Lula e Flávio mudam o tom, debatem propostas pela 1ª vez e exploram pontos fracos

Candidatos à Presidência se enfrentaram pela última vez antes do segundo turno, no domingo.

Escrito por Estadão Conteúdo
24 de Outubro de 2026 - 10:43
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Legenda: O candidato presidencial de direita do Brasil, Flavio Bolsonaro (à esquerda), e o presidente e candidato presidencial do Brasil, Luiz Inacio Lula da Silva nos estúdios Globo.
Foto: Pablo PORCIUNCULA / AFP.

O último debate presidencial antes do segundo turno das eleições realizado na noite desta sexta-feira, 23, pela TV Globo, foi um resumo da campanha dos candidatos nos últimos dias.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tentou enfatizar que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) colocará em risco programas sociais e levará a uma piora do serviço público. Flávio, por sua vez, prometeu não fazer ajuste fiscal às custas dos mais pobres e acenou às famílias endividadas com a promessa de refinanciar dívidas e recuperar o poder de compra dos brasileiros.

Diferentemente do encontro anterior, os candidatos conseguiram expor suas propostas e visões de País, deixando acusações de corrupção e ataques pessoais para o último bloco, único em que o tema foi livre. Os três blocos iniciais foram dedicados a assuntos predefinidos que precisavam ser relacionados a regiões brasileiras.

Uma mudança na regra foi que apenas o candidato com a palavra pôde se movimentar livremente no palco, enquanto o adversário aguardava no púlpito. No debate anterior, a campanha do PT reclamou que Flávio tentou desconcentrar Lula ao se posicionar atrás ou muito próximo do presidente enquanto ele falava.

Um dos raros confrontos pessoais antes da reta final ocorreu após o senador se referir ao presidente como "nove dedos". Lula se irritou, chamou Flávio de "miliciano" e o acusou de ter sido funcionário fantasma quando era jovem. "Ele nunca trabalhou na vida", disse. Flávio se desculpou em seguida. "Se eu te ofendi, peço desculpas de verdade".

O investimento para aumentar as exportações brasileiras foi o primeiro tema do debate. Flávio disse que o País voltou a ser um "cemitério de obras" sob o governo Lula e prometeu "rasgar o Brasil" com ferrovias e realizar concessões rodoviárias com isenção de pedágio para motociclistas.

Segundo aliados, essa pergunta foi uma sugestão do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que ajudou Flávio a se preparar para o debate. Ao longo do programa, o candidato do PL mencionou Tarcísio em diversos momentos. A avaliação na campanha é que há espaço para Flávio ampliar sua votação em São Paulo.

Lula mencionou o novo Programa de Aceleração de Crescimento e disse que há obras em andamento em todas as regiões. Ele afirmou que o governo federal está "colocando dinheiro" para fazer o túnel Santos-Guarujá, que é uma das bandeiras de Tarcísio.

O petista defendeu a política de valorização do salário mínimo implementada por ele - que prevê ganhos reais - e disse que, se o rival vencer, não concederá reajuste acima da inflação para o mínimo nem para as aposentadorias.

A fala foi imediatamente rebatida por Flávio, que se comprometeu a corrigir o piso salarial e os benefícios dos aposentados acima da inflação, além de não privatizar a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil.

"Não vou fazer economia em cima dos mais pobres", afirmou o senador, acusando o petista de "dar com uma mão" e tirar com "nove dedos" com a elevação da carga tributária.

Flávio também tentou explorar a idade avançada de Lula, que completa 81 anos daqui a pouco dias. Ele disse que não conseguia entender o que o adversário falava e que o presidente tinha dificuldade em ouvir suas respostas. Lula também se atrapalhou com o tempo em uma ocasião, quando terminou sua resposta com mais de um minuto disponível no relógio.

Após o candidato do PL dizer que o rival trata mal o agronegócio Lula respondeu que "nunca se exportou tanto" e que procurou abrir novos mercados para os produtos brasileiros após o tarifaço imposto pelos Estados Unidos. "É por isso que quando meu adversário ficou lambendo Trump para taxar o País, eu não fiquei preocupado", declarou.

A discussão migrou então para a região Norte. Flávio criticou o PT por ter votado contra o Marco Legal do Saneamento, medida que na visão dele, melhorará os índices de abastecimento de água e de tratamento de esgoto, um dos principais problemas da região.

"Ele não conhece o Brasil. Só ouviu falar de Manaus quando o pai dele apareceu rindo e imitando uma pessoa morrendo por falta de oxigênio", respondeu Lula, mencionando uma fala de Jair Bolsonaro (PL) durante a pandemia.

Flávio negou que o pai estivesse debochando das pessoas que morreram com falta de ar na capital do Amazonas. Quando o tema mudou, prometeu construir uma ferrovia ligando todas as capitais do Nordeste e completou: "Vou ser o carioca mais nordestino da face da Terra".

Políticas sociais abrem segundo bloco

No segundo bloco, Lula escolheu abordar políticas sociais e perguntou a Flávio por que ele se referiu ao Bolsa Família como "bolsa-farelo" - o senador apagou publicações antigas no X em que utilizava o termo - e o motivo de ter votado contra o aumento do período de licença-maternidade para as mulheres quando era deputado estadual do Rio de Janeiro.

Flávio disse que, à época, pensou que a medida atrapalharia as mulheres a conseguir emprego, mas que mudou de ideia após casar e ter filhos. "Eu estava errado", disse.

Sobre o Bolsa Família, o candidato do PL não respondeu diretamente à questão, mas disse que Lula precisa pedir desculpas aos beneficiários do programa por tê-los deixado quatro anos sem reajuste - o reajuste foi anunciado pelo petista já durante a campanha eleitoral.

Em seguida, Flávio insistiu no debate econômico, afirmando que o governo Lula gasta mais do que arrecada, endividando o País e, por tabela, reduzindo o poder de compra dos brasileiros por causa da inflação e da elevação de impostos. Ele disse que a mera perspectiva de que se torne presidente levou à queda dos juros futuros e abriu espaço no orçamento. Parte do dinheiro, disse Flávio, será utilizado para refinanciar a dívida da população.

"Eu vou comprar sua dívida dos bancos e refinanciar", prometeu. Lula acusou o oponente de copiar uma proposta já apresentada por ele e aproveitou para citar medidas do pacote de bondades que anunciou na reta final da campanha, como aquelas direcionadas aos microempreendedores individuais (MEIs).

Na rodada seguinte, o petista disse que Cláudio Lottenberg, médico escolhido por Flávio para comandar o Ministério da Saúde em caso de vitória, já defendeu que recursos públicos não fossem destinados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

O senador rechaçou essa possibilidade, disse ter orgulho do SUS e que é "óbvio" que haverá dinheiro para a saúde pública. Ele prometeu reajustar os valores pagos pela União por exames e cirurgias realizados por hospitais estaduais e municipais.

Após Flávio criticar suas posições na segurança pública, contrárias ao fim das saídas temporárias e à redução da maioridade penal, Lula trouxe para o debate o caso da menina Ana Clara Gomes Machado, morta com um tiro de fuzil durante uma ação policial.

Flávio integrou em 2024 a defesa do policial Bruno Dias Delaroli acusado de efetuar o disparo. A equipe do PT levou a mãe da menina, Cristiane Gomes da Silva, para acompanhar o debate no estúdio.

Lula questionou Flávio o motivo dele ter atuado como defensor do policial. O bolsonarista afirmou que a morte de Ana Clara ocorreu em um território dominado por "narcoterroristas" que o presidente não quer combater e saiu em defesa de Delaroli. Porém nesta ocasião, Flávio se confundiu e chamou a mãe, Cristiane, pelo nome de sua filha, Ana Clara.

"Foi uma tragédia o que aconteceu. [...] Era uma troca de tiros numa comunidade conflagrada, com tráfico de drogas. Eu quero ajudar a senhora a saber quem foi o autor desse disparo, porque eu tenho a confiança que não foi esse policial. Ele nem foi julgado ainda", declarou ele.

As bets apareceram na discussão de forma superficial. Lula disse que Flávio não gostou de ele ter proibido o funcionamento das casas de apostas. O senador respondeu que o petista é o "pai do tigrinho" e dos cassinos online, afirmando que foi o presidente que liberou as atividades durante seu governo.

As apostas foram legalizadas no final do governo Michel Temer (MDB), em 2018, e passaram pelo governo Bolsonaro sem serem regulamentadas. As regras para o funcionamento das bets foram propostas pelo governo Lula e aprovadas pelo Congresso Nacional em 2023.

Ataques pessoais no último bloco

As acusações e ataques pessoais ficaram para o último bloco e pouco acrescentaram à discussão discussão. Lula citou o caso do jogador Richarlison, que diz ter perdido a posse de uma ilha em Angra dos Reis (RJ) para uma empresa ligada ao advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio. O senador nega ter relação com o caso.

O petista também mencionou o pedido de R$ 134 milhões feito por Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse, que conta a história de Jair Bolsonaro.

Flávio, por sua vez, perguntou a Lula sobre uma suposta garrafa de uísque de R$ 500 mil que o presidente teria recebido de presente de Vorcaro, mencionou as investigações sobre a lobista Roberta Luchsinger e Fábio Luís da Silva, o Lulinha, e rememorou os casos do sítio de Atibaia e do triplex do Guarujá, que resultaram na condenação, anuladas posteriormente, de Lula na Operação Lava Jato.

O debate terminou, mais uma vez, com Lula desafiando Flávio a abrir os sigilos das contas bancárias perante o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O senador devolveu o desafio ao presidente. As campanhas já concordaram em proceder com o levantamento dos sigilos, mas não há qualquer indicativo que isso ocorrerá antes da votação no domingo, 25.

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