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Eleição ao Senado no CE lidera votos brancos e nulos nos últimos 20 anos entre disputas majoritárias

Índice de apatia nas urnas é menor nas disputas pelo Governo Federal e pelo Governo Estadual no Ceará.

27/09/2026 - 07:00

Entre as eleições decididas por meio do voto majoritário, a do Senado mostrou, nos últimos 20 anos, despertar maior apatia e rejeição do eleitorado cearense. Os índices de votos brancos e nulos entre 2006 e 2022 na disputa à Casa Alta foram sempre superiores aos percentuais de invalidação do Governo do Estado e do Governo Federal.

A tendência pode ser mantida em 4 de outubro deste ano, conforme indica a última pesquisa Quaest. Em 23 de setembro, 16% dos entrevistados declararam intenção de votar em branco ou nulo, ou de se abster ao Senado. Houve oscilação de apenas 1 ponto percentutal em relação ao levantamento divulgado em 4 de setembro – exatamente um mês antes do pleito –, em que 17% dos eleitores se manifestaram dessa maneira. 

O voto majoritário é considerado na eleição de presidentes, governadores e prefeitos, e também para a escolha dos senadores. Neste caso, é eleito o primeiro candidato mais votado em cada estado e no Distrito Federal quando a disputa abrir uma cadeira por ente da federação. Já quando a eleição envolver duas cadeiras, vencem os dois senadores mais votados.

A mesma estabilidade é observada desde 30 de julho, quando a penúltima pesquisa foi divulgada. Ou seja, naquela data, o mesmo percentual de eleitores rejeitava a ideia de votar em algum dos nomes à disposição, que era, inclusive, superior ao de hoje.

As pré-candidaturas de Eunício Oliveira (MDB), Domingos Filho (PSD), Anna Karina (Psol), Chiquinho Feitosa (Republicanos) e Cândido Albuquerque (PSDB), que estavam no questionário estimulado da Quaest, foram retiradas pelos partidos posteriormente.

Em complemento, os índices de rejeição e esvaziamento da urna para o Governo do Estado e o Governo Federal mantiveram patamares significamente inferiores na Quaest: 7%, 8% e 6%, em ordem cronológica.

De modo geral, o fenômeno pode ser explicado pela centralidade da disputa nas eleições gerais aos cargos do Executivo. Essa é a avaliação da professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Torres.

“As campanhas executivas centralizam muito a figura e agendam o debate público. Até pela função que o Poder Executivo tem no regime democrático, diferente do Senado – que é importante, mas ainda tem uma relação um pouco mais distante da população. (O governo) parece que está ali, que é mais próximo, ao qual você tem maior acesso. Obviamente, as campanhas para os cargos executivos têm muito mais visibilidade”, argumenta Torres.

Já Adriana Soares, doutoranda em Planejamento e Políticas Públicas e pesquisadora do grupo Democracia, Partidos e Políticas Públicas da Uece, atribui a conjuntura à variedade de cargos que são definidos em uma eleição geral, que pode confundir o eleitor. 

“Ter uma concorrência de cinco cargos e seis nomes para escolher é um complicador. Mesmo o TSE distribuindo a cola eleitoral para ser preenchida, muitas pessoas não têm essa preocupação e não conseguem votar no dia da eleição. Muitas vezes não tiveram interesse nem de pesquisar quem eram as candidaturas”, aponta Soares.

Neste ano, os eleitores devem votar em um presidente, um governador, dois/duas senadores(as), um(a) deputado(a) federal e um(a) deputado(a) estadual.

O assunto é particularmente complexo para o Senado, já que a votação exige números diferentes para dois cargos iguais a cada oito anos, como se observa em 2026. Nesse caso, não dá para votar na legenda, possibilidade que existe nas disputas proporcionais (deputados federais e estaduais), explica a pesquisadora. 

Entenda a diferença entre voto branco e nulo

  • Voto em branco: é aquele computado após o eleitor pressionar a tecla “branco” na urna e, em seguida, a tecla “confirma”.
  • Voto nulo: é aquele em que o eleitor digita um número de candidato inexistente, como “00”, e depois a tecla “confirma”.

Legenda: Em ordem: plenário, sala de comissões e Salão Nobre do Senado.
Foto: Pedro França, Ton Molina e Saulo Cruz/Agência Senado

O especial “Para entender os Poderes” é uma série de reportagens do Diário do Nordeste sobre o funcionamento e outros aspectos da disputa pelos cargos que estão em jogo nas eleições gerais de 2026. O material inclui a Assembleia Legislativa do Ceará, o Palácio da Abolição, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e o Palácio Planalto. 

Apatia com disputa ao Senado

Adriana Soares afirma que o fenômeno não é uma particularidade do Ceará. “A rejeição maior se deu em 2018, quando também houve maior número de candidaturas ao Senado a nível nacional”, aponta. 

Naquele ano, o Ceará registrou 34,85% de votos inválidos, unindo 1.849.607 votos em branco e 853.822 votos nulos. Esses mais de 2,7 milhões de eleitores se recusaram a escolher um dos nove nomes disponíveis para a disputa ou votaram em uma das quatro candidaturas consideradas inaptas. 

“O percentual de votos em branco foi maior em 2018 que em 2022, porque (a primeira) foi uma eleição para dois senadores. O percentual é muito parecido com o de 2010, que teve também duas candidaturas”, observa a pesquisadora.

Há oito anos, no Ceará, foram escolhidos Cid Gomes (PSB) e Eduardo Girão (Novo). Já em 2010, Eunício Oliveira (MDB) e José Pimentel (PT) saíram vitoriosos na eleição à Casa Alta. 

Para efeito de comparação, a eleição de 2018 para o Governo do Estado também teve maior rejeição no período observado, mas o patamar nesse caso ficou em 21,26% – alto devido ao acirramento político, mas ainda assim significativamente menor que o verificado no Senado.

Mesmo em números inferiores, a tendência se repete ao longo do período observado. Veja no gráfico a seguir:

CONFIRA A DIFERENÇA DE VOTOS BRANCOS E NULOS NAS ELEIÇÕES AO SENADO, AO GOVERNO DO ESTADO E AO GOVERNO FEDERAL NO CEARÁ
  Senado Federal Governo Estadual Governo Federal
Ano Votos nominais Proporção Votos nominais Proporção Votos nominais Proporção
2022* 764.503 15,74% 424.558 8,17% 199.346 3,67%
2018** 2.703.429 34,85% 919.369 21,26% 364.557 7,47%
2014* 1.010.077 25,27% 741.932 17,39% 487.376 10,78%
2010** 1.996.475 26,97% 722.326 18,16% 500.924 11,93%
2006* 768.947 21,01% 563.720 14,58% 424.070 10,59%
* Eleição de um senador.
** Eleição de dois senadores.

Monalisa Torres destaca que o nível de anulação se manteve estável entre 2006 e 2014 (8,87 e 1,7 pp). Contudo, de 2014 a 2022, os percentuais divergiram consideravelmente – entre 9,58 e 18,84 pp – devido a questões contextuais muito específicas. 

Primeiro, em 2018, tivemos a “eleição da Lava-Jato”, com muita descrença e desgaste da classe política – que se tornou gatilho, inclusive, do bolsonarismo que marcou aquela eleição. A disputa pelo Senado no Ceará também foi influenciada por essas questões, indica a professora. 

“Quem é o bolsonarista? E aí o Girão consegue virar o jogo quando assume essa posição. Também havia o desgaste dos políticos que tinham, em alguma medida, envolvimento com a Lava-Jato. Então, tinha o Eunício desgastado pela presidência que ocupou no Senado no momento do impeachment da Dilma (Rousseff), que o colocava no olho do furacão”, comenta Torres. 
 
Já em 2022, foi a polarização quem deu o tom da escolha do voto, avalia Monalisa Torres, e diminuiu a abstenção. “No caso do Ceará, havia a expectativa de um retorno do PT (à presidência), que motivou um engajamento muito maior do eleitorado. Nesse contexto específico, há também a segunda dimensão: a personalista da política, que tem a ver com as figuras que participam e que acabam mobilizando mais ou menos o eleitor”, observa. 

A figura de destaque, para a professora, foi Camilo Santana (PT), que deixou o Governo do Ceará com boa avaliação e conseguiu usar o “apelo, carisma e capital político acumulado” a seu favor. Sendo assim, ele foi eleito senador na disputa passada com 69,76% dos votos. 

Expectativa para 2026

Com a pesquisa Quaest de setembro apontando 17% de intenções de anulação, somadas a uma base de indecisos na casa dos dois dígitos, os candidatos ao Senado no Ceará enfrentam mais um desafio pela frente na busca de votos. 

Por outro lado, Monalisa Torres supõe que o patamar não evolua para mais de 20% de abstenção neste pleito, devido ao apelo das atuais candidaturas. 

“Há candidaturas que já têm uma trajetória política, uma base eleitoral consolidada e, muitas vezes, uma base mais orgânica. O perfil das candidaturas em disputa nesse momento pode servir de motivação para redução da abstenção”, avalia. 

“A Luizianne tem uma base eleitoral orgânica, o Cid é muito forte no interior, o Capitão Wagner tem uma base eleitoral fiel em Fortaleza e o Alcides, embora seja um nome novo, que não é tão conhecido pelo eleitor cearense, é ligado a André Fernandes, que tem uma base eleitoral também relativamente consolidada, orgânica”, descreve Monalisa.

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