Bandeiras tarifárias ficam mais leves em 2026, mas El Niño ameaça conta de luz

Em 2024 e 2025, o mês de outubro teve incidência da bandeira vermelha. Neste ano, não há cobrança adicional.

Escrito por
Mariana Lemos mariana.lemos@svm.com.br
Legenda: Geração hidrelétrica corresponde a 41% da capacidade instalada da matriz elétrica brasileira.
Foto: Fabiane de Paula/SVM

A cobrança extra na conta de energia elétrica das famílias brasileiras foi atenuada em 2026, com um menor acionamento das bandeiras tarifárias em relação ao ano passado. O cenário é positivo, mas não indica que a geração de energia no Brasil ficará sem intercorrências.

Em 2025, as bandeiras tarifárias amarela e vermelha foram acionadas com mais frequência e deixaram a conta de luz cerca de R$ 74,70 mais cara. Oito dos 12 meses tiveram incidência de custos extras, sobretudo no segundo semestre. 

Já neste ano, a bandeira amarela foi acionada de maio a setembro. Em outubro, voltou a vigorar o patamar verde, em que não há cobranças extras na tarifa. 

Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o nível dos reservatórios das hidrelétricas foi estabilizado com o aumento do volume de chuvas nas regiões Sul e Sudeste, diante da transição da seca para a época chuvosa.

Com isso, o despacho das usinas termelétricas, que encarece o sistema de geração, foi reduzido. As bandeiras vermelhas patamar 1 e patamar 2, que indicam o maior nível de cobrança extra, não foram acionadas ao longo deste ano. 

Contudo, a melhora nas condições de geração não indica garantia de abundância hídrica e segurança elétrica em todas as regiões do País, conforme pondera a professora de Mudanças Climáticas da Fundação Getulio Vargas (FGV), Marta Camila Carneiro. 

"A ausência de bandeiras vermelhas é um sinal bom, positivo, mas deve ser analisado em conjunto com os outros reservatórios. Não é um indicador isolado do volume total de energia produzida do País. A bandeira sinaliza as condições e os custos de energia", avalia. 

BANDEIRAS TARIFÁRIAS

O sistema de bandeiras tarifárias foi regulamentado em dezembro de 2012. Além de tornar os custos do sistema mais visíveis aos consumidores, o sistema busca incentivar as famílias a adaptar o consumo de energia para controlar o valor da conta, segundo a Aneel. 

A bandeira é aplicada a todos os consumidores, considerando o consumo mensal. No caso da bandeira mais alta, a vermelha no patamar 2, há acréscimo de R$ 7,87 para cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos. 

 

BANDEIRA TARIFÁRIA VALOR ADICIONAL (por 100 kWh)
Amarela R$ 1,88
Vermelha (patamar 1) R$ 4,46
Vermelha (patamar 2) R$ 7,87
 


EL NIÑO ACENDE ALERTA PARA OS PRÓXIMOS MESES

Com a crise climática e os impactos nas fontes energéticas, as bandeiras amarela e vermelha podem se tornar cada vez mais comuns, alertam especialistas.

Segundo a CEO da Energo Soluções em Energias, Marília Brilhante, a manutenção de um cenário mais positivo de geração nos próximos meses depende da evolução das condições climáticas. 

Há previsão de um El Niño de forte intensidade, que pode levar a chuvas intensas no Sul e redução nas precipitações no Norte e Nordeste no primeiro semestre do próximo ano. Já o Sudeste e Centro-Oeste podem enfrentar seca e poucas chuvas neste segundo semestre.

O cenário exige atenção especial, já que os impactos não se restringem às hidrelétricas. O aumento da temperatura eleva o consumo de eletricidade, aumentando a necessidade de recursos para atender à demanda. 

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"Dependendo das condições de cada região, pode ser necessário ampliar o despacho de termelétricas ou utilizar mais intensamente outras fontes disponíveis. Não é possível garantir que a bandeira verde será mantida nos próximos meses", afirma.

O comportamento das chuvas no Centro-Oeste deve ser determinante, já que a região concentra importantes reservatórios e grande parte da população do País. 

"É importante ter um planejamento preventivo, agir pensando já na adaptação climática. Pensar na disponibilidade de outras fontes de geração de energia é super importante. É preciso olhar em condições de armazenamento melhores do que outros anos", ressalta Carneiro. 

O Operador Nacional do Sistema (ONS) opera com 65,9% do volume útil nas hidrelétricas. Diante do cenário de intensificação do El Niño, é recomendado que os estados e municípios revisem e atualizem seus planos de contingência. 

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