O leite longa vida voltou a impactar o bolso do consumidor em Fortaleza. No mês de agosto, o preço do produto subiu 6,13%, figurando como o maior aumento percentual para um único mês desde janeiro de 2023, segundo dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Até então, a maior variação mensal observada no período havia sido em maio do ano passado, quando marcou 4,35%. O resultado de agosto consolida uma escalada que ganhou ritmo ao longo do ano.
Após iniciar 2026 em queda durante o primeiro trimestre — acumulando a retração mais expressiva em janeiro (-0,59%) —, o item passou a subir progressivamente a partir de maio (1,53%) e junho (2,55%).
Após uma pontual estabilidade no fim de junho (-0,04%), o índice voltou a avançar em julho (2,86%), até alcançar o expressivo patamar acima dos 6% no último levantamento.
Inflação acumulada no ano salta em Fortaleza
Quando analisado o acumulado de 2026, o cenário de retração verificado nos três primeiros meses (cujo ponto mais baixo ocorreu em março, com -1,25%) foi completamente superado.
Em julho, a inflação acumulada no ano saltou para 5,73%, mais que o dobro do registrado em junho (2,79%), alcançando 12,21% em agosto.
Já no indicador de 12 meses (setembro de 2025 a agosto de 2026), a alta acumulada do leite atinge 11,63%, demonstrando uma forte aceleração em relação ao patamar acumulado até julho (4,46%).
Alta nos custos da cadeia e queda na captação
Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Derivados do Estado do Ceará (Sindilacticínios), José Antunes Mota, os reajustes ao consumidor derivam da forte pressão de custos acumulada tanto no campo quanto no transporte e no processamento.
Ele antecipa que setembro ainda deve registrar um acréscimo adicional de R$ 0,05 a R$ 0,10 por litro.
"No mês passado houve um acréscimo de R$ 0,10 no preço pago ao produtor. Assim, o valor mínimo pago atualmente está na faixa de R$ 2,40 a R$ 2,42 por litro, podendo chegar a R$ 2,50 dependendo da localização e da qualidade. Tudo isso encarece na ponta final", explica Mota.
Entre os principais fatores citados pelo setor estão a alimentação do rebanho. Ele exemplifica que o quilo da silagem de milho subiu de R$ 0,30 para R$ 0,70, além do encarecimento do farelo de soja.
Outro gasto apontado por Mota com determinante para o aumento dos preços dos produtos é a logística de coleta de matéria- prima. Ele afirma que é crescente o gasto com combustíveis e manutenção de frotas para percorrer longas distâncias até as propriedades rurais.
Além disso, o presidente do Sindilacticínios acrescentou a redução na oferta local de matéria-prima como fator de alto no preço ao consumidor. Ele cita como motivos um aumento de abates de fêmeas, os impactos do fenômeno El Niño, com o estresse térmico e as pastagens e, ainda, a entrada de leite importado da Argentina e Uruguai.
"Pequenos laticínios que antes processavam entre 20 mil e 30 mil litros diários hoje operam em torno de 15 mil litros por dia", comenta.
Alvoar Lácteos prevê estabilização dos preços
Sob a perspectiva da indústria, a alta observada em 2026 representa um movimento de recomposição de margens após forte queda dos preços no ano anterior.
A Alvoar Lácteos, dona das marcas Betânia e Camponesa, tem uma fábrica em Morada Nova, no interior do Ceará, e detém grande parte do mercado local.
O diretor de Captação da empresa Armindo Neto, explica que a elevação acumulada no ano decorre de fatores sazonais e do aumento de insumos importados.
"No segundo semestre de 2025, os preços de venda da indústria para o varejo caíram cerca de 10% devido a uma produção recorde no Brasil. Neste ano, de janeiro a agosto, os preços recuperaram essa queda e subiram cerca de 12% no acumulado, um movimento normal do mercado", afirma Neto.
Segundo a Alvoar, o aumento verificado nos supermercados pode ser dividido em 50% decorrente da matéria-prima no campo e 50% associado aos custos logísticos e de embalagens — estas últimas impactadas em mais de 10% pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio e novas regras do frete.
Embora os custos de nutrição animal continuem pressionando o produtor, a empresa projeta uma perspectiva de estabilização do mercado nos próximos meses, à medida que a oferta e a demanda atinjam um novo ponto de equilíbrio no país.
Leite é um dos vilões da cesta básica
Enquanto o IPCA mede a variação na cesta de consumo geral das famílias da Região Metropolitana, a pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) confirma a pressão com o aumento na cesta básica.
Segundo o Dieese, o custo de seis litros de leite — quantidade estipulada para a composição da cesta básica mensal — subiu de R$ 41,76 em julho para R$ 43,74 em agosto, representando um encarecimento de 4,74% no mês.
O avanço ganha destaque por ocorrer no sentido inverso ao valor total da cesta básica de Fortaleza, que recuou 1,86% no mesmo mês (custando R$ 755,56, ainda assim a mais cara do Nordeste).
No acumulado de fevereiro a agosto de 2026, a alta do leite na cesta soma 13,73%, colocando o produto no topo do ranking de vilões da alimentação na capital, atrás apenas do feijão (+51,49%) e da carne (+14,12%).
O peso nas prateleiras dos supermercados
Nas gôndolas de atacarejos e supermercados em bairros como Papicu, Varjota e Aldeota, a reportagem encontrou no dia 22 de setembro, uma gama de produtos e preços diferentes. Veja os valores encontrados:
- Leite Integral: variação de R$ 6,39 a R$ 11,49. Produtos de marcas regionais em promoção aparecem a R$ 6,99.
- Leite Desnatado: variação de R$ 3,59 a R$ 6,79. O menor valor isolado (R$ 3,59) foi registrado em uma promoção de marca nacional com gôndola esgotada.
- Zero Lactose: variação de R$ 7,79 a R$ 10,99, apresentando os preços mais elevados das prateleiras.