A Inteligência Artificial (IA) tem alterado a rotina do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp), sendo usada como instrumento de monitoramento de cargas e de segurança na área alfandegada do porto.
Para especialistas, a tecnologia deve dar fôlego ao crescimento do Cipp. Em 2025, a movimentação de cargas no porto cresceu 7% em relação ao ano anterior, para 21 milhões de toneladas, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).
A avaliação de especialistas é de que a IA pode consolidar o Pecém como porto-indústria, modelo em que a operação portuária se integra às plantas industriais instaladas no complexo, reunindo logística e produção em uma só cadeia.
Além disso, essa tecnologia pode contribuir para estruturar uma infraestrutura de dados capaz de transformar o local no maior empreendimento do gênero no País.
Empresa suíça usa IA para monitorar cargas frias em tempo real
Um dos terminais do complexo é o da suíça Fracht Log, que usa IA no controle de temperatura e na estocagem de mercadorias, da organização do faturamento ao monitoramento das cargas armazenadas.
A empresa foi a primeira a instalar infraestrutura de armazenamento de cargas frias no Cipp, em 2025.
Temos três módulos que armazenam cargas perecíveis a −22 °C e precisam de controle diário. A IA nos traz qualquer oscilação que aconteça, e mandamos uma equipe ao local para verificar possíveis problemas".
O diretor-geral do grupo Fracht Log, Thiago Abreu, explica que as cargas têm alta rotatividade na estocagem e que a IA auxilia o empreendimento a se programar para atrair clientes.
"Baseados nos relatórios feitos pela IA, em alguns meses do ano vão ser recebidas menos cargas, e será aberto mais espaço. Nossa expansão está diretamente ligada a essa sazonalidade, para não fazermos um investimento que não terá demanda imediata", explica.
Startup cearense aposta em IA para atrair novos clientes ao Pecém
Outra empresa com atuação no Pecém que utiliza a IA é a Einship. A startup cearense consegue, entre outras ações, mapear toda a movimentação de navios de cargas entre países. Em até dois anos, deve inserir transbordos nacionais no escopo das soluções.
Para o CEO da Einship, Luiz Policarpo, é como se a empresa atuasse como um delivery de IA de comércio exterior. Por meio das ferramentas, o cliente consegue monitorar de forma simplificada o embarque e desembarque de cargas.
"Nossa primeira IA fazia gestão automática de embarques, sem uma pessoa cadastrando dados. Nossa nova IA observa as informações ao longo do embarque, e transcreve em um só lugar, sem que o cliente olhe para vários sistemas para saber onde a carga está", explica.
"Com a IA, consigo ver empresas que estão mandando cargas para outros portos e o porquê. A partir disso, vou prospectar com elas e convencê-las a trazer os volumes ao Pecém", esclarece Andrade.
O diretor de operações, Guido Andrade, classifica uma das ferramentas de IA da empresa como um setor de inteligência de mercado, que ajuda empresas a avaliar negócios e entender as rotas de comércio exterior mais atrativas.
"Vários armadores de portos operam só no Sul e Sudeste. Com a IA, temos várias oportunidades de trazê-los para o Pecém", completa.
Aecipp: uso de IA é essencial para empresas do Pecém se destacarem
A diretora-geral da Associação das Empresas do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Aecipp), Ludmilla Campos, afirma que há 100 empresas vinculadas à entidade, responsáveis por 25 mil empregos diretos e 75 mil indiretos.
Campos avalia que o uso da IA é primordial para que as empresas se destaquem à frente dos seus segmentos.
Esse é o número de empregos, diretos e indiretos, que empresas associadas da Aecipp geram.
"São as empresas que partem na frente. As empresas de logística já aplicam a IA em monitoramento de frota, otimização de consumo, mas ainda não usam a IA com todo o potencial que ela tem", considera.
O presidente do Cipp, Max Quintino, analisa que a adoção da IA no complexo envolve vários segmentos, com ganhos graduais de produção e competitividade.
"Tem investimentos em sistemas, dados, desenvolvimento de soluções e capacitação de equipes. Em contrapartida, são esperados ganhos em redução de retrabalho, otimização de processos, melhor utilização de recursos e maior capacidade de antecipação e tomada de decisão", frisa.
Expansão do Cipp puxa investimento em tecnologia
A expansão do Cipp, com a chegada de estruturas como data centers, plantas de H₂V e a Transnordestina, deve levar o porto a dobrar a movimentação de cargas. A diretora da Aecipp acredita que boa parte desse trabalho será executada pela IA.
"A IA vem para substituir o trabalho braçal. Depois do que a IA faz, ainda há etapas que precisaremos realizar, como analisar, avaliar criticamente e tomar decisões com base no que foi produzido", observa Campos.
O doutor em logística e transportes Igor Pontes recorda que o cenário antes da IA no Pecém era baseado na experiência dos operadores, no histórico e em decisões reativas.
"A expansão do complexo está associada a uma movimentação considerável de cargas, em cenário que impacta na complexidade das operações. A IA pode atuar em variados níveis, desde planejamento até gestão dos ativos", pontua.
A IA pode ajudar não para resolver problemas de forma reativa, mas sim se antecipar a eles. Quando falamos do Pecém, falamos da continuidade da cadeia de suprimentos. Se há problema de eficiência no porto, a IA tem um grande trabalho nesse processo.
O especialista em inovação portuária Raul Lamarca define a IA como estruturante no Pecém, sobretudo diante do crescimento constante do complexo nos últimos anos.
A infraestrutura informacional deve prezar pela precisão, como destaca Pontes, e levar o Pecém a adotar conceitos tecnológicos como o de "gêmeo digital".
"É uma réplica virtual alimentada continuamente pelos dados coletados na operação real. A IA a analisa para prever gargalos e testar soluções antes que sejam implementadas no mundo real. Não se trata de tendência passageira, mas sim de uma transformação estrutural da logística mundial", diz.
Brasil ainda não tem regulamentação de IA para portos
O Ministério dos Portos e Aeroportos (MPor) explica que "não há regulamentação específica voltada exclusivamente ao uso de IA em portos", nem prazo definido para normas sobre o assunto.
"O Governo Federal tem estruturado orientações para uso responsável de IA, por meio de instrumentos como o Guia de IA Generativa, que reúne diretrizes sobre transparência, supervisão humana, segurança e proteção de dados", diz a pasta.
O projeto de lei (PL) 2338/2023, do senador Rodrigo Pacheco (PSD/MG), estabelece o Marco Legal da Inteligência Artificial no Brasil.
Aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, o texto ainda está em análise na Câmara dos Deputados e não define regras específicas para atividades como as de portos e complexos logísticos e industriais.
Lamarca argumenta que é necessário discutir a IA na logística de forma global, considerando que as ferramentas fazem parte de um espectro mais abrangente.
"Antes de falarmos sobre IA nos portos, temos que dar um passo para trás. A IA é melhor usada se houver informação integrada e disponível a todos, e não de forma fragmentada na atividade portuária de hoje", enfatiza.
Qualificação de mão de obra é o principal desafio da IA
Especialistas acrescentam que um dos entraves na cadeia portuária com a adoção de ferramentas de IA é a possível eliminação de postos de trabalho.
Para o diretor de receitas da Einship, Sérgio Braga, porém, a IA permite que o ser humano se dedique a trabalhos qualitativos, com a burocracia ficando a cargo da máquina.
"Empresas que utilizam IA em seus processos economizam 1 mil dias dos colaboradores. O analista não vai sumir, mas ter tempo para ser analista em vez de preencher planilhas, trazendo decisões produtivas da sua função", pondera.
Abreu acrescenta que, por trás da IA, é imprescindível haver um profissional qualificado para a função que cheque o trabalho feito pela ferramenta.
"Não tem como solicitarmos estruturação de uma operação de IA para uma carga sem que se faça uma análise com o time de engenharia de produção de equipamentos e implementos para garantir a integridade", declara.
Esse é o tempo de trabalho economizado por funcionários da Einship ao adotar a IA no cotidiano das operações, segundo Braga. É um período equivalente a dois anos e nove meses.
A diretora da Aecipp avalia que o principal desafio para empresas de logística "é aprender a usar a IA". "Não é perguntar à ferramenta o que pode ou não fazer, mas como transformar o trabalho da IA em retorno efetivo para a empresa", observa Campos.
Campos acrescenta que o desenvolvimento da IA deve trazer qualificação aos profissionais e maior planejamento de decisões logísticas no Pecém.
"A partir do momento que começamos a ter resultados que nunca pensamos, vamos otimizar o uso de infraestruturas e apoiar todas as manutenções preditivas. Isso vai reduzir os tempos de espera, porque vai aumentar a segurança das operações", pondera.
Policarpo acredita que a IA, aliada à alta da movimentação de cargas no Pecém, deve colocar o porto cearense como protagonista internacional.
"Estimamos que as empresas vão ter uma capacidade de eficiência de pelo menos cinco vezes maior na redução de custos a partir do momento em que cruzem as informações na tomada de decisão", arremata.
Quintino salienta que a conjunção da IA com a sustentabilidade não é propriamente a finalidade do complexo, mas sim um meio para alcançar objetivos essenciais.
"Ambas fazem parte de uma visão mais ampla de transformação digital: utilizar tecnologia e dados não como um fim, mas como instrumentos para construir operações mais eficientes, seguras, sustentáveis e capazes de se anteciparem às necessidades", reflete.
Créditos
Luciano Rodrigues, Repórter | Fabiane de Paula, Ismael Soares e Thiago Gadelha, Produtores audiovisuais | Louise Dutra, Artes e Diagramação | Bruna Damasceno e Hugo R Nascimento, Supervisores de Jornalismo | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | G André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte