Astrônomos descobrem a primeira estrela verde escondida pelo universo
Astro fica a cerca de 280 anos-luz da Terra, na constelação do Dragão.
Sempre ensinei nas aulas de Astronomia que não existem estrelas verdes, e isso muda agora. Na quinta-feira (15), a Universidade de Warwick, na Inglaterra, divulgou um estudo publicado na revista RAS Techniques and Instruments, da Royal Astronomical Society, que identifica a primeira estrela com cor verde para o olho humano.
O astro se chama WD J1330+6435, está a cerca de 280 anos-luz da Terra, na constelação do Dragão, e os autores não conhecem outro relato crível de estrela verde, de qualquer tipo.
WD J1330+6435 é uma anã branca, o núcleo que sobra quando uma estrela como o Sol esgota o "combustível" nuclear e expele as camadas externas. Esse resto concentra em geral cerca de metade da massa do Sol em um volume parecido com o da Terra. Eu costumo comparar uma anã branca a um diamante do tamanho de um planeta.
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Por que nenhuma estrela verde havia sido encontrada até agora?
A resposta está em como as estrelas emitem luz. Cada estrela emite todas as cores ao mesmo tempo, e a mistura depende da temperatura da superfície. Estrelas mais frias emitem mais luz vermelha e parecem alaranjadas, as mais quentes emitem mais luz azul, e as intermediárias, como o Sol, parecem brancas.
Uma estrela cuja cor mais intensa seria o verde também emite muita luz vermelha e azul. O olho recebe as três e percebe branco. Esse é o caso do Sol, que tem a cor mais intensa no verde e aparece branco quando visto do espaço.
Na verdade, o Sol não é amarelo. A luz dele é branca. O amarelo que percebemos daqui vem da atmosfera da Terra, que espalha parte da luz azul, e o efeito aumenta perto do nascer e do pôr do Sol, quando a luz atravessa mais ar. Pelo mesmo motivo, o céu fica alaranjado perto do horizonte nesses momentos.
Por isso, a sequência de cores das estrelas vai do vermelho ao azul, passando por laranja e branco, sem nenhum trecho verde. Algumas nebulosas, que são nuvens de gás ao redor de estrelas em fim de vida, brilham em verde por causa do oxigênio presente no gás.
As anãs brancas quebram essa regra por causa da densidade. WD J1330+6435 é uma anã branca fria, com a superfície a cerca de 4.000 graus Celsius, e a atmosfera desse tipo de estrela tem densidade parecida com a da água, milhões de vezes maior que a da superfície visível do Sol.
Nesse ambiente apertado, alguns elementos químicos passam a funcionar como um filtro que segura muito mais cores da luz do que seguraria em condições normais. Em WD J1330+6435, o elemento decisivo é o sódio, o mesmo do sal de cozinha.
Em uma estrela comum, o sódio segura apenas um tom bem específico de laranja, o mesmo das lâmpadas de rua de sódio. Na anã branca, a presença do sódio segura também o amarelo e parte do vermelho, e o que passa é o verde. O sódio chegou à estrela junto com cálcio e lítio, o mesmo das baterias de celular, em restos rochosos do sistema planetário dela que caíram na atmosfera.
É possível observar a estrela verde?
A cor verde foi obtida por cálculo, sem observação direta, e é uma pena, porque eu queria observar essa estrela com o telescópio.
Nenhuma anã branca está perto o bastante para que o olho humano distinga a cor, então a equipe liderada por Mark Hollands analisou a luz de cada estrela separada em cores, como um prisma faz com a luz do Sol, e aplicou um modelo da visão humana para descobrir o tom que cada uma teria. Parte dos dados vem do Sloan Digital Sky Survey, um grande levantamento do céu feito com telescópio no Novo México, nos Estados Unidos.
O estudo avaliou 151 anãs brancas a até 65 anos-luz da Terra. Só cinco, cerca de uma em 30, tinham cor muito diferente do branco, e a cor mediana do grupo ficou próxima do branco de uma tela de computador.
O trabalho também identificou WD J1011+2845, a 48 anos-luz da Terra, de cor rosa salmão por causa do carbono, o mesmo elemento do carvão, possivelmente a estrela mais vermelha conhecida em cor percebida. Outras anãs brancas aparecem em tons de amarelo, azul-claro, rosa e roxo.
Continuamos sem observar estrelas verdes. O céu tem estrelas vermelhas, brancas, azuis e alaranjadas (o amarelo queimado do Ceará), e o universo escolheu esconder as verdes.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.