Quem são os políticos que se despedem dos mandatos eletivos no Ceará em 2022

Sem mandatos, parlamentares articulam futuro para permanecer na política e continuar no cenário

O resultado das eleições deste ano trouxe novas peças para o xadrez político cearense, mas também retirou outras do tabuleiro. Praticamente todos os nomes que se despedem das Casas Legislativas em 2023, na representação Estadual ou Federal, são de políticos experientes ou com tradição familiar.

Ao todo, 25 deputados que estavam, atualmente, na titularidade do mandato deixam a Assembleia Legislativa do Ceará e a Câmara dos Deputados em 1º de fevereiro. Na Assembleia, 18 não conseguiram manter as vagas, enquanto na Câmara foram sete.

Além do resultado das urnas ter contribuído para a dança das cadeiras na Assembleia e na Câmara, as movimentações internas de cada político e partido acabaram frustrando expectativas. Dentre os parlamentares que deixam a titularidade dos mandatos, há os que concorreram a outro cargo e não foram eleitos; os que não lançaram candidatura para emplacar um familiar; os que conseguiram ter um desempenho melhor nas urnas, mas não atingiram o quociente partidário para garantir a titularidade; e os que perderam capital político de votos.

Todavia, o afastamento das Casas Legislativas pode não ser permanente pelos próximos quatro anos, já que muitos conquistaram boas colocações na suplência e podem ser convocados para exercer o mandato temporariamente.

PDT

Segundo colado na suplência do PDT na Assembleia, o deputado Antônio Granja disse que vai continuar com a atuação política e espera assumir um mandato em 2023. Ele é um dos suplentes que deve voltar em breve ao Parlamento Estadual, tendo em vista que articulações no PDT para retomar a aliança com o PT no Governo do Estado incluem o chamamento de titulares para a composição do Governo.

Assim, suplentes devem assumir as cadeiras dos titulares.

"Pretendo continuar na vida pública e, se possível for, assumir um mandato. Deus vai iluminar o meu futuro. O futuro a Deus pertence"
Antônio Granja
Deputado Estadual

Outro parlamentar do PDT que deve voltar aos corredores da Assembleia ainda no início da próxima legislatura é Bruno Pedrosa, que ficou na 1ª suplência da legenda na Casa. Na quinta-feira (29), o governador eleito Elmano de Freitas (PT) anunciou o nome do deputado Salmito Filho (PDT) para chefiar a Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE).

Reeleito como deputado, Salmito deve tomar posse em feveiro e se licenciar logo em seguida para comandar a SDE. Assim, Bruno Pedrosa já é convocado para assumir a vaga.

Já para Tin Gomes (PDT), que estava como titular desde que foi eleito em 2010, as chances para voltar à Casa com brevidade são um mais remotas. Ele ficou em quarto na suplência da sigla após ter uma expressiva desidratação eleitoral entre 2018 e 2022.

Nesta eleição, ele obteve 35.075 votos, enquanto em 2018 conquistou 53.050. 

Na Câmara dos Deputados, o federal Pedro Bezerra vai deixar a Casa de vez ao fim da atual legislatura. Mesmo tendo conquistado quase 120 mil votos em 2018, ele não concorreu no pleito deste ano para que se eu pai, Arnon Bezerra (PDT), ex-prefeito de Juazeiro do Norte, disputasse a eleição. No entanto, Arnon só obteve 37.057 votos e ficou como 3º suplente do PDT no Parlamento Federal.

O federal Leônidas Cristino (PDT) também não deve ficar longe do Parlamento em Brasília, ainda que não tenha garantido a titularidade na próxima legislatura da Câmara. Ele ficou como primeiro suplente da bancada do PDT do Ceará e deve assumir, em fevereiro, a vaga de Robério Monteiro (PDT).

Robério foi reeleito como deputado federal, mas aceitou o convite de Elmano para comandar a Secretaria de Recursos Hídricos (SRH). Assim, ele deve assumir o mandato em fevereiro e se licenciar logo em seguida, abrindo espaço para Leônidas voltar à Câmara.

Leônidas foi um dos parlamentares do PDT que teve uma ampla desidratação de votos, passando de 102.417, em 2018, para 74.866 neste último pleito.

Federação PT, PV e PCdoB

Formada neste ano, a federação do PT, PV e PCdoB ampliou o número de vagas conquistadas na Assembleia em 2022. No entanto, alguns parlamentares que ocupavam cadeiras titulares na Casa ficaram de fora. É o caso do deputado Nizo Costa (PT), que foi eleito em 2018 para o seu primeiro mandato pelo Patriota, mas se filiou ao PT para disputar a eleição.

Ainda que tenha conseguido ampliar a sua votação em mais de 12 mil votos, saindo de 24.759 para 37.110, a quantidade não foi suficiente para garantir uma vaga titular. Nizo, porém, é um dos parlamentares atuais que deve estar de volta à Assembleia ainda no início da nova legislatura devido à composição para o Governo do Estado.

Nesta quinta, Elmano também anunciou o deputado estadual reeleito Moisés Braz (PT) para chefia a Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA). Com isso, Nizo deve assumir a vaga Moisés de forma temporária. Nizo é o primeiro suplente da federação para o Parlamento Estadual.

Acrísio Sena (PT) é outro que também deixa a Casa ao fim deste mandato. Ele ficou como terceiro suplente da federação, após obter 30.653 votos em 2022. 

"Independente do espaço que eu venha ocupar, continuarei com a minha atuação política na ativa", declarou sem dar muito detalhes sobre planos para o futuro.

Já o crateuense Carlos Felipe (PCdoB) não concorreu à reeleição neste ano. Médico concursado do Hospital das Clínicas, vinculado à Universidade Federal do Ceará (UFC), e do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), ele pretende voltar a atuar na profissão e diz que precisa contribuir mais uns "3 ou 4 anos" para poder se aposentar - um dos seus objetivos. Para ele, mandatos políticos não devem virar profissão.

"Na verdade, eu sempre pensei em retornar à minha atividade profissional. Eu sou servidor público federal no Hospital das Clínicas e servidor do Hospital Geral de Fortaleza. Já tenho 24 anos nos dois. Mesmo quando eu fui prefeito (de Crateús), eu continuei recebendo como médico, e não como prefeito. (...) Eu tinha uma grande chance eleitoral, mas eu quis demonstrar na prática o que eu penso: que para Legislativo, era para ser só dois mandatos, assim como no Executivo"
Carlos Felipe
Deputado Estadual

Carlos Felipe pontua, ainda, que não pretende ficar longe da atividade política, mas que só estaria disposto a assumir algum cargo ou disputar novamente uma eleição se sentisse que é uma "missão"

"Vou continuar influenciando politicamente, lutando, defendendo as pessoas. Se um dia eu for chamando em outra situação, se eu sentir que é uma missão e que eu vou ter condições de executar, eu posso repensar minha decisão. Mas eu não vou fazer movimentos para ser candidato novamente nos próximos pleitos. (...) Dia 1º de fevereiro eu volto ao batente (como médico)"
Carlos Felipe
Deputado Estadual

Deputado estadual desde 2014, o deputado Walter Cavalcante (PV) é outro titular atual que não garantiu uma cadeira na Assembleia na próxima legislatura. Ele obteve 28.658 votos e ficou na quarta suplência. Walter foi um dos quadros do PV que participou das negociações com o ex-governador e senador eleito, Camilo Santana (PT), para o lançamento de uma candidatura do PT para a disputa pelo Palácio da Abolição, antes mesmo do nome de Elmano de Freitas (PT) ser definido.

Na Câmara dos Deputados, todos os atuais titulares da federação foram reeleitos.

União Brasil

Fruto da fusão do DEM com o PSL, o União Brasil conseguiu emplacar vários novos nomes nos Parlamentos. Na Assembleia, fez três titulares. Na Câmara, foram 4. Todavia, muitos deles são novatos.

 Heitor Férrer (União), que está no quinto mandato de deputado estadual, sendo o terceiro consecutivo, não conseguiu garantir uma vaga na próxima legislatura. Ele ficou na 1ª suplência da legenda na Casa, após obter 33.915 votos em 2022 - uma perda de mais de 20 mil votos em relação a 2018. 

Férrer disse que não há nenhuma expectativa para voltar à Assembleia enquanto suplente e que continuará exercendo a medicina.

Soldado Noélio (União), que foi eleito deputado estadual pela primeira vez pelo Pros em 2018, com o apoio de Capitão Wagner, ficou na terceira suplência da bancada na Câmara na eleição de 2022. Neste pleito, ele lançou candidatura para o Parlamento Federal e obteve 42.693 votos.

Quem também ficou sem mandato foi o deputado estadual Tony Brito (União). Em 2018, ele ficou na suplência, mas assumiu a titularidade de uma vaga na Assembleia quando o então deputado Vitor Valim (sem partido) renunciou para ocupar a Prefeitura de Caucaia. Valim foi eleito em 2020 como prefeito.

Deputado federal mais votado do Ceará em 2018, com mais de 303 mil votos, Capitão Wagner (União) também ficará sem mandato eletivo a partir de fevereiro de 2023. No pleito deste ano, ele saiu candidato ao Governo do Ceará, mas ficou em segundo lugar, com 1.649.213 votos (31,72%). Ainda assim, ele conseguiu emplacar a esposa, Dayany do Capitão (União), na Câmara dos Deputados. Dayany conseguiu a última vaga da bancada federal do Ceará, com 54.526 votos.

Para os próximos anos, Wagner disse que já recebeu alguns convites para continuar atuando na política fora de um mandato eletivo, mas está "analisando". No Ceará, ele é o presidente do diretório estadual do União Brasil.

"Temos alguns convites e estamos analisando. Minha prioridade sempre foi o Estado. Desde quando me candidatei a primeira vez, em 2010, nunca me afastei"
Capitão Wagner
Deputado Federal

Do União Brasil, quem também acabou não garantindo suas vagas foram os deputados federais Heitor Freire e Vaidon Oliveira. Freire ficou na 2ª suplência do partido na Câmara, enquanto Vaidon ficou com a quarta colocação.

MDB

O MDB perdeu uma vaga na Assembleia no pleito deste ano, mesmo com a migração de deputados titulares para o partido. Pela legenda, os deputados estaduais Audic Mota e Leonardo Araújo não conseguiram garantir as atuais vagas na Assembleia no próximo mandato. Eles ficaram na 1ª e 2ª suplência, respectivamente.

Para o futuro, Leonardo Araújo projeta não ficar longe da política e diz que aguarda uma "missão" ser designada pelos "líderes" do seu grupo: "senador Camilo Santana, governador eleito Elmano de Freitas e governadora Izolda Cela".

Ele cita algumas questões que estão pendentes para definir o seu futuro político.

"Primeiro, partidária: a vice-governadora é de nosso partido, acredito que deva participar de qualquer decisão nesse sentido; segundo, bancada: eu e o deputado Audic temos uma participação intensa, ao lado dos deputados Agenor Neto e Davi de Raimundão; terceiro: o grupo suprapartidário que elegeu o governador Elmano no primeiro turno deve ter alguma ingerência nessa decisão; quarto: o presidente Evandro (Leitão) terá papel decisivo nessa montagem e articulação. Então, não temos nenhuma posição concreta sobre nosso futuro político. Mas, repito, confio na decisão do Elmano"
Leonardo Araújo
Deputado Estadual

O deputado estadual Nelinho (MDB), que disputou uma vaga para a Câmara dos Deputado, também não conseguiu garantir um mandato eletivo no próximo ano. Todavia, ele é o 1º suplente do MDB na Casa.

Outras legendas

O casal de deputados Aderlânia Noronha (Solidariedade), estadual, e Genecias Noronha (PL), federal, não disputou a eleição neste ano para emplacar o filho Matheus Noronha (PL) na Câmara dos Deputados. Ele foi eleito com 150.823 para o seu primeiro mandato.

A deputada estadual Érika Amorim (PSD) também ficou sem mandato após ser lançada de última hora para substituir a candidatura ao Senado na coligação de Roberto Cláudio (PDT). A parlamentar não disputaria a eleição diante de tratativas para o seu marido, Naumi Amorim (PSD), ex-prefeito de Caucaia, concorrer a uma vaga na Câmara. 

No pleito deste ano, no entanto, Érika ficou em terceiro na disputa pela vaga no Senado, com 193.243 votos. Naumi acabou na 2ª suplência do PSD do Ceará na Câmara, com 34.214 votos.

O deputado estadual Delegado Cavalcante (PL) também ficará sem mandato em fevereiro de 2023. Com pautas conservadoras, ele disputou uma vaga na Câmara dos Deputados, mas acabou na 5ª suplência do PL, com 24.379 votos.

Sobre os planos para o futuro, Cavalcante destaca a possibilidade de voltar à ativa da Polícia Civil do Ceará.

"O plano é voltar à ativa como delegado de Polícia, uma vez que ainda não estou aposentado"
Delegado Cavalcante
Deputado Estadual

Suplentes efetivados como titulares durante a atual legislatura da Assembleia, Duquinha (Republicanos) e Gordim Araújo (PSDB) também ficarão sem mandato eletivo em fevereiro. Ambos ficaram na 1ª suplência de seus respectivos partidos para assumir uma vaga no Parlamento Estadual.

O deputado federal Denis Bezerra (PSB) vai encerrar o mandato eletivo de vez em fevereiro. Ainda que tenha concorrido à reeleição, o PSB não atingiu o quociente eleitoral para conquistar uma das vagas do Ceará na Câmara dos Deputados. Com isso, mesmo tendo obtido mais de 118 mil votos, Denis não foi eleito e nem ficou na suplência.

Senado

No Senado Federal, um cearense que se despede de mandatos políticos é o senador Tasso Jereissati (PSDB). Ele é senador desde 2003, mas decidiu neste ano não disputar nenhum cargo na eleição. 

Em discurso de despedida no início deste mês no Senado, Tasso relembrou seu primeiro pronunciamento na Casa, em 2003, quando assumiu o seu primeiro mandato, e exaltou o resultado das urnas em uma eleição com ataques à democracia. Em 2003, Lula (PT) também assumia pela primeira vez a Presidência do Brasil. 

"Naquele momento, pensava eu, consolidava-se a democracia no Brasil: um operário, sindicalista e nordestino, assumia a Presidência da República em clima de paz, de festa, sem que tivesse havido qualquer percalço. Quis o destino que essa minha despedida do Senado Federal fosse exatamente no momento em que Lula retorna ao poder, agora, após uma das eleições mais conturbadas da nossa história, em que não faltaram ataques à própria democracia"
Tasso Jereissati
Senador

Tasso também fez uma retrospectiva da sua atuação na Casa e recebeu homenagem dos colegas.