Quanto as empresas cearenses caíram na bolsa após a eleição?

Escrito por
Allisson Martins allissonmartins@unifor.br
(Atualizado às 08:56)
Legenda: Empresas cearenses chegaram a cair quase o dobro do restante do mercado.
Foto: Divulgação/B3

A segunda-feira, 26 de outubro de 2026, entrou para a história da bolsa de valores brasileira. Um dia após a reeleição do presidente Lula, o Ibovespa caiu 13,88%, a maior queda diária desde março de 2020, no início da pandemia. 

As empresas cearenses listadas na B3 não ficaram de fora do tombo. Pelo contrário, caíram quase o dobro do mercado.

O DIA DO CIRCUIT BREAKER

Logo após a abertura do pregão, o Ibovespa recuou 10% e a B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe as negociações por 30 minutos para que os investidores reavaliem suas decisões. Foi o primeiro acionamento desde a pandemia. Na mínima do dia, a queda passou de 17%.

Boa parte do mercado apostava na vitória de Flávio Bolsonaro e precisou refazer as contas diante do placar de 51,79% a 48,21% para Lula. Apenas oito ações do Ibovespa subiram, todas de exportadoras beneficiadas pelo dólar mais alto, como Suzano, Embraer e Vale. Outras 54 caíram mais de 10%.

O ÍNDICE DE AÇÕES CEARENSE DA UNIFOR

Para medir o impacto sobre as empresas do estado, o instrumento adequado é o Índice de Ações Cearense (IAC), criado e calculado pela Universidade de Fortaleza (Unifor), por alunos e professores do curso de Ciências Econômicas. 

O IAC acompanha o desempenho médio das oito empresas cearenses com ações na B3. O índice serve de referência para comparar as empresas locais com o Ibovespa, o CDI e o dólar.

AS CEARENSES NO PREGÃO DE 26 DE OUTUBRO

Nenhuma das oito empresas escapou. O IAC recuou 25,9% em um único dia, quase o dobro do Ibovespa. O ranking das quedas foi o seguinte:

  1. Hapvida (HAPV3), -54,9%
  2. Pague Menos (PGMN3), -48,3%
  3. Brisanet (BRST3), -28,5%
  4. Enel Ceará (COCE5), -23,2%
  5. Grendene (GRND3), -18,4%
  6. M. Dias Branco (MDIA3), -14,6%
  7. Banco do Nordeste (BNBR3), -10,5%
  8. Aeris (AERI3), -9,1%

Fonte: B3/Yahoo Finance, cotações de fechamento de 26/10/2026 em relação a 23/10/2026. 

A Hapvida teve a terceira maior queda de todo o Ibovespa, atrás apenas de Magazine Luiza e Vamos, e fechou a R$ 3,98, o menor preço em 12 meses. A Pague Menos perdeu quase metade do valor de mercado em um único pregão.

Veja também

POR QUE AS CEARENSES CAÍRAM MAIS?

A explicação está no perfil dos negócios. As ações que subiram no dia são de exportadoras, que ganham com o dólar alto. As cearenses, em sua maioria, vendem para o mercado interno e dependem do consumo das famílias e do crédito, caso dos planos de saúde, das farmácias, da internet, dos calçados e dos alimentos. São os setores mais sensíveis aos juros, e a curva de juros subiu mais de dois pontos percentuais em um só dia. Empresas endividadas sofrem em dobro, pois o custo da dívida acompanha a Selic esperada.

Vale lembrar que o ano já era difícil para as cearenses. Até setembro, segundo a Unifor, o IAC acumulava queda de 23,5% em 2026, enquanto o Ibovespa subia 15,7%. A Hapvida (-54,7%) e a Pague Menos (-43,4%) lideravam as perdas no ano e apenas o Banco do Nordeste (+6,0%) estava no azul. Depois desta segunda-feira, a distância entre as empresas locais e o mercado ficou ainda maior.

Por fim, dias como este testam a paciência de qualquer investidor. Ações são investimentos de longo prazo e decisões tomadas no calor de um circuit breaker raramente são boas decisões. 

Os próximos sinais sobre a equipe econômica e as contas públicas dirão se o mercado exagerou. Para quem tem perfil para a renda variável, o momento pede calma, análise empresa por empresa e o apoio de profissionais certificados. 

Grande abraço,

Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.