Em mais uma estratégia de expansão, cearense M. Dias Branco (MDIA3) voltará ao mercado de panificação. Na última sexta-feira (16), a empresa anunciou a aquisição de 80% da Grespan Pães Congelados, de São Paulo, com opção de compra do capital restante em até cinco anos.
A negociação aguarda aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). De acordo com comunicado ao mercado, a M. Dias Branco pagará R$ 208,4 milhões pela aquisição de 80% do capital social da empresa paulista.
Com a conclusão da operação, a M. Dias Branco passará a deter o controle indireto da Grespan. Os atuais sócios permanecerão no negócio por até cinco anos.
Para especialistas, a compra é "pequena" em tamanho, mas relevante em impacto. A Grespan Pães Congelados foi fundada em 2009 por duas tias e um sobrinho, em Marília (SP), onde permanece sediada.
A empresa fabrica e comercializa produtos de panificação congelada e atende principalmente as regiões Sudeste e Centro-Oeste, entre supermercados, atacarejos e padarias.
O catálogo inclui pães, panetones, itens de confeitaria, massas doces, salgados, bolos e sobremesas.
Busca por eficiência e menos desperdício
A M. Dias Branco afirmou que o objetivo da aquisição é fortalecer a atuação em setores complementares ao negócio principal, "ampliando sua presença no mercado de panificação e expandindo sua plataforma de alimentos".
O diretor de Novos Negócios e Relações com Investidores da companhia, Fábio Cefaly, avalia que a panificação congelada ganha relevância por oferecer soluções para a escassez de mão de obra qualificada, a busca por eficiência operacional e a necessidade de reduzir perdas e desperdícios.
Segundo ele, o modelo permite padronizar a produção e oferecer pão fresco ao consumidor ao longo do dia.
"A operação representa um importante avanço na estratégia de crescimento da M. Dias Branco. Concluímos que o modelo de atuação da Grespan é muito parecido com o nosso, com uma solução completa para os clientes, que garante padronização, eficiência operacional, redução de desperdícios e pão fresco de qualidade. Em um ambiente marcado pela crescente escassez de mão de obra qualificada, essa proposta de valor, cada vez mais relevante no mercado, fez muito sentido para nós."
Cefaly diz que a estratégia da M. Dias Branco inclui expandir a atuação em panificação congelada, mas as regiões prioritárias só serão definidas após a aprovação do Cade e a integração da Grespan à companhia.
Estratégia de mercado
De acordo com o Instituto do Desenvolvimento das Empresas de Alimentação (Ideal), o setor de panificação cresceu 6,8% (R$ 10,76 bilhões) no ano passado em todo o País e atingiu faturamento de R$ 164,12 bilhões. O ticket médio subiu 5,46%.
Segundo o Ideal, a falta de profissionais qualificados impulsiona a panificação congelada como solução para padronização e eficiência operacional, sem perda de qualidade.
O economista e sócio da M7 Investimentos, Thomaz Bianchi, observa que Grespan é uma empresa considerada pequena diante da M. Dias Branco. Em 2025, a paulista registrou receita bruta de cerca R$ 138,7 milhões.
"Quem já lidera as categorias principais cresce ao ir para as vizinhas, e o pão congelado é vizinho de massa e biscoito: usa o mesmo trigo e vende para o mesmo supermercado. É um mercado resiliente, com espaço para crescer e ainda fragmentado, com muitos fabricantes pequenos", avalia.
"Pesa também a mão de obra: supermercados e padarias têm dificuldade de contratar padeiro qualificado, e o pão congelado padroniza o produto e reduz o desperdício", completa.
Para Bianchi, a decisão é um marco histórico e abre uma frente nova para a empresa. A análise é compartilhada pelo economista da BSA Investimentos, Célio Fernando Melo.
Segundo ele, a estratégia busca novos mercados e canais de operação e a ampliação da carteira de clientes. Melo aponta ainda que a Grespan pode se tornar compradora da farinha produzida pela M. Dias Branco.
"É uma empresa pequena, mas tem significado e pode se fortalecer bastante. A aquisição não é grande, mas é normal no mercado fazer compras pequenas para ganhar espaço. É preciso ganhar escala e encontrar nichos, o que também melhora o retorno. É uma operação que agrega valor."
Sobre uma possível expansão da Grespan para o Nordeste, Bianchi avalia que o cenário é positivo, já que a M. Dias Branco mantém relação antiga com supermercados e padarias, principais clientes do pão congelado.
Na visão do sócio da M7, o peso da compra não está necessariamente na empresa adquirida, mas no novo mercado, que dá à M. Dias Branco mais um setor para explorar.
Onde tudo começou
Nascida na Padaria Imperial, de Manuel Dias Branco, em Fortaleza, na década de 1930, a M. Dias Branco anunciou a compra dois dias antes de completar 20 anos de capital aberto.
Atualmente, tem mais de 20 marcas e atua principalmente nos mercados de biscoitos, massas alimentícias e farinha de trigo. Entre elas a Vitarella, Piraquê e Adria.