Quando o preço dita o estilo os limites da moda no Brasil

Escrito por Gregório José producaodiario@svm.com.br
03 de Maio de 2026 - 06:00
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Legenda: Jornalista

A análise do consumo de moda no Brasil, avaliado pela Opnion Box,  revela um cenário marcado por tensões e contradições que vão muito além da estética ou das tendências. Embora a moda seja frequentemente associada à expressão de identidade, os dados mostram que, na prática, ela está profundamente condicionada por fatores econômicos e estruturais. O fato de 74% dos consumidores apontarem o preço como principal critério de decisão, enquanto 70% também valorizam a qualidade, evidencia um consumidor que precisa equilibrar desejo e limitação financeira, buscando maximizar valor em um contexto de restrição.

Esse comportamento indica que o consumo de moda no Brasil está menos ligado ao impulso e mais à racionalidade. Ainda que exista influência das redes sociais e das tendências, a maioria dos consumidores não se considera seguidora ativa dessas referências, mesmo sendo impactada por elas de forma indireta. Plataformas como Instagram e TikTok funcionam mais como vitrines aspiracionais do que como determinantes absolutos de compra, reforçando um consumo mediado pelo imaginário, mas limitado pela realidade econômica.

Outro ponto relevante é a consolidação do modelo omnichannel. Conforme indicado no relatório, 38% dos consumidores transitam entre lojas físicas e online, demonstrando que a experiência de compra se tornou híbrida e estratégica. O consumidor pesquisa, compara e experimenta diferentes canais antes de decidir, o que revela maior autonomia e criticidade no processo de consumo. Essa liberdade não elimina barreiras, como a desconfiança em compras online ou dificuldades com trocas e tamanhos, fatores que ainda impactam negativamente a experiência.

Além disso, a pesquisa expõe limitações estruturais importantes no setor. A dificuldade em encontrar roupas adequadas ao próprio corpo, relatada por uma parcela significativa dos entrevistados, e a percepção de que a moda não é acessível para todos evidenciam um mercado que ainda exclui em vez de incluir. Esse dado aponta para uma contradição central: a moda se apresenta como espaço de expressão individual, mas, na prática, restringe quem pode participar plenamente desse processo.

Embora a sustentabilidade apareça como um valor crescente, ela ainda ocupa um lugar secundário nas decisões de compra. Mesmo sendo considerada importante por grande parte dos consumidores, poucos estão dispostos a pagar mais por isso, o que demonstra um desalinhamento entre discurso e prática. Esse cenário reforça que, em contextos de pressão econômica, questões éticas tendem a ser relativizadas.

Dessa forma, o consumo de moda no Brasil em 2026 pode ser entendido como um campo de negociação constante entre desejo, identidade e possibilidade. Mais do que seguir tendências, o consumidor brasileiro revela um comportamento pragmático, adaptativo e, muitas vezes, condicionado por desigualdades estruturais que limitam suas escolhas.

Gregório José é jornalista

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