Inflação, juros e endividamento: a trinca cruel para o comércio

O comércio varejista, que funciona como relevante termômetro da economia, vem apresentando perda de ritmo nos últimos meses.

Após atingir recuperação promissora em 2021 e início de 2022 com crescimento das vendas superiores a 8%, a partir do segundo trimestre deste ano, o comércio varejista cearense perdeu fôlego e deve encerrar 2022 com resultado pouco animador.

COMO ESTÁ O COMÉRCIO NO CEARÁ EM 2022?

No Ceará, o volume de vendas do comércio, incluindo as atividades de veículos, motos e peças, além de material de construção, que é caracterizado como varejo ampliado, apresenta crescimento de apenas 1,5% no ano de janeiro a outubro de 2022, quando comparado com o mesmo período do ano anterior. No Brasil, na mesma métrica de comparação, o volume de vendas do varejo ampliado tem leve recuo de 0,5%.

Entre as atividades do comércio varejista cearense, em 2022 pode-se destacar os resultados no avanço do volume das vendas em Livros, jornais, revistas e papelaria (+22,6%). Embora com número positivo relevante, um alento para os empreendedores do segmento, nem de longe supera a queda abrupta das vendas desta atividade em 2020 e 2021, que amargou retração de 38,0%.

Em termos de ranking, no avanço do volume de vendas ampliado em 2022*, o Ceará está em 4º lugar do Nordeste, enquanto no país, figura em 12º lugar.

A INFLAÇÃO E A ILUSÃO DA RECEITA NOMINAL

A inflação, sem dúvida, provoca estragos no orçamento das famílias, promovendo efeitos negativos na economia, uma vez que impacta o poder de compra das famílias. O processo inflacionário, embora de menor latência recente, esteve em valores elevados durante muitos meses e promoveu o arrefecimento do apetite das compras.

Para se ter uma ideia da dinâmica inflacionária, enquanto as vendas no Ceará, em termos de quantidade (volume de vendas) crescem 1,5% em 2022, a receita nominal, ou seja, preço x quantidade, cresce 14,3%.

Dessa forma, o leitor pode até afirmar que o faturamento foi maior, sim, é verdade, mas não passa de uma ilusão, uma vez que o aumento de receita, em grande medida, foi abocanhado pelo processo inflacionário, prejudicando as margens de lucros dos negócios. É só lembrar da famosa frase: “apurado não é lucro”.

JUROS E COMPORTAMENTO DAS VENDAS: A CORRELAÇÃO IMPERFEITA

É notório que o juro elevado prejudica as vendas, sobretudo os bens duráveis, na medida em que deixa mais difícil a possibilidade de parcelamento.

Em exercício estatístico simples, por meio da correlação** entre a Taxa Selic anualizada e o avanço das vendas do acumulado dos últimos doze meses no Ceará, confirma-se na prática (e na teoria) que: juros em alta, vendas em baixa.

Para exemplificar, observe leitor o comportamento negativo do volume das vendas de importantes atividades no comércio cearense em 2022*: móveis (-9,9%), material de construção (-4,8%) e veículos, motocicletas e peças (-2,8%).

ENDIVIDAMENTO ELEVADO

Na ótica do endividamento, os números também são desfavoráveis. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), as famílias com dívidas, no País, alcançou quase 80% em novembro. Ou seja, de cada 10 pessoas, 8 têm dívidas no Brasil.

Em atraso, segundo a pesquisa da CNC, são 30% de famílias inadimplentes, conforme dados mais recentes.

A trinca cruel de inflação, juros e endividamento, tem promovido efeitos deletérios para o comércio varejista cearense.

Grande abraço e até a próxima semana!

Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

* 2022 refere-se ao período de janeiro a outubro.

** correlação de Pearson no período de outubro de 2021 a outubro de 2022. Observa-se resultado de -0,8. Portanto, com a correlação negativa e próxima de -1,0.