A unidade Açonorte da Gerdau, localizada em Recife (PE), demitiu 160 trabalhadores e paralisou todas as atividades dos setores de aciaria e laminação nesta semana, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de Pernambuco (Sindmetal-PE).
O ocorrido levanta questionamentos sobre a operação da empresa brasileira produtora de aço no Ceará. Além da unidade em Caucaia, a Gerdau reabriu, em fevereiro deste ano, a siderúrgica em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).
À época, foram investidos R$ 200 milhões para ampliar a capacidade produtiva da operação, com o objetivo de produzir 160 mil toneladas de aço por ano. As peças produzidas na unidade de Maracanaú são utilizadas como matéria-prima para a fabricação de aços longos na unidade de Caucaia.
Questionada sobre possíveis impactos no Ceará, a Gerdau não respondeu, mas enviou nota explicando sobre a situação de Pernambuco (leia o posicionamento completo no fim deste texto).
De acordo com a empresa, houve uma "readequação do perfil industrial da unidade Açonorte", que passará a focar na fabricação de produtos trefilados, como telas, arames e pregos.
Segundo ela, a decisão busca ampliar a produtividade e rentabilidade das operações. A Gerdau também destacou que cerca de 450 postos de trabalho serão mantidos.
Demissões da Gerdau podem chegar ao Ceará?
Para o membro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Davi Azim, a situação em Pernambuco serve como um sinal de alerta para o Estado, já que, explica, a Gerdau opera de forma integrada em diferentes unidades do País.
De acordo com o especialista, as demissões são reflexo de um cenário de forte concorrência internacional, com destaque para a China. Ele cita, ainda, a desaceleração da produção e da demanda, tanto no mercado interno quanto no externo.
“Quando há queda nas vendas e nas exportações, as empresas tendem a promover ajustes para reduzir custos, o que pode incluir cortes no quadro de funcionários. No caso da Gerdau, fatores como a redução das exportações, a concorrência internacional, o câmbio e as condições do mercado ajudam a explicar essa decisão”, ressalta.
Nesse contexto, ele acredita que existe a possibilidade de as demissões chegarem ao Ceará, mas aponta que ainda é cedo para afirmar esse cenário, já que cada operação possui características próprias.
“Caso a unidade cearense enfrente dificuldades semelhantes, como queda nas exportações ou redução das vendas, ela também poderá precisar fazer ajustes. O momento é de monitoramento”, pondera.
Agora, aponta o economista, a empresa deve acompanhar de perto o desempenho de cada unidade e adotar medidas para mitigar os impactos do cenário econômico.
Tarifaço americano ainda afeta segmento siderúrgico
Para o também membro do Corecon-CE, Ricardo Coimbra, o cenário de demissões é consequência direta da sobretaxa de 50% imposta pelo governo de Donald Trump aos produtos siderúrgicos brasileiros.
Coimbra aponta que, desde a medida, adotada no ano passado, o segmento cearense sofre com desgaste e dificuldade de comercializar com outros mercados.
"Essas demissões na Gerdau estão relacionadas com o processo de reestruturação produtiva da companhia e com a dificuldade de comercialização dos produtos da companhia, principalmente no mercado americano. A tributação faz com que o preço do produto fique mais caro no cenário externo, gerando dificuldade de comercializar para o setor externo, não só o próprio produto mas também a composição agregada dos outros itens", ressalta.
No ano passado, a ArcelorMittal Pecém registrou prejuízo líquido de R$ 168,6 milhões, enquanto a receita líquida de vendas voltou a ficar abaixo dos R$ 10 bilhões.
Em relação às consequências para a operação da Gerdau no Ceará, o economista indica que os resultados irão depender do direcionamento aplicado pela companhia no Estado. Outra possível mudança indicada por Coimbra é em relação à cadeia de abastecimento movida pela unidade de Pernambuco.
"Parte do que era produzido na planta de Pernambuco pode gerar algum tipo de reflexo na logística de abastecimento regional, visto que uma parte disso também era consumido nos outros estados no Nordeste e pode gerar também um novo reequilíbrio na cadeia de distribuição e dos preços no mercado local", pondera.
Gerdau tem lucro líquido de R$ 1,5 bilhão
No segundo trimestre de 2026, a Gerdau apresentou Ebitda ajustado (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) de R$ 3,4 bilhões, com margem Ebitda ajustada de 19,2%. No mesmo período, o lucro líquido ajustado da empresa chegou a R$ 1,5 bilhão, enquanto a receita líquida totalizou R$ 17,9 bilhões. Além disso, as vendas físicas de aço alcançaram 2,9 milhões de toneladas.
Os resultados representam avanço em relação aos números do primeiro trimestre deste ano. Entre janeiro e março, a Gerdau encerrou com Ebitda ajustado de R$ 3 bilhões, margem Ebitda ajustada de 17,7%, lucro líquido ajustado de R$ 1 bilhão, receita líquida de R$ 16,7 bilhões e vendas físicas de aço de 2,8 milhões de toneladas.
No entanto, segundo o CEO da empresa, Gustavo Werneck, os resultados positivos do segundo trimestre foram influenciados, principalmente, pelo forte desempenho da operação da América do Norte, enquanto a operação brasileira representou apenas uma leve recuperação.
Confira a nota da Gerdau
A Gerdau confirma a readequação do perfil industrial da unidade Açonorte, localizada em Recife (PE), que passará a focar na fabricação de produtos trefilados, como telas, arames e pregos. A decisão faz parte da estratégia da companhia de otimização de seus ativos e revisão de seu modelo de negócios de mini-mills, com o objetivo de ampliar a produtividade e rentabilidade de suas operações.
A Empresa ressalta que cerca de 450 postos de trabalho serão mantidos. A Gerdau reforça seu compromisso com o cuidado com as pessoas e um diálogo contínuo e transparente com seus colaboradores, sindicato e demais públicos de interesse. A Companhia ressalta, ainda, que o atendimento aos clientes seguirá inalterado.