Saiba quem é Beatrix Von Storch, deputada da extrema direita alemã que se encontrou com Bolsonaro

Neta de nazistas, a parlamentar já foi investigada por incitar o ódio contra imigrantes muçulmanos

Deputada Beatrix Von Storch e o presidente Jair Bolsonaro
Legenda: Deputada Beatrix Von Storch, 50, se encontrou com o presidente Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada, na semana passada
Foto: Reprodução Instagram

A deputada Beatrix Von Storch, 50, vice-líder do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que se encontrou com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na semana passada, representa a ala mais conservadora da sigla e já foi investigada por xenofobia. As informações são da BBC Brasil.

Ela publicou fotos nas redes sociais, nesta segunda-feira (26), nas quais ela e o marido aparecem abraçados com o presidente. "Ao contrário do que diz a imprensa, ele é humilde, amável e bem-humorado no trato pessoal", descreveu Jair Bolsonaro.

A parlamentar é neta de um ex-ministro de Finanças de Adolf Hitler, condenado pelo Tribunal de Nuremberg a 10 anos de prisão por crimes de guerra; e de Nikolaus von Oldenburg, duque que integrava a SA, tropa de repressão do governo nazista.

A deputada alemã, que esteve no Brasil "para conquistar aliados para o AfD", foi investigada em 2018 por incitar o ódio contra imigrantes muçulmanos nas redes sociais. O Twitter e o Facebook removeram suas postagens, classificadas como discurso de ódio.

'Parceiro estratégico global'

De acordo com a vice-líder da sigla, o Brasil é uma potência emergente e, além dos Estados Unidos e da Rússia, pode ser um parceiro estratégico global que nos permita construir o futuro juntos.

"Para enfrentar com êxito a esquerda, os conservadores também precisam se conectar melhor internacionalmente", declarou.

Em Brasília, Beatrix Von Storch se encontrou com os deputados federais Bia Kicis (PSL-DF), presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), considerado o articulador internacional do pai com representantes da direita global, como Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump.

Sobre a visita de Von Storch a Bia Kicis, o Museu do Holocausto afirmou que "é evidente a preocupação e a inquietude que esta aproximação entre tal figura parlamentar brasileira e Beatrix von Storch representam para os esforços de construção de uma memória coletiva do Holocausto no Brasil e para nossa própria democracia".

O presidente Jair Bolsonaro tenta estreitar relações com Israel. Ele chegou a prometer a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém, o que é considerado pelos países árabes uma afronta, mas nunca cumpriu.

O que pensa Beatrix Von Storch?

Crítica de Joe Biden e apoiadora de Donald Trump, atual e ex-presidente dos Estados Unidos, respectivamente, Beatrix já integrou o Parlamento europeu e, hoje em dia, está no Congresso alemão.

Ela já se envolveu em situações que geraram repercussão negativa e lhe causou investigação por possível violação da lei contra crimes de ódio da Alemanha.

Em dezembro de 2017, Von Storch teve a conta no Twitter suspensa depois de ter questionado a decisão do Departamento de Polícia da cidade alemã de Colônia de postar saudações de fim de ano também em árabe.

"O que diabos há de errado com este país? Por que a página oficial da polícia tuíta em árabe? Eles estão tentando pacificar as hordas de homens bárbaros, muçulmanos e estupradores?", perguntou.

Em 2016, ela defendeu que a polícia alemã atirasse contra imigrantes, incluindo mulheres e crianças, que tentassem entrar ilegalmente no país. Na época, a chanceler Angela Merkel classificou a fala da parlamentar como "absurdo".

Beatrix Von Storch é contrária ao casamento homoafetivo e opositora à existência do bloco da União Europeia. Em 2018, ela pontuou que seria um ato patriótico dos alemães ter mais bebês, por causa da baixa natalidade na nação.

"A Alemanha não é o único país com problemas demográficos na Europa. Se os outros países quiserem levar um, dois, quatro milhões de imigrantes ilegais africanos para os seus países para resolver o problema demográfico, façam isso. Nós não queremos. Nós não achamos que isso resolve nosso problema. Isso está nos causando problemas", destacou.

Por que ela precisa do Brasil como aliado?

Von Storch critica o processo de substituição das formas de produção de energia elétrica mais poluentes, como a nuclear e a fóssil, para alternativas mais limpas na Alemanha.

Este é um esforço da atual gestão germânica, que tem o objetivo de cumprir as metas de cortes nas emissões de CO² do país.

A parlamentar tem o costume de caracterizar as ONGs que militam por causas voltadas ao meio ambiente, como o Greenpeace, como criminosas.

Sob pressão dos Estados Unidos para se comprometer com metas ambiciosas de redução do desmatamento, o Governo Federal ainda não mostrou um plano para conter a situação, que segue em um ritmo acelerado na gestão atual.

Jair Bolsonaro já havia falado que existe uma indústria de multas ambientais e que as ONGs que Von Storch se manifesta contra "criam narrativas" para disputar o controle sobre o destino da floresta brasileira.

Von Storch relatou ter conversado com o presidente sobre como movimentos sociais, como Black Lives Matter ou Antifas, formam "redes internacionais para colocar os conservadores contra a parede".

Ela disse ainda compartilhar com o mandatário brasileiro a oposição ao Pacto Global de Migração, lançado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e aprovado por 150 países em 2018 com o intuito de facilitar a migração regular e garantir documentos e atendimento humanitário a migrantes irregulares.

A migração catapultou eleitoralmente o AfD e mostra-se como tema fundamental para a legenda, que surgiu em 2013 e ficou de fora do Parlamento alemão na primeira eleição, já que o partido não atingiu os 5% de votação nacional que era preciso para compor o Legislativo.

Atualmente, o AfD tem 86 cadeiras no Parlamento alemão, o que o faz representar a maior força de oposição. Ele fez sucesso desafiando tabus e flertando com o racismo.

O co-presidente do AfD, Alexander Gauland, já foi criticado por mencionar que os alemães deveriam ter "orgulho" de seus soldados que atuaram nas duas guerras mundiais.

Crise migratória

A crise migratória dos refugiados intensificada na última década na Europa acabou servindo de trampolim para seu discuso, assim como para os posicionamentos do partido radical.

Em nota publicada em seu site oficial no fim de junho, Beatrix Von Storch disse que "[Angela] Merkel importou o terror islâmico com a abertura ilegal da fronteira".

"Como AfD, exigimos o fim da imigração em massa e a deportação imediata de criminosos islâmicos mentalmente instáveis para proteger as pessoas que vivem aqui, além da deportação de todos os outros imigrantes ilegais sem motivo para proteção", conclui o texto.

Risco à democracia

Abertamente anti-imigração, o partido é o primeiro com essa representação no Parlamento a ser colocado sob investigação do Escritório Federal de Proteção à Constituição (BfV, na sigla alemã), por suspeita de extremismo e, em último caso, risco à democracia.

A sigla ainda adota posição mais branda em relação ao passado alemão, com algumas figuras que relativizam o passado nazista alemão. Em setembro, a AfD demitiu um ex-porta-voz, Christian Lüth, após o vazamento de uma gravação na qual sele sugere que imigrantes deveriam ser mortos "por gás". 

'Resgate do nacionalismo'

Segundo explica a professora de ciência política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Silvana Krause, o surgimento da AfD se insere em um contexto de descongelamento do sistema partidário e perda de força da social-democracia alemã. 

"É possível entender a AfD como um movimento de resgate do nacionalismo", explica Krause. 

Para o cientista político e professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Kai Lehmann,o partido tem caminhado continuamente na direção antidemocrática e autoritária. "Foi o primeiro partido de peso anti-UE [União Europeia], que quebrou o consenso na política externa alemã, e progressivamente se tornou de ultradireita e anti-imigração."

Conforme avalia o professor, a presença do partido no Parlamento segue sendo preocupante em um país no qual o sistema partidário costumava priorizar o consenso, afastando radicalismos.

"A curto prazo pode não ser uma ameaça, mas, a longo prazo, pode representar uma ameaça para a democracia alemã", diz ele. "A AfD tem causado um declínio na qualidade do debate político, cada vez mais polarizado."

 


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