Acusado de tentar matar comerciante que protegia vila contra tráfico de drogas não vai a júri

Vítima sobreviveu a uma emboscada, mas acabou assassinada meses depois.

Escrito por Emanoela Campelo de Melo emanoela.campelo@svm.com.br
28 de Outubro de 2026 - 13:00
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Legenda: Nos memoriais finais, o Ministério Público do Ceará (MPCE) representou pela impronúncia do réu alegando ausência de indícios suficientes para comprovar a autoria do crime.
Foto: Arquivo/SVM.

A Justiça do Ceará decidiu impronunciar, ou seja, não levar a júri popular um homem acusado de tentar assassinar um comerciante, porque a vítima impediu o tráfico de drogas em uma vila de casas no bairro Jardim das Oliveiras.

Everton Florêncio do Nascimento foi denunciado pela tentativa de homicídio contra Charles Araújo. Em 29 de novembro de 2021, Florêncio sobreviveu ao ataque a tiros. Quatro meses depois, a vítima foi novamente abordada e executada.

Nos memoriais finais, o Ministério Público do Ceará (MPCE) representou pela impronúncia do réu alegando ausência de indícios suficientes para comprovar a autoria do crime. A juíza da 3ª Vara do Júri assinou a sentença de impronúncia nas últimas semanas.

Para a magistrada, a prova produzida em juízo "não trouxe elementos seguros de convencimento, tanto que a própria representante do Ministério Público reconheceu não haver logrado êxito em reunir os necessários requisitos para sustentar a acusação e pugnou pela impronúncia do réu".

"O caso em comento, em que pese tenham existido elementos informativos colhidos na fase inquisitorial indicando a possibilidade de o acusado ser autor do homicídio, observo que esses não restaram minimamente amparados pela prova colhida na fase judicial, com a observância do contraditório".
Decisão de impronúncia.

O acusado Everton Florêncio do Nascimento negou qualquer participação no crime narrado nos autos e disse não conhecer a vítima.

VÍTIMA ZELAVA E VIGIAVA OS IMÓVEIS

De acordo com a denúncia, no dia 29 de setembro de 2021, por volta das 8h30, Everton e outros homens dispararam contra a vítima "não se consumando o resultado morte por circunstâncias alheias a vontade dos agentes". Naquela ocasião, o comerciante foi socorrido ao hospital e sobreviveu ao primeiro ataque.

O MP diz que o crime aconteceu porque Charles era proprietário de uma vila de casas e "devido seu zelo e vigilância nos seus imóveis havia nesta região um reduzido índice de tráfico de drogas. O acusado Everton Florêncio, promovia a comercialização ilícita de drogas e decidiu executar a vítima com a finalidade de tomar para si a posse das propriedades de Charles Araújo, e por meio de seu assassinato, aumentar o tráfico de drogas na região".

"Aproximadamente uma hora antes dos fatos ora apurados, a vítima estava deixando sua companheira na clínica em que trabalhava. Após deixar sua companheira na clínica, a vítima foi surpreendida ela rápida aproximação do veículo branco, de onde desembarcou o réu Everton Florêncio e outro indivíduo não identificado, ambos gritando na direção da vítima, enquanto efetuavam os disparos".

A vítima saiu em disparada com sua motocicleta e se abrigou em um posto de saúde. De lá, foi socorrido ao Instituto Doutor José Frota (IJF).

Conforme o Ministério Público, o crime aconteceu por motivo torpe, com uso de recurso que dificultou a defesa da vítima, em uma ação criminosa semelhante a uma emboscada, na presença da companheira da vítima e em via pública "em local e horário de circulação de pessoas, causando espanto e desespero, rebaixando, de modo especial, a sensação de segurança pública, e fragmentando ainda mais os laços comunitários".

SEGUNDO ATAQUE

Charles foi novamente alvo de criminosos, que continuavam a querer tomar posse dos imóveis dele para usar o local como ponto de tráfico de drogas. No dia 19 de março de 2022 ele foi assassinado.

O processo acerca do homicídio tramita na 2ª Vara do Júri, tendo como réus Alexandre Carneiro da Silva, Francisco Edson Gomes de Oliveira, Kayque da Costa Pereira e Mateus de Oliveira Bandeira.

O bando chegou em duas motocicletas, chamaram a vítima sob pretexto que iriam ofertar a ela uma arma de fogo. Segundo a acusação, após Charles recusar a oferta, "os denunciados o surpreenderam com disparos de arma de fogo, sem esboçar chance de reação. No referido processo, houve sentença de pronúncia dos quatro denunciados, julgado recurso em sentido estrito e designada sessão de julgamento pelo Tribunal do Júri".

Há informações de que Everton Florêncio tinha estreita ligação com o grupo que posteriormente matou o comerciante.

 

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