Aprendizados, construção de legado e sonho por Libertadores: veja íntegra de entrevista com Vojvoda

Treinador argentino falou sobre crescimento pessoal no Fortaleza, como o clube o tem ajudado na carreira e revelou ansiedade por entrar no Castelão lotado

A importância do técnico Juan Pablo Vojvoda no Fortaleza é inegável. Em pouco tempo, o trabalho ganhou destaque e o argentino conquistou os torcedores. Trazemos aqui a segunda parte da entrevista exclusiva com o treinador do Tricolor.

Vojvoda falou sobre a percepção do cenário do futebol brasileiro, o crescimento pessoal e profissional que teve no Leão do Pici, o legado que pretende deixar no clube e revelou um sonho: levar o Fortaleza para a Libertadores.

*A entrevista foi realizada na última sexta-feira (10), antes do duelo contra o Atlético-MG

Diário do Nordeste: Qual o principal desafio no atual período sem vitórias?

Juan Pablo Vojvoda: Eu foco nosso trabalho na próxima partida. E todos os times...não é buscar desculpas, mas todos os times têm oscilações. As nossas foram em partidas de igualdade. Essas cinco partidas, foram quatro empates e uma derrota, com o Bahia. Dos quatro empates, perdemos pênaltis...coisas de futebol. Mas também ganhamos partidas no último minuto, como contra o Palmeiras, entende. Futebol lhe dá e lhe tira. Sempre dá e tira. Quando você trabalha seriamente, geralmente dá mais que tira. Mas é um jogo, e tem outros fatores neste jogo.

DN: O jogo contra o São Paulo pode ser histórico. O que vale essa classificação para você?

JPV: Muito, como todos os jogos de Copa. São sempre muito importantes, pois vale classificação, partida de 180 minutos. Sabemos, somos conscientes que a partida muito importante a de quarta, contra o São Paulo.

DN: Com a excelente campanha feita no Brasileirão, os objetivos do Fortaleza no campeonato passaram a ser maiores?

JPV: Não, não. Quando eu falo que trocar os objetivos, a princípio, não são objetivos de resultado, mas sim de rendimento. O time que encerrou o 1º turno do Fortaleza é um time agressivo, que se acostumou a ganhar a todo jogo, que mesmo nos jogos que se perdeu, o time sempre foi competitivo, sempre jogou a partida. Esse é meu objetivo quando comecei. E objetivo da parta da diretoria também. Eles queriam um time protagonista. Porque queriam isso? Por que o torcedor do Fortaleza necessitava disso. Que sofreu anos anteriores com possibilidades de rebaixamento. Que não tem que trocar enquanto não conseguir estabilidade. Não quero estabelecer que o objetivo é Libertadores, ou 1º lugar, ou Sul-Americana. Objetivo do Fortaleza é conseguir estabilidade e consolidar em Série A. Esse para mim é o objetivo. 

DN: Mas em termos de resultados...

JPV: Se você quer saber objetivo de resultado, pode ser como objetivo de resultado, consolidar. O Fortaleza é um time que, temporada a temporada, está cada vez melhor. Acho que isso é muito mais saudável para o nosso clube, traçar esse tipo de objetivo. E logo temos objetivos mais gerais. Como consolidar? Um clube se consolida com resultados, com equilíbrio, não ter muitas oscilações. Mas também se consolida com tudo que está perto do clube. Sub-23, jogadores a incorporar, planejamento de nova temporada, gente que trabalha no clube, na imprensa, jogadores que podem chegar. Isso que vai criando um clube que pode, a partir do trabalho do dia a dia, consolidar em outros anos um trabalho.

DN: Mas a Libertadores é um sonho do torcedor que parece real...

JPV: Ah, sim, é um sonho. Eu compreendo o torcedor. E também é meu sonho. Eu sonho também. Sou um trabalhador de futebol, mas também um torcedor, e quero que meu time sempre esteja em cima, brigando por Libertadores. Quando meu time vai ao campo de jogo, eu não sinto inferioridade a nenhum time. É verdade, eu não sinto inferior. Conheço as virtudes dos rivais, estudo muito, é verdade. Antes da partida, sei que vou enfrentar um adversário de tal maneira. Outra partida, de outra. Mas eu também quero Libertadores, Sul-Americana. Mas depois, quanto tenho cabeça fria e penso: "vamos fazer o sonho do torcedor". Mas a mim, eu recebo dinheiro do clube e sou profissional de futebol. Também para fazer um trabalho que é mais geral. Não somente ganhar e, quando ganha, está tudo bem, ou quando perde está tudo mal. Tem que encontrar um equilíbrio.

DN: Após sua chegada e trabalho bem feito no Fortaleza, outros times nordestinos (Bahia e Sport) investiram também em técnicos estrangeiros. Você acha que abriu portas para isso?

JPV: Minha opinião é muito simples. Eu vim fazer o meu trabalho. Se o meu trabalho abre portas, é ótimo. Eu acho que o principal é a liga brasileira abrir as portas para o ingresso de novas ideias. Jogadores que estão em primeiro nível, isso é muito importante. A liga brasileira acredito que está entre as melhores do mundo. Muitas vezes se mira a Europa, o que é lógico, move toda a economia o negócio de futebol. Mas o Brasil está entre as melhores ligas, sempre tendo em mente que a Seleção Brasileira é uma potência mundial. Eu acredito que a liga brasileira há de incorporar novas ideias para seguir crescendo cada vez mais. Neste caso, no Nordeste, também. Isso não significa que o problema é o treinador brasileiro. Eu incorporo muito de treinadores brasileiros para entender suas ideias e muitas vezes ver como manejam treino, costumes, idiossincrasias, personalidades, caráter. Tenho que colher informações de gente que está continuamente convivendo com futebol.

DN: Como é a sua metodologia de treinos? Podemos ver nos jogos alguns conceitos bem aplicados, com o Fortaleza criando superioridades EM DIVERSAS FASES DO CAMPO, SEJA POSICIONAL, QUALITATIVA, QUANTITATIVA. E ALGUNS ASPECTOS QUE TAMBÉM SÃO MUITO INTERESSANTES. ATRAÇÕES, CONSTRUÇÕES, DINÂMICAS DE TERCCEIRO HOMEM, DESMARQUES. QUAIS TRABALHOS FEITOS NO DIA A DIA PARA POTENCIALIZAR ISSO?

JPV: Bom, a metodologia está dentro de um box forte (caixa forte) que não penetra nada, não vou dizer nada sobre isso (risos). Não, tudo o que você disse, está na nossa maneira de trabalhar. E estamos sempre agregando novas ideias, porque o futebol precisa disso. Quanto ao funcionamento no campo de jogo, pretendo sempre uma equipe que se adapte aos diferentes sistemas, aos diferentes adversários, às diferentes situações dentro de um mesmo jogo. Eu gosto do Jogo de Posição, sim. Um jogo de posse de bola, também. Um jogo vertical, também. Então, para isso, se tem que eleger bem os momentos, os jogadores que interpretem essa ideia de jogo e que tenham inteligência de jogo e atitude. Atletas têm que estar cada vez mais comprometidos com entender o jogo. Eu acho que não somente o treinador o maneja e define que ele fica aqui ou ali, e diz "vá fazer isso". Não! O treinador tem que dar as ferramentas para que o atleta possa desabrochar. Mas o atleta também tem que ter capacidade de falar ao treinador "olha, tem esse problema. Eu acho esta solução". Então eu lhe pergunto: "André, você como atleta, que solução você encontra?". E possivelmente a solução que o atleta acha é muito melhor que a que eu acho dentro de um quadro. Por que no papel, Crispim pode jogar aqui. Mas no treinamento, Crispim fala, "aqui não", ou então fala algo. Eu, olhando o jogo, tenho que ver que o que projetei no papel, não é o melhor. O melhor é o que estou vendo no jogo. Então na medida que se pensa em analisar as características dos jogadores e como eles se desenvolvem dentro do futebol, de toda essas complicações, aí eu penso ordenado. Esse pode jogar aqui, ou não pode. Aí vou fazer todo o possível para organizar isso que o futebolista me mostrou. Deve ser do futebolista ao quadro, e não do quadro ao futebolista.

DN: E a importância também de não se apegar aos números. 3-5-2, 4-3-3...

JPV: Ah, sim. Jornalistas se apegam muito, e treinadores também. E muitas vezes temos que ver como está jogando. E vejo em páginas também que muitas vezes se analisam futebol, e eu falo com meus companheiros do staff técnico. Você deve ver isso muito. "Olha o triângulo que formou o Fortaleza", ou "o pentágono que formou para a saída de bola". Isso está trabalhado, mas se você para uma imagem, uma fotografia, vai encontrar triângulos, quadrados e pentâgonos em todo campo. Por que quando o futebol está parado, em uma foto, é muito fácil ver isso. O difícil é jogar. Por isso o difícil é ser futebolista. É resolver em campo, não com uma foto. Em uma imagem tudo é estático. Isso é trabalhado, mas não é que trabalhou 100% em um treino. O que sai é o dia da partida. Sai porque sai.

DN: Neste sentido, qual a sua percepção em relação ao entendimento e COMPREENSÃO DOS JOGADORES BRASILEIROS AOS ASPECTOS TÁTICOS E DE RESOLUÇÃO DE ASPECTOS DE JOGO? São jogadores inteligentes?

JPV: Muito bom. Os jogadores brasileiros nasceram e cresceram com uma pelota, com uma bola em seus pés. O melhor que sabem fazer é jogar futebol e resolver situações de jogo. Quanto ao aspecto cognitivo, eu comecei a treinar jogadores de 14 anos no Newell's Old Boys, e inteligência não está ligada a outros aspectos. Eu tenho filhos pequenos, de 14 e 15 anos, e podem ser muito inteligentes para escola, matemática, e outro pode ser muito inteligente e ser bom também tecnicamente no futebol. Mas não significa que é muito mais inteligente que o jogador que não é bom para a escola. Tive muitos jogadores jovens que. Sempre acho que é melhor o jovem estudar, mas tem alguns que vão muito mal na escola, e quando eu explicava um exercício, e falavam que esse jogador não era inteligente, ele compreendia mais. O que "não era inteligente". Por que futebol precisa de uma inteligencia para futebol. Não é uma inteligência matemática, física, química...é para futebol. Então muitos jogadores são inteligentes para jogar futebol. Você é inteligente para ser jornalista, mas pode não ter a inteligência para ser um pintor, um artista. Há diferentes tipos de inteligência. Acho que o futebolista brasileiro é inteligente. Se ele se propõe, ele vai resolver as situações. Porque as situações que eu digo, ele já resolveu em algum momento, quando era mais novo...nossa tarefa é enquadrar e organizar isso. E mostrar que ele, sabendo tudo o que sabe, agregando organização, é jogador de primeiro nível.

DN: Há muita cultura que o jogador brasileiro só gosta de jogar com a bola no pé, não gosta de adotar comportamentos intensos também sem a bola...

JPV: Isso é importante porque o jogador brasileiro gosta de jogar com a bola, mas o advesário também gosta de jogar com a bola. A pergunta é: como fazemos para ter mais a bola que o adversário? Jogando bem, estando organizados, bem posicionados. E quando não a temos, porque o adversário também vai querer fazer isso, como fazemos nós para recuperar rapidamente a bola? Aí sim se fala em organização, compromisso, esforço físico, aí sim.

DN: Recentemente, você fez uma mudança que chamou atenção. Tirou Felipe Alves e colocou Marcelo Boeck como titular. Qual o motivo da mudança e quem é seu titular hoje?

JPV: Eu acho que são dois goleiros muito parelhos. Há grande competitividade entre os três, na verdade, com o Max também. E isso fortalece e eleva o nível. A posição de goleiros sempre está exposta a erros e eu estou tranquilo porque tenho jogadores nessa posição que me dão segurança. Somente posso falar sobre isso. Não há mais que o que estou dizendo.

DN: Mas quem é o titular?

JPV: Hoje, estão os dois, os três, com o Max, para ganhar a posição no dia a dia. Ninguém aqui no Fortaleza, salvo Allana (coordenadora de comunicação, que estava supervisionando a entrevista), tem o posto garantido. É verdade. Tem que ser assim, e eles sabem também.

DN: Você já revelou o sonho em ver o Castelão lotado pela torcida. Acredita que está mais perto?

JPV: O principal do futebol profissional é o torcedor no estádio, necessita da ocupação do torcedor. Eu acho que esse momento está cada vez mais perto. E a minha família e meus filhos conheceram o Castelão, e se impressionaram também. É um estádio maravilhoso, muito bonito.

DN: Como foi a visita da sua família? Eles gostaram da cidade?

JPV: Muito boa. Meus filhos gostaram da cidade. Minha esposa também. Meus filhos vieram muitas vezes ao treino e viram os jogadores. Eles são muito fanáticos por futebol, nasceram quando seu pai eram futebolista. O menor, eu ja era treinador. Eu sempre digo ao menor, Santino, "por você eu deixei o futebol". E é verdade, entende! Eu estava em outra cidade e minha esposa estava grávida. E com 38 anos eu encerrei minha carreira de jogador e iniciei a de treinador. Eu digo: "por você eu não pude jogar mais futebol". E eu sempre fui apaixonado por futebol. E eles conhecem do goleiro ao último jogador do Fortaleza. Conhecem todo o elenco do Fortaleza, eles sabem nome por nome.

DN: E como é a sua relação com a cidade? O que você mais gosta?

JPV: O clima. Eu gosto muito do clima, o que consideram muito quente. Eu gosto muito. As noites são muito bonitas. Gosto de Fortaleza, é uma cidade que eu tenho que conhecer mais ainda. Minha esposa foi conhecer Mercado Central, caminhamos pela Beira-Mar e outras coisas que agora não lembro, mas as praias muito bonitas. O que o Brasil tem de melhor. Muitos quilômetros de praia. E com bom clima. A água é quente, é tudo muito saboroso, uma beleza.

DN: É verdade que você gosta de um bom churrasco? Uma parrilla?

JPV: Sim, a parrilla eu gosto muito. E o peixe também. Aqui tem um bom peixe. Eu sou uma pessoa simples, que me adapto à cultura que estou vivendo. E isso eu gosto.

DN: Qual o grande legado você pretende deixar no Fortaleza?

JPV: Como instituição, eu pretendo agregar que o meu trabalho sirva para os próximos treinadores. Que pode assentar uma base e, a partir daí, seguir crescendo. E não que quando o Vojvoda se vá do Fortaleza, tenha que começar a construir novamente. Vojvoda vai construir até aqui, o andar 5, e o próximo não tem que construir desde o primeiro andar. Tem que construir do 5º ao 10º, e assim por diante. Isso é o que eu pretendo, o que eu imagino. Que meu trabalho se justifique dessa maneira também. O principal objetivo é saber que o Fortaleza é um clube que está crescendo e cada vez tem que crescer mais. E as decisões são pensando com o coração, também. O torcedor tem coração. E também pensando sempre no melhor para o clube, com calma.

DN: Que aprendizados você tira do período vivenciado até aqui?

JPV: Aprendizado muito grande. Primeiro, por conhecer a liga brasileira. E também por estar perto dos futebolistas brasileiros. Eu já havia competido contra, mas estar aqui e conhecendo de perto, é um aprendizado muito bom para mim. E trabalhar em uma instituição como Fortaleza tem me ajudado. Eu tenho ajudado o Fortaleza e o Fortaleza ajudado a minha pessoa, como profissional também. Como o planejamento para jogar a cada 3 dias, as logísticas de viagens, jogar o Campeonato Cearense, Copa do Brasil, o Brasileirão continuamente, ou treinar quando tem somente 2 ou 3 dias para fazê-lo. Eu joguei outros torneios por outros times, em que o foco era todo em Sul-Americana, ou Libertadores. Era apenas em uma competição. Aqui, não. É foco no Campeonato Cearense, muito importante. Copa Brasil, muito importante. Campeonato Brasileiro, muito importante. Aqui, todas as competições são muito importantes. Não se deixa nada de lado. Então isso é um aprendizado muito bom para mim.

DN: Você falou que o trabalho no Fortaleza ainda está no começo. Pretende permanecer no clube para 2022?

JPV: Tem muito tempo ainda, é cedo. Estou muito tempo no Fortaleza, eu quero ganhar. Eu quero sempre ganhar! Quero que a equipe faça uma boa partida, esse é meu próximo objetivo antes de pensar em 2022. Eu sempre penso "o que vamos fazer em 1 mês?". "Diretoria, o que pensa em fazer com este jogador?" Sempre estou pensando nisso, sim. Mas há momentos e momentos para o planejamento. Hoje, minha cabeça está no próximo adversário.