A Justiça cearense negou pedido de liberdade provisória feito pela defesa de Renato Castro Souza e manteve o mandado de prisão temporária contra ele. O inspetor da Polícia Civil do Ceará (PCCE), que está foragido há mais de um ano, é investigado por supostamente participar de um esquema de tráfico internacional de drogas com origem no Porto do Mucuripe, em Fortaleza. Ele teria, conforme as investigações, transportado um carregamento de quase meia tonelada de cocaína para o terminal portuário da Capital.
A decisão judicial data da última sexta-feira (28) e foi tomada em concordância com os posicionamentos da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF). Os órgãos sustentam a gravidade dos delitos cometidos pelo policial e alegam que uma possível liberdade colocaria em risco a colheita de provas e a eficácia das diligências em andamento.
Segundo documentos obtidos pela reportagem, Renato, de 39 anos, que era lotado no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) à época do crime, em maio do ano passado, teria se aproveitado do cargo na delegacia e das prerrogativas profissionais para transportar cocaína para a área restrita do Porto do Mucuripe.
Ele deixou o Brasil poucas semanas após a descoberta do caso, em um voo com destino a Bruxelas, na Bélgica, e não voltou ao País desde então. No entanto, o mandado de prisão temporária contra ele só foi expedido no dia 16 de junho deste ano, de acordo com o Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões (BNMP).
O MPF solicitou no último agosto a inserção do nome do policial na lista de Difusão Vermelha da Interpol, que busca localizar e prender foragidos para fins de extradição. O Diário do Nordeste acessou a publicação nesta terça-feira (1ª) para checar se já constava o nome do inspetor, mas não encontrou nenhum resultado. A reportagem também questionou o Ministério Público sobre essa inserção e aguarda retorno para atualização desta matéria.
O policial, atualmente, encontra-se em "licença para tratar de interesses particulares, concedida nos termos da legislação vigente", segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS).
ATUALIZAÇÃO (16h09): Em nota, a defesa de Renato Castro Souza afirma que ele é "inocente" e que "jamais teve envolvimento com tráfico de drogas ou organização criminosa". "Os elementos apontados não comprovam sua participação nesses crimes. Estar no porto ou manter contato com uma pessoa investigada não demonstra conhecimento ou participação em atividade ilícita", disse. O advogado Rafael Freitas ressaltou ainda que o policial possui "reputação ilibada" na Polícia Civil e não responde a procedimento disciplinar nem possui registros que desabonem sua conduta funcional (confira a nota, na íntegra, ao final do texto).
Como o policial se tornou suspeito de tráfico de drogas?
No dia 3 de fevereiro de 2025, Renato foi flagrado conduzindo uma caminhonete suspeita no Porto do Mucuripe. Três dias depois, uma fiscalização da Receita Federal achou 435,6 quilos de cocaína escondidos em um contêiner que abrigava uma carga declarada de cera de carnaúba. O carregamento passaria pela França e teria como destino final o Japão.
Os entorpecentes foram encontrados somente durante um segundo escaneamento, uma vez que, no primeiro, ainda não havia indícios de contaminação do contêiner.
À época, a Receita explicou que os criminosos utilizaram o método rip-on/rip-off, que consiste em abrir a estrutura de transporte marítimo sem conhecimento do exportador para introduzir ilegalmente a droga. O órgão afirmou ainda que desconfiou de que algo poderia estar errado após a identificação de um comportamento suspeito de um motorista.
A defesa do inspetor da Polícia Civil contesta as acusações, alegando que, na ocasião registrada pelo sistema de monitoramento do porto, o policial utilizou a entrada principal e forneceu o nome completo na portaria. Além disso, argumenta que ele prestava serviços lícitos de apoio logístico para uma empresa que tem acesso ao terminal e, por isso, estava lá.
Já a acusação reforça que o policial se valeu de seu cargo na DHPP e de suas prerrogativas funcionais para atuar como "facilitador armado" do grupo criminoso que utilizava o Porto do Mucuripe para exportar droga. Um dos investigados no caso, que passou a atuar como colaborador da PF, reconheceu Renato em uma fotografia e afirmou que ele era o responsável por fazer a segurança armada do perímetro para o líder da organização.
A quebra do sigilo bancário do inspetor da PCCE também identificou transações financeiras atípicas em benefício dele na véspera da apreensão da cocaína no Mucuripe.
A reportagem procurou a Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD) para apurar se há algum procedimento administrativo aberto contra o servidor público, mas a pasta não respondeu até o fechamento desta matéria. Quando houver resposta, este texto será atualizado.
O Diário do Nordeste não localizou a defesa do investigado. O espaço segue aberto para futuras manifestações.
Relação com facção criminosa
Além do monitoramento no porto, das transações financeiras suspeitas e da fuga para a Bélgica, pesam contra Renato diálogos interceptados no dia 1º de março de 2025 que revelam uma discussão entre o policial e Arnaldo Bispo dos Santos, o 'Turco', dono da caminhonete utilizada pelo inspetor para entrar no Porto do Mucuripe cerca de dois meses depois.
Na troca de mensagens, Renato teria afirmado integrar a extinta facção Guardiões do Estado (GDE), mas teria apagado o texto logo depois. O diálogo teria mostrado ainda que 'Turco' teria cobrado lealdade do policial e o ameaçado com frases como "se eu pipocar, acabo com sua vida também".
O delator do caso também informou à PF que acreditava que Renato utilizava armas fornecidas por 'Turco' em suas atividades no terminal portuário.
Durante as investigações, a Polícia chegou a apreender dez armas de fogo. Os instrumentos estavam com diferentes alvos do inquérito, incluindo 'Turco' e o delator.
Confira a íntegra da nota da defesa do policial investigado
"A defesa de Renato Castro Souza afirma que ele é inocente e jamais teve envolvimento com tráfico de drogas ou organização criminosa. Os elementos apontados não comprovam sua participação nesses crimes. Estar no porto ou manter contato com uma pessoa investigada não demonstra conhecimento ou participação em atividade ilícita.
Renato possui reputação ilibada na Polícia Civil e, conforme informa a defesa, não responde a procedimento disciplinar nem possui registros que desabonem sua conduta funcional.
Sua saída do Brasil ocorreu em 28 de maio de 2025, mais de um ano antes da decretação da prisão. Renato já havia viajado ao mesmo país em ocasiões anteriores, circunstância que reforça que o deslocamento não pode ser automaticamente tratado como fuga relacionada ao mandado posteriormente expedido.
A defesa também aponta inexatidão na decisão: os registros indicam Renato como motorista em uma entrada no porto, e não em duas. Além disso, o depoente citado na investigação declarou não ter presenciado quem transportou a droga ao local.
A defesa está convicta de que os fatos serão esclarecidos nos autos e de que a inocência de Renato será demonstrada. Suspeitas não autorizam apresentá-lo publicamente como culpado."