como reagiu?
Padre - Triste, chateado e revoltado, porque não quero ser usado como bode expiatório. Vão ficar difamando um padre, depois se esquece a investigação, pega outro caminho e fica por isso mesmo. Não quero ficar injustiçado por toda uma sociedade. Não tem um culpado, então vamos pegar o padre? Tô muito triste, mas confio muito em Deus e na Justiça também. Eu tenho a consciência tranqüila desde quando começaram esses boatos.
Diário - Como foi seu depoimento à Justiça em novembro do ano passado?
Padre - Vim prestar um depoimento como outras pessoas fizeram e acho que contribui pouco, porque não tenho dados. O que respondi para o promotor estou respondendo para você. Minha única preocupação é ser crucificado por um crime que não cometi, só porque sou o padre. Como se trata de um padre aí comentaram: Ah! Ele veio falar! Antes de ser um padre, sou um cidadão como qualquer outro. Em nenhum momento escondi que estava aqui depondo sobre o caso.
Diário - Nesse momento de tantos boatos, que mensagem o Sr. teria para os fiéis?
Padre - A vida do padre é baseada em dois caminhos: o amor e a fidelidade. E o que norteou minha vida nessa cidade foi o amor ao povo de Fortaleza, à Igreja e à vida militar. Minha transferência repentina para Manaus se deu por conta da fidelidade e a obediência às normas da Igreja Católica. Depois que um sacerdote trabalha cinco anos numa paróquia, ele é convidado a se transferir para outras. E eu já estava excedendo esse tempo, ou seja, há quase 11 anos. Veio o convite da Arquidiocese de Manaus, que é uma área muito difícil, eles precisavam de mim e eu aceitei.
Diário - Como é seu trabalho em Manaus?
Padre - Lá eu faço um trabalho importante de evangelização e sou chefe dos capelães de Boa Vista e de Porto Velho. Isso é muito importante para minha carreira.
Diário - Como iniciou sua vida missionária?
Padre - Eu sou de São José do Rio Preto, São Paulo. Trabalhei um ano em Brasília, onde me formei oficial. E sou neto de uma família italiana e desde cedo minha vocação era ser militar e padre. Com 30 anos já era oficial e me ordenei padre.
Diário - Por que tem surgido tantos escândalos de pedofilia envolvendo padres?
Padre - Esse problema sempre houve não só na Igreja, mas em vários setores da sociedade. É que antigamente não havia televisão, Internet e a mídia em geral. Atualmente, qualquer escândalo na área religiosa, ou não, toma um vulto muito grande e em poucos instantes as pessoas ficam sabendo. Até as crianças têm acesso facilmente a essas informações. A Igreja pede para nós, sacerdotes, a fidelidade, a obediência, a castidade, e se acontecer algum caso, não devemos condenar de imediato. Eu acho que Jesus veio primeiro para os doentes, para os enfermos e necessitados. Quando acontece um caso desses a gente precisa tratar com muito cuidado, porque antes de ser padre, nós estamos falando de um cidadão, de um filho de Deus. E esses casos que acontecem na Igreja ocorrem em todos os setores, mas entre os religiosos isso chama mais a atenção, porque se trata de um padre. Eu vejo esses escândalos de pedofilia na área militar, na área médica, mas quando a notícia envolve um padre, o fato toma maiores proporções e o caso ganha outra conotação: Olha, é padre, cometeu esse pecado!
Diário - O fim do celibato seria uma solução?
Padre - Nossa Instituição e nossa Igreja Católica sempre tiveram esses problemas, mas vamos superando. A Igreja trata com muita prudência e acredito que tirar o celibato não vai resolver o problema. Não vejo por essa ótica e, sim, viver mais o evangelho, pregar o amor e ser compreendido por vocês da Imprensa.
Diário - De que forma ?
Padre - Acho que há um preconceito muito grande, até mesmo uma perseguição contra os sacerdotes. Não posso pegar dois casos em Fortaleza e afirmar que todos os outros padres estão cometendo esse pecado. Mas é como te disse, por se tratar de um padre chama mais atenção, dá mais notícia e ibope. Outros casos acontecem todos os dias em outros setores, mas quase não se toca no assunto. Vai lá, julgou, ninguém quer saber mais detalhes, porém quando falamos de um padre, é uma repercussão muito grande e sempre negativa. A nossa missão é muito mais sublime do que tudo isso, do que essa discussão toda sobre a sexualidade. Acho que o padre é convidado a seguir Paulo, a seguir Cristo e em primeiro lugar esse amor à Igreja e à comunidade.
Diário - Como era seu trabalho com curas aqui em Fortaleza?
Padre - Todos os dias tinha a missa e nas quartas-feiras celebrávamos a missa de cura, onde atendíamos aos fiéis com doenças da alma e do corpo. É um trabalho da Renovação Carismática Católica. Era, na realidade um ato de louvor, de unção, e chamava muito a atenção, embora alguns elogiassem e outros criticassem.
Diário - Por quê?
Padre - Nossa Igreja tem vários rostos e nem todo padre é carismático, um é mais progressista, outro vai mais para o lado social, enquanto um terceiro prefere mais a vida de contemplação.
Diário - Em Manaus, já existem as missas de cura?
Padre - É um trabalho totalmente diferente o que eu faço lá em Manaus, porque o padre Cheregatto tem que viajar muito mais. Na Capital amazonense eu respondo por Porto Velho, Boa Vista, São Gabriel da Cachoeira. Nós somos três capelães militares fazendo um trabalho de visitar hospitais, celebrar missas quase todos os dias e só estou em Manaus há seis meses, ainda elaborando um projeto, porque a área é muito grande e complexa. Estou me adaptando, aprendendo muito, principalmente, e é uma cidade completamente diferente de Fortaleza no sentido de infra-estrutura, de movimento católico, enfim, de engajamento.
Aécio Santiago
editoria de Cidade