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Como o Pecém tem usado IA para reduzir custos e modernizar operações?

Luciano Rodrigues luciano.rodrigues@svm.com.br
30/08/2026 - 07:00

A Inteligência Artificial (IA) tem alterado a rotina do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp), sendo usada como instrumento de monitoramento de cargas e de segurança na área alfandegada do porto.

Para especialistas, a tecnologia deve dar fôlego ao crescimento do Cipp. Em 2025, a movimentação de cargas no porto cresceu 7% em relação ao ano anterior, para 21 milhões de toneladas, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). 

A avaliação de especialistas é de que a IA pode consolidar o Pecém como porto-indústria, modelo em que a operação portuária se integra às plantas industriais instaladas no complexo, reunindo logística e produção em uma só cadeia.

Além disso, essa tecnologia pode contribuir para estruturar uma infraestrutura de dados capaz de transformar o local no maior empreendimento do gênero no País.

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Empresa suíça usa IA para monitorar cargas frias em tempo real

Um dos terminais do complexo é o da suíça Fracht Log, que usa IA no controle de temperatura e na estocagem de mercadorias, da organização do faturamento ao monitoramento das cargas armazenadas.

A empresa foi a primeira a instalar infraestrutura de armazenamento de cargas frias no Cipp, em 2025.

Temos três módulos que armazenam cargas perecíveis a −22 °C e precisam de controle diário. A IA nos traz qualquer oscilação que aconteça, e mandamos uma equipe ao local para verificar possíveis problemas".
Thiago Abreu
Diretor-geral do grupo Fracht Log

O diretor-geral do grupo Fracht Log, Thiago Abreu, explica que as cargas têm alta rotatividade na estocagem e que a IA auxilia o empreendimento a se programar para atrair clientes.

"Baseados nos relatórios feitos pela IA, em alguns meses do ano vão ser recebidas menos cargas, e será aberto mais espaço. Nossa expansão está diretamente ligada a essa sazonalidade, para não fazermos um investimento que não terá demanda imediata", explica.

Foto que contém área de monitoramento de câmeras da Fracht Log.
Legenda: Armazenamento de mercadorias da Fracht Log utiliza tecnologias de IA para controle de temperatura.
Foto: Fracht Log/Divulgação (Fotos 1 e 3) e Luciano Rodrigues (foto 2).

Startup cearense aposta em IA para atrair novos clientes ao Pecém

Outra empresa com atuação no Pecém que utiliza a IA é a Einship. A startup cearense consegue, entre outras ações, mapear toda a movimentação de navios de cargas entre países. Em até dois anos, deve inserir transbordos nacionais no escopo das soluções.

Para o CEO da Einship, Luiz Policarpo, é como se a empresa atuasse como um delivery de IA de comércio exterior. Por meio das ferramentas, o cliente consegue monitorar de forma simplificada o embarque e desembarque de cargas.

"Nossa primeira IA fazia gestão automática de embarques, sem uma pessoa cadastrando dados. Nossa nova IA observa as informações ao longo do embarque, e transcreve em um só lugar, sem que o cliente olhe para vários sistemas para saber onde a carga está", explica.

"Com a IA, consigo ver empresas que estão mandando cargas para outros portos e o porquê. A partir disso, vou prospectar com elas e convencê-las a trazer os volumes ao Pecém", esclarece Andrade.

O diretor de operações, Guido Andrade, classifica uma das ferramentas de IA da empresa como um setor de inteligência de mercado, que ajuda empresas a avaliar negócios e entender as rotas de comércio exterior mais atrativas.

"Vários armadores de portos operam só no Sul e Sudeste. Com a IA, temos várias oportunidades de trazê-los para o Pecém", completa.

Saillor, IA da Einship.
Luiz Policarpo, CEO da Einship.
Prompt da IA da Einship.
Legenda: Saillor, IA da Einship, pode monitorar portos de todo o Brasil, prospectando negócios.
Foto: Ismael Soares.
 

Aecipp: uso de IA é essencial para empresas do Pecém se destacarem

A diretora-geral da Associação das Empresas do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Aecipp), Ludmilla Campos, afirma que há 100 empresas vinculadas à entidade, responsáveis por 25 mil empregos diretos e 75 mil indiretos.

Campos avalia que o uso da IA é primordial para que as empresas se destaquem à frente dos seus segmentos.

100 mil
Esse é o número de empregos, diretos e indiretos, que empresas associadas da Aecipp geram.

"São as empresas que partem na frente. As empresas de logística já aplicam a IA em monitoramento de frota, otimização de consumo, mas ainda não usam a IA com todo o potencial que ela tem", considera.

O presidente do Cipp, Max Quintino, analisa que a adoção da IA no complexo envolve vários segmentos, com ganhos graduais de produção e competitividade.

"Tem investimentos em sistemas, dados, desenvolvimento de soluções e capacitação de equipes. Em contrapartida, são esperados ganhos em redução de retrabalho, otimização de processos, melhor utilização de recursos e maior capacidade de antecipação e tomada de decisão", frisa.

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Expansão do Cipp puxa investimento em tecnologia

A expansão do Cipp, com a chegada de estruturas como data centers, plantas de H₂V e a Transnordestina, deve levar o porto a dobrar a movimentação de cargas. A diretora da Aecipp acredita que boa parte desse trabalho será executada pela IA.

"A IA vem para substituir o trabalho braçal. Depois do que a IA faz, ainda há etapas que precisaremos realizar, como analisar, avaliar criticamente e tomar decisões com base no que foi produzido", observa Campos.

O doutor em logística e transportes Igor Pontes recorda que o cenário antes da IA no Pecém era baseado na experiência dos operadores, no histórico e em decisões reativas.

"A expansão do complexo está associada a uma movimentação considerável de cargas, em cenário que impacta na complexidade das operações. A IA pode atuar em variados níveis, desde planejamento até gestão dos ativos", pontua.

A IA pode ajudar não para resolver problemas de forma reativa, mas sim se antecipar a eles. Quando falamos do Pecém, falamos da continuidade da cadeia de suprimentos. Se há problema de eficiência no porto, a IA tem um grande trabalho nesse processo.
Raul Lamarca
Especialista em inovação portuária

O especialista em inovação portuária Raul Lamarca define a IA como estruturante no Pecém, sobretudo diante do crescimento constante do complexo nos últimos anos.

A infraestrutura informacional deve prezar pela precisão, como destaca Pontes, e levar o Pecém a adotar conceitos tecnológicos como o de "gêmeo digital".

"É uma réplica virtual alimentada continuamente pelos dados coletados na operação real. A IA a analisa para prever gargalos e testar soluções antes que sejam implementadas no mundo real. Não se trata de tendência passageira, mas sim de uma transformação estrutural da logística mundial", diz.

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Legenda: Uso da IA perpassa desde as atividades portuárias até as obras logísticas e industriais do complexo.
Foto: Thiago Gadelha (fotos 1 e 2) e Fabiane de Paula (foto 3).

Brasil ainda não tem regulamentação de IA para portos

O Ministério dos Portos e Aeroportos (MPor) explica que "não há regulamentação específica voltada exclusivamente ao uso de IA em portos", nem prazo definido para normas sobre o assunto.

"O Governo Federal tem estruturado orientações para uso responsável de IA, por meio de instrumentos como o Guia de IA Generativa, que reúne diretrizes sobre transparência, supervisão humana, segurança e proteção de dados", diz a pasta.

O projeto de lei (PL) 2338/2023, do senador Rodrigo Pacheco (PSD/MG), estabelece o Marco Legal da Inteligência Artificial no Brasil.

Aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, o texto ainda está em análise na Câmara dos Deputados e não define regras específicas para atividades como as de portos e complexos logísticos e industriais.

Lamarca argumenta que é necessário discutir a IA na logística de forma global, considerando que as ferramentas fazem parte de um espectro mais abrangente.

"Antes de falarmos sobre IA nos portos, temos que dar um passo para trás. A IA é melhor usada se houver informação integrada e disponível a todos, e não de forma fragmentada na atividade portuária de hoje", enfatiza. 

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Qualificação de mão de obra é o principal desafio da IA 

Especialistas acrescentam que um dos entraves na cadeia portuária com a adoção de ferramentas de IA é a possível eliminação de postos de trabalho.

Para o diretor de receitas da Einship, Sérgio Braga, porém, a IA permite que o ser humano se dedique a trabalhos qualitativos, com a burocracia ficando a cargo da máquina.

"Empresas que utilizam IA em seus processos economizam 1 mil dias dos colaboradores. O analista não vai sumir, mas ter tempo para ser analista em vez de preencher planilhas, trazendo decisões produtivas da sua função", pondera.

Abreu acrescenta que, por trás da IA, é imprescindível haver um profissional qualificado para a função que cheque o trabalho feito pela ferramenta.

"Não tem como solicitarmos estruturação de uma operação de IA para uma carga sem que se faça uma análise com o time de engenharia de produção de equipamentos e implementos para garantir a integridade", declara.

1000 dias
Esse é o tempo de trabalho economizado por funcionários da Einship ao adotar a IA no cotidiano das operações, segundo Braga. É um período equivalente a dois anos e nove meses.

A diretora da Aecipp avalia que o principal desafio para empresas de logística "é aprender a usar a IA". "Não é perguntar à ferramenta o que pode ou não fazer, mas como transformar o trabalho da IA em retorno efetivo para a empresa", observa Campos. 

Campos acrescenta que o desenvolvimento da IA deve trazer qualificação aos profissionais e maior planejamento de decisões logísticas no Pecém.

"A partir do momento que começamos a ter resultados que nunca pensamos, vamos otimizar o uso de infraestruturas e apoiar todas as manutenções preditivas. Isso vai reduzir os tempos de espera, porque vai aumentar a segurança das operações", pondera.

IA deve substituir o trabalho braçal e focar em empregos mais qualitativos no Pecém, analisam especialistas.
Legenda: IA deve substituir o trabalho braçal e focar em empregos mais qualitativos no Pecém, analisam especialistas.
Foto: Thiago Gadelha.

Policarpo acredita que a IA, aliada à alta da movimentação de cargas no Pecém, deve colocar o porto cearense como protagonista internacional.

"Estimamos que as empresas vão ter uma capacidade de eficiência de pelo menos cinco vezes maior na redução de custos a partir do momento em que cruzem as informações na tomada de decisão", arremata. 

Quintino salienta que a conjunção da IA com a sustentabilidade não é propriamente a finalidade do complexo, mas sim um meio para alcançar objetivos essenciais.

"Ambas fazem parte de uma visão mais ampla de transformação digital: utilizar tecnologia e dados não como um fim, mas como instrumentos para construir operações mais eficientes, seguras, sustentáveis e capazes de se anteciparem às necessidades", reflete.

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Créditos

Luciano Rodrigues, Repórter | Fabiane de Paula, Ismael Soares e Thiago Gadelha, Produtores audiovisuais | Louise Dutra, Artes e Diagramação | Bruna Damasceno e Hugo R Nascimento, Supervisores de Jornalismo | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | G André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte

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