Negócios
Negócios

Cafeterias em Fortaleza faturam até 20% a mais com clubes de leitura

Letícia do Vale leticia.dovale@svm.com.br
20/06/2026 - 07:00

O amor pela literatura levou Airton Correia, proprietário da confeitaria Sublime, a criar um clube de leitura dentro do estabelecimento. A força motriz da ideia era gerar momentos de encontro e partilha culturais, mas o resultado da iniciativa também trouxe impacto econômico no negócio: atualmente, o faturamento nos dias de clube de leitura na Sublime é cerca de 20% maior que o apurado dos dias sem os encontros. 

Esse não é um movimento individual. Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes do Ceará (Abrasel-CE), já é possível observar o crescimento no fluxo e faturamento dos estabelecimentos do Estado devido aos encontros de clubes de leitura.

Para a entidade, a prática não só gera impacto no faturamento dos negócios, mas ajuda a fidelizar e aumentar a frequência de clientes, fortalecer o relacionamento entre consumidores e estabelecimentos e criar comunidades em torno dos negócios, o que gera resultados consistentes no médio e longo prazo.

Na visão do membro do Conselho Regional de Economia Ceará (Corecon-CE), Thiago Holanda, a atividade impacta a economia local e ainda movimenta o comércio do entorno, gerando consumos variados, beneficiando diferentes setores e aumentando a demanda por profissionais. 

Clube de leitura que nasceu por paixão virou ativo para o negócio

Desde agosto de 2016, as reuniões do clube de leitura da Sublime ocorrem no último sábado de cada mês, sempre às 14h. Segundo o proprietário, a média de participantes é de 30 pessoas, número próximo da lotação do espaço, que conta com 32 lugares no total. 

pessoas reunidas em um clube de livros
pessoas posam para foto em frente a um café
Legenda: Clube de leitura da Sublime nasceu em 2016
Foto: Acervo

Com a alta demanda nos dias de clube, Airton soma ao time de três funcionários um trabalhador extra. Os horários de intervalo da equipe também são alterados, de modo que, durante o encontro, todos estejam presentes para dar suporte. 

Na última edição, a quantidade de presentes conseguiu superar o dobro da expectativa: foram 64 pessoas. A obra discutida foi “Quarto de Despejo”, livro autobiográfico da escritora Carolina Maria de Jesus. 

“Foram 64 participantes, pessoas em pé, sentadas no chão. Teve gente que voltou porque não cabia mais. É um clube bem consolidado. Já tivemos a participação presencial de grandes escritores, como Socorro Acioli, Stênio Gardel, Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto”
Airton Correia
Proprietário da confeitaria Sublime
 

Mas, se engana quem pensa que a ideia é sinônimo de lucro fácil. Com alto investimento de tempo e esforço por trás da organização de cada encontro, Airton alerta que o retorno financeiro não é o suficiente para a sustentabilidade da atividade: “tem que gostar”.

Conforme explica o proprietário da confeitaria, participar do clube é gratuito e não exige consumação no estabelecimento. Por isso, assim como existem clientes que conhecem a Sublime pelo clube e passam a frequentá-la fora dos encontros, também existem aqueles que visitam o negócio apenas durante a confraternização e não geram ticket para a empresa. 

“Quando resolvi criar o grupo, eu não conhecia nenhum grupo de leitura aqui em Fortaleza. E como eu tinha algumas amigas e clientes que também gostavam muito de literatura, eu propus que a gente criasse esse grupo. A proposta foi o encontro, não gerar movimento para a Sublime. A gente vende mais, mas o consumo per capita (nos dias de clube) é menor, porque muita gente sequer consome”, reflete.

Leitores viram clientes recorrentes e ampliam consumo nos estabelecimentos

Embora ainda considere um movimento relativamente recente e concentrado em cafeterias, bistrôs e restaurantes, com proposta mais cultural, o presidente da Abrasel no Ceará, Taiene Righetto, já observa um crescimento gradual na procura de estabelecimentos para sediar encontros de clubes de leitura.  

Segundo ele, os participantes dos encontros frequentemente consomem mais de um item durante a permanência, elevando o ticket médio em comparação a uma visita convencional, além de retornarem ao negócio em outros momentos.

"Nessas ocasiões, costumo levar minha família, marcar encontros românticos ou simplesmente frequentar o espaço com mais calma para conhecer melhor o cardápio e a proposta da casa"
Ana Beatriz Mamede
Analista de sistemas e membro de um clube do livro

É o caso da analista de sistemas Ana Beatriz Mamede, de 20 anos. Membro de um clube de leitura há oito meses, ela relata que costuma retornar aos estabelecimentos onde ocorrem os encontros quando a experiência é positiva. 

De acordo com ela, os clubes costumam ocorrer em cafeterias e outros ambientes mais intimistas, mas o grupo também tem explorando novos espaços como pizzarias, bares e outros estabelecimentos que permitam uma dinâmica diferente e descontraída.

No dia do encontro, o investimento da analista nos estabelecimentos gira em torno de R$ 60, sendo voltado para uma refeição leve ou um lanche individual completo.

Embora não considere os valores gastos por encontro exorbitantes, ela destaca que a regularidade das saídas exige organização para não desequilibrar o orçamento. 

"Para lidar com isso, adoto uma estratégia simples: delimito uma quantia fixa mensal (R$ 100) no meu planejamento financeiro exclusivamente voltada para os gastos do dia do encontro", aponta. 

Ana Beatriz Mamede gasta cerca de R$ 60 em cada encontro literário.
Legenda: Ana Beatriz Mamede gasta cerca de R$ 60 em cada encontro literário.
Foto: Acervo

Leitura impulsiona mercados além das cafeterias

A busca por conexões saudáveis levou Ana Beatriz a integrar um clube de leitura, mas ela não parou por aí. Segundo a analista de sistemas, a imersão na leitura a inseriu de forma muito mais ativa no universo das papelarias e livrarias. 

"A frequência das minhas visitas e o interesse por esses produtos aumentaram significativamente desde que entrei no clube", comenta. A experiência exemplifica a análise feita pelo membro do Corecon-CE, Thiago Holanda, sobre o cenário.

Para ele, os clubes de livros impactam a economia local cearense porque transformam a leitura em uma atividade social com circulação de pessoas, consumo e serviços, movimentando o comércio do entorno. 

“Além da compra do livro principal, há consumo de alimentação, transporte, papelaria, brindes, decoração, fotografia, divulgação e locação de espaços. No Ceará, esse efeito pode ser relevante em bairros com vocação cultural, turística ou universitária, especialmente em Fortaleza e cidades com redes educacionais ativas (exemplo: Benfica). O impacto não está apenas na venda de livros, mas na criação de uma experiência que estimula permanência, recorrência e consumo”, salienta.

Grupo de mulheres participa de um encontro de clube de leitura em um deck com vista para o mar. Sentadas ao redor de uma mesa ao ar livre, elas exibem exemplares de livros enquanto posam para a foto sob a sombra de árvores, em ambiente descontraído e ensolarado.
Grupo de mulheres participa de um encontro de clube de leitura dentro de um café sentadas à mesa.
Legenda: Ana Beatriz Mamede participa há oito meses de um clube de leitura.
Foto: Acervo

Conforme aponta, não só negócios como cafés e restaurantes são beneficiados, mas também livrarias, sebos, editoras, empresas de eventos, espaços culturais e até bibliotecas, escolas, universidades e centros comunitários. 

“Quando o clube ganha escala, ele pode estimular feiras literárias, lançamentos, oficinas, cursos, assinaturas de livros e novas formas de economia criativa. Também podem ampliar a demanda por atendentes, baristas, vendedores, auxiliares de eventos e profissionais ligados à logística e divulgação. Para pequenos empreendedores, o clube de livros cria uma clientela fiel, com encontros periódicos e possibilidade de venda complementar. No médio prazo, a tendência pode fortalecer cadeias locais do livro e da cultura, estimulando emprego qualificado, empreendedorismo cultural e circulação de renda no território cearense”
Thiago Holanda
Membro do Corecon-CE

Thiago aponta, ainda, o impacto em profissionais, como fotógrafos, designers gráficos, autores, curadores literários, mediadores de leitura, professores, influenciadores literários, produtores culturais e profissionais de marketing digital, papelaria criativa e produção de brindes. 

Cafeterias investem em ambientes e experiências para atrair público

Com a tendência de clubes de leitura, cafeterias e restaurantes têm criado ambientes mais acolhedores, oferecendo reservas de espaços, condições especiais para grupos, menus compartilháveis e até programações culturais próprias, aponta o presidente da Abrasel no Ceará, Taiene Righetto. 

“Muitos empresários perceberam que os clubes de leitura representam uma oportunidade de aproximar o negócio de um público que valoriza experiências, convivência e permanência no ambiente”, destaca. 

Essa ideia de criar um ambiente ligado à arte e movimentar a economia criativa da cidade foi o que impulsionou o Junto Café Bar. O negócio surgiu em outubro de 2024 e funciona em uma espécie de casarão junto à loja colaborativa Elabore, integrando o mesmo grupo da marca. 

Com um DNA cultural, desde o nascimento o café é espaço para encontros de clubes variados, indo além da bolha literária: oficinas de brincos, velas, sabonetes, arranjos florais, bordado, crochê e até defesa pessoal já foram temas de encontros no estabelecimento, ainda que os clubes de livros sejam as reuniões predominantes. 

Participantes de um clube de leitura ocupam uma grande mesa em uma cafeteria durante uma discussão literária. Enquanto algumas pessoas fazem anotações, outras acompanham a fala de uma mediadora em pé, em um ambiente de troca de ideias e convivência cultural.
Pessoas participam de uma oficina de arranjos florais em uma cafeteria. Sentadas em mesas coletivas, elas manuseiam flores e folhagens enquanto recebem orientações da facilitadora, em um espaço iluminado e decorado com plantas.
Grupo de participantes acompanha uma atividade em uma cafeteria, reunido em torno de uma mesa com materiais de trabalho, cadernos e recipientes aquecidos. O encontro ocorre em ambiente acolhedor e favorece a interação entre os participantes por meio de uma experiência coletiva.
Legenda: Junto Café Bar recebe diferentes clubes desde 2024
Foto: Acervo

Assim como a variedade de reuniões, a demanda pelos encontros também é grande. De acordo com uma das sócias proprietárias do estabelecimento, Raquel Praxedes, todo final de semana o café recebe, pelo menos, três a quatro reuniões no mesmo dia. 

“A gente sempre gostou e gosta muito desse movimento, da criatividade, dessas conexões. Começou de uma forma genuína, então a gente começou a abraçar cada vez mais (os clubes), o que eu acho que não tinha tanto ainda nas cafeterias daqui de Fortaleza. Fazendo esses encontros, a gente conhece cada vez mais pessoas. A gente montou a casa com o intuito de gerar cada vez mais esse movimento pra cidade, de despertar essa criatividade, de ser um lugar gostoso para as pessoas”
Raquel Praxedes
Sócia-proprietária do Junto Café Bar
  

Segundo ela, a movimentação gera aumento no faturamento, embora a profissional não consiga quantificar. Isso ocorre porque os clubes podem tanto deixar os participantes livres para consumir no café como podem encomendar um serviço de catering ao estabelecimento, o que torna a renda bastante variável. 

Outra consequência observada pela sócia proprietária é o ganho de novos clientes e a necessidade de dobrar a equipe de funcionários nos dias de clubes, adicionando de três a quatro trabalhadores extras. 

O café conta, ainda, com aulas fixas de yoga e disponibilidade para quem deseja aproveitar o espaço para trabalhar remotamente. 

Créditos

Letícia do Vale, Repórter | Bruna Damasceno e Hugo R. Nascimento, Editores de Negócios | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo do Diário do Nordeste, Verdinha e TV Diário | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte

Este conteúdo é útil para você?