O Porto do Pecém ativa em setembro um sistema de shore power (fornecimento de energia em terra), ou On-shore Power Supply (OPS), com investimento de R$ 13,2 milhões.
A tecnologia permitirá que os navios no cais desliguem os geradores a diesel e usem a energia da rede em terra.
O sistema terá capacidade de 7,2 MW e atenderá navios porta-contêineres nos berços 9 e 10. A conexão exige equipamento compatível a bordo, o que restringe o uso a embarcações já adaptadas.
A energia fornecida vem de fontes renováveis, segundo o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP).
O que faz o sistema?
Ocorre que, mesmo atracado, o navio gera a eletricidade que consome acionando motores auxiliares, segundo estudo da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) sobre descarbonização portuária.
Com o shore power, essa energia passa a vir da rede em terra, funcionando como uma espécie de grande tomada.
Engenharia nacional e componentes importados
O projeto foi executado pela Grid Power Solutions (GPS Engenharia). A viabilidade técnica no Brasil se apoia em uma característica da rede nacional, explica o diretor de engenharia da empresa e professor de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Ceará (UFC), Gustavo Branco.
"Praticamente não existe navio em 50 Hz, todos são em 60 Hz. No Brasil, a rede também é 60 Hz, logo não há necessidade de um conversor para adaptar a frequência entre a embarcação e o porto. Isso deixa a solução mais viável", afirma.
O ambiente marinho exigiu materiais de alta resistência. "Tivemos cuidado na prescrição da chaparia e na especificação da pintura para garantir maior durabilidade contra a maresia extrema", detalha Branco.
Painéis e tomadas foram importados da China, e os plugues, da França. A engenharia de integração é nacional.
O engenheiro explica que nos próximos dias serão instalados os equipamentos nos quais os cabos vindos dos navios serão ligados para a alimentação energética. Neste primeiro momento serão "três caixas posicionadas ao longo dos berços 9 e 10 para viabilizar a conexão dos cabos do navio em qualquer posição".
Além disso, Gustavo revela que cada uma das caixas, chamadas de Shorebox ou traduzindo caixa de tomadas em 6,6kV, tem a capacidade de alimentar uma pequena cidade. "É como se a cidade toda estivesse ligada na energia elétrica por meio de dois cabos. Esses dois cabos saem do navio e se conectam no equipamento em terra", observa.
Ele ainda comenta que chamar o equipamento de 'tomada gigante, é uma forma de repassar a informação uma vez que ele é muito diferente do nosso usual na instalação elétrica convencional.
Desafios
O advogado e mestre em Direito Marítimo Larry Carvalho pondera que escalar a tecnologia no País esbarra em obstáculos técnicos, financeiros e regulatórios.
A potência necessária para atender um navio de grande porte demanda adequação de rede, subestações e segurança na conexão.
"Há um problema clássico de infraestrutura: quem investe primeiro? O porto pode fazer um investimento significativo e receber poucos navios preparados; o armador, por sua vez, pode hesitar em adaptar sua frota enquanto poucos portos oferecem o serviço. É o problema do 'chicken and egg' [o ovo e a galinha], apontado inclusive pela ANTAQ em estudos sobre descarbonização", diz Carvalho.
Tarifa por conexão e consumo
O CIPP definiu o modelo comercial de cobrança de tarifas por conexão e por consumo de energia, padrão praticado internacionalmente. A companhia informou que já apresenta a solução a parceiros em reuniões de negócios.
Para o armador, o ganho econômico vem da substituição do combustível fóssil pela eletricidade. A redução de emissões estimada é de 796 toneladas de CO2 por ano.
Segundo o CIPP, o sistema integra a estratégia do complexo para zerar emissões nas operações, que inclui a eletrificação de equipamentos.
O projeto do shore power contempla, de acordo com Branco, "tomadas para migrar os guindastes do cais para alimentação elétrica, já que hoje grande parte opera a diesel".
Demanda do mercado europeu
O regulamento europeu FuelEU Maritime, da União Europeia, que fixa metas de redução de emissões para o transporte marítimo no bloco, exige que, a partir de 2030, navios de passageiros e porta-contêineres acima de 5 mil toneladas brutas usem shore power ou tecnologia de emissão zero ao atracar em portos europeus.
Já o regulamento AFIR, sobre infraestrutura para combustíveis alternativos, obriga os portos do bloco a fornecer a estrutura.
A Organização Marítima Internacional (IMO) não impõe obrigação universal imediata para a tecnologia, mas a Estratégia de Gases de Efeito Estufa prevê cortes graduais de emissões no transporte marítimo internacional até zerar as emissões líquidas por volta de 2050.
"Isso não significa que a lei europeia obrigue o Porto do Pecém diretamente. Todavia, as mesmas companhias de navegação que operam na Europa escalam portos brasileiros e ajustam suas frotas pensando em um horizonte regulatório global", diz Carvalho.
Entre portos competitivos, a infraestrutura ambiental entra na conta comercial. "O shore power sozinho não fará um armador alterar uma rota. Mas, entre portos competitivos, a infraestrutura ambiental passa a integrar a equação comercial devido à regulação global", avalia.