Estudo da Uece revela: margens do rio Jaguaribe estão erodindo
Professores da Universidade Estadual do Ceará identificaram mudanças importantes após a construção do Castanhão
Uma pesquisa acadêmica desenvolvido por professores da Universidade Estadual do Ceará (Uece) apurou que trechos do rio Jaguaribe apresentam erosão de suas margens que pode chegar a 7 metros por ano, especialmente em áreas arenosas e de pouca vegetação ciliar. O estudo analisou as transformações pelas quais o maior rio cearense passou entre 1958 e 2025, identificando mudanças importantes em sua dinâmica após o início da operação do Açude Castanhão, em 2002.
A pesquisa, transformada em artigo científico, tem a assinatura dos professores do curso de Geografia do Centro de Ciências e Tecnologia (CCT) da Uece, Andrea Almeida Cavalcante e Davi Rodrigues Rabelo, e de Marcos de Brito Bezerra. Intitulado “Morphological Changes and Alterations in Erosion–Accretion Patterns in a Semiarid Brazilian River” (Mudanças Morfológicas e Mudanças nos Padrões de Erosão-Acreção em um Rio Brasileiro na Região Semiárida), o trabalho foi publicado na revista científica Earth Surface Processes and Landforms, da editora Wiley, especializada em estudos sobre a superfície terrestre e os processos geomorfológicos.
O estudo investiga como o rio Jaguaribe responde às alterações no regime de vazões e no transporte de sedimentos, considerando tanto a influência da barragem do Castanhão quanto as características naturais e as intervenções humanas ao longo do curso fluvial.
Para isso, os pesquisadores utilizaram fotografias aéreas históricas, imagens de satélite, levantamentos de campo e dados hidrológicos e sedimentológicos. A análise temporal abrange o período de 1958 a 2025, enquanto os dados de campo e de monitoramento hidrossedimentológico utilizados na interpretação concentram-se, principalmente, entre 2007 e 2010.
A pesquisa identificou que o funcionamento do Açude Castanhão modificou o volume de água que segue pelo rio Jaguaribe e a quantidade de sedimentos, como areia e argila, transportados pela correnteza à jusante da barragem. As análises apontam uma redução de 76% na vazão média diária do rio e de cerca de 41% na concentração de sedimentos em suspensão na água. Com essas duas mudanças, a quantidade de sedimentos transportados pelo rio diminuiu mais de 50%, alterando a dinâmica de deposição de materiais e a configuração do leito fluvial.
A diminuição dos grandes picos de vazão reduziu a capacidade do Jaguaribe de mobilizar e redistribuir sedimentos, favorecendo a estabilização de bancos de areia, a expansão da vegetação sobre áreas de deposição e a estabilização parcial de trechos do canal. Isso não significa, porém, que o rio tenha deixado de sofrer alterações, salienta o estudo.
Erosão depende das características de cada trecho – O trabalho identificou, também, diferenças importantes na dinâmica das margens. Em setores monitorados com margens arenosas e pouca vegetação ciliar, as taxas de recuo lateral chegaram a 7 metros por ano. Em áreas com maior cobertura vegetal, a susceptibilidade à erosão foi menor.
Segundo o professor Davi Rabelo, os resultados reforçam a necessidade de compreender a dinâmica do rio Jaguaribe a partir da interação entre diferentes fatores. Além da regularização das vazões pelo Castanhão, a pesquisa destaca a influência dos rios tributários, das passagens molhadas, da vegetação das margens, do uso da terra e das características geomorfológicas de cada trecho.
Essa combinação ajuda a explicar por que alguns setores apresentam erosão intensa, enquanto outros registram maior deposição de sedimentos ou estabilização das barras fluviais. Assim, os efeitos da barragem não se manifestam de maneira uniforme ao longo do rio.
A análise das imagens mais recentes também indica que, embora tenha ocorrido uma redução da mobilidade em grande escala em algumas áreas, continuam a existir migração localizada do canal, retrabalhamento de barras sedimentares e erosão de margens.
Contribuições para o planejamento ambiental -- A bacia do Jaguaribe tem 74 mil Km², ocupa cerca de metade da geografia cearense e constitui a principal fonte de recursos hídricos superficiais da região, conforme a caracterização apresentada no artigo. De acordo com os pesquisadores, compreender as transformações do rio é, portanto, relevante para o planejamento ambiental e territorial do Ceará.
Os resultados podem subsidiar discussões acerca da gestão dos recursos hídricos, conservação da vegetação ciliar e controle da erosão, além de contribuir para a compreensão dos efeitos de barragens e de outras intervenções humanas nos sistemas fluviais de regiões semiáridas.
A pesquisa também oferece uma contribuição à literatura científica internacional ao interpretar o Jaguaribe como um rio de leito de cascalhos com padrão wandering, caracterizado pela presença de barras sedimentares, migração do canal e estabilização parcial de alguns setores.
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