Uma das raças bovinas mais valorizadas do mundo, a wagyu já é uma realidade no Ceará. Com cerca de 20 cabeças de gado em Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza, os animais vivem em condições diferenciadas de demais bovinos.
O ambiente em que eles ficam, sobretudo em momentos de altas temperaturas ao longo do dia, passa por um processo de climatização, e a tendência é de que eles recebam cerveja no processo de abate.
As informações foram compartilhadas pelo advogado Abdias Oliveira. O produtor rural é dono das cabeças de wagyu no Ceará, criados com demais bovinos e ovinos na propriedade de 13 hectares.
"Precisava ter um diferencial. Uma propriedade pequena exige um custo elevado, e me vi obrigado a buscar algo. Estava acompanhando leilões de wagyu, e é bovino do Japão. Criaram especificidades melhores, e as condições de alimentação e cuidado acabaram propiciando um marmoreio de carne diferenciado", explica.
O marmoreio é um processo em que a carne e a gordura se misturam em formatos geométricos, criando um sabor aveludado, segundo críticos gastronômicos.
Manejo adequado garante marmoreio apresentável
Abdias começou a comprar wagyu em 2019. Os 20 animais que mantém na propriedade em Itaitinga são resultados de um processo longo e extenso, que envolvem condições específicas.
"Crio a maioria dos meus animais de forma estabulada, em regime de semi-confinamento. Nas horas mais quentes, recolho. Vão ao piquete, comem bem e tem boa resistência ao Sol. Se adaptaram muito bem, não tive problemas, mas precisa ter um cuidado maior".
"Apesar de a raça seja propícia a ter um ótimo marmoreio, o manejo é fundamental. Tem que ser adequadamente alimentado, se não, não produz marmoreio apresentável. A exposição ao Sol afeta o marmoreio", pontua.
Para o produtor, o animal é mais suscetível a carrapatos e verminoses, embora ele garanta que os bois wagyu dele estejam livres de zoonoses e outras enfermidades.
Os animais são destinados para o consumo interno, sem comercialização direta com frigoríficos e consumidores. Eles são criados em condições mais confortáveis do que outros bois.
"Para o abate, deixo o animal com água à vontade, esteja em condições sanitárias e exames em dia. Também damos um conforto térmico maior, mais alimentação para engordar o animal e faremos estudos com cerveja, dando uma lata por dia para ver se o resultado do marmoreio é vantajoso", expõe.
O que é o wagyu?
No Brasil, há pouco mais de 3,5 milhões de bois dessa espécie, conforme a Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos das Raças Wagyu (ABCBRW).
Ao todo, 207 mil animais já foram abatidos, e 52 criadores no Estado estão credenciados à entidade. De acordo com a ABCBRW, o wagyu é uma raça bovina introduzida no século II no Japão para fornecer tração para o cultivo de arroz.
Com o tempo e as mudanças político-econômicas japonesas, o wagyu japonês tornou-se uma espécie única, bastante apreciada no mercado de carnes mundo afora. Isso inclui principalmente o corte kobe beef, o mais famoso do wagyu.
Entre as curiosidades, as fazendas de wagyu oferecem alimentação especializada, tocam música clássica e mantêm os animais em ambientes silenciosos.
Preço do boi wagyu pode passar de R$ 34 mil
Bois são normalmente vendidos por arrobas (15 kg). Segundo Abdias Oliveira, a arroba do boi wagyu gordo custa o dobro do boi Nelore, espécie presente em mais de 80% dos rebanhos brasileiros.
Atualmente, a arroba do Nelore gordo no País é comercializada de acordo com a região, variando entre R$ 320 e R$ 380 nas primeiras semanas de junho.
A ABCBRW dispõe que o peso médio de um boi wagyu gordo confinado varia entre 620 kg e 650 kg.
Com isso, a estimativa de preço de um animal nessas condições no Brasil gira em torno de R$ 26,4 mil e R$ 34,4 mil, mas os valores podem variar conforme diferentes fatores, como compra em leilões e condições dos bichos.
Em frigoríficos especializados (também chamados de butiques de carne), o kobe beef produzido a partir de bois abatidos no Brasil pode partir de R$ 153,50 (540 gramas). O preço pode ultrapassar os R$ 2 mil o quilo no caso de animais importados.
Serras e chapadas cearenses têm potencial para criação de wagyu
A criação de Abdias acontece em uma região de clima tropical, com altas temperaturas ao longo do ano, além de não ser uma produção comercial dos bois.
O Estado, no entanto, tem potencial para a criação do animal em regiões com clima favorável, como a Serra da Ibiapaba e a Chapada do Apodi.
Segundo o médico veterinário Jair Siqueira, especialista em pecuária de corte, o wagyu exige temperatura média abaixo de 30°C, condição que o microclima dessas regiões já oferece.
No calor, coberturas e ventilação garantem o conforto dos animais. O principal desafio, contudo, é financeiro. "O problema é trazer esses animais, porque essas fêmeas são caríssimas", explica Siqueira.
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), Amílcar Silveira, sinaliza que é preciso prudência para investir especificamente na raça, principalmente pela falta de uma cadeia produtiva básica de pecuária de corte no território cearense.
"Não temos nenhum frigorífico com certificação, e precisamos voltar a ter uma pecuária de corte forte, estamos renascendo. Mercado consumidor tem e há possibilidade de exportação. Não há ainda tanta infraestrutura para isso", argumenta.
No Ceará, o abate de bovinos é a menor atividade da pecuária de corte, na comparação com frangos e suínos, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Os números apontam que, nos três primeiros meses deste ano, 47 mil cabeças foram abatidas no Estado, 11% a menos do que nos três meses finais de 2025.
Rebanho no Ceará pode ter Nelore como raça principal
O grande foco dos criadores de gado de corte no Ceará segue sendo o Nelore.
Originária da Índia, a raça é a mais difundida no Brasil, responsável pela maior parte do rebanho nacional e bastante adaptada às condições climáticas do País.
"Temos um clima seco. É quente na maior parte do ano, mas é seco. Como os galpões são parcialmente cobertos, há uma telha chamada galvalume que não deixa passar a radiação solar. Em um ambiente com temperatura de 40°C, o que estiver embaixo desse telhado chega a 26°C", explica Pereira.
Além disso, a tendência é de que o gado a ser criado para corte aproveite as tecnologias e os aprendizados da pecuária leiteira no Estado, também em franca expansão, em especial no Vale do Jaguaribe.
Confinamento e alimentação selecionada
Para que a pecuária de corte prospere no Ceará, Pereira elenca que o potencial do Estado reside em sistemas intensivos ou super intensivos.
São técnicas de criação bovina com o menor uso de terras para a criação dos animais e com alto confinamento, com controle de temperatura, alimentação seleta e disponibilidade de água.
"Temos um potencial muito grande, desde que seja em locais que a gente possa produzir a comida do gado em áreas que possa ser irrigadas. Na Chapada do Apodi, tem áreas irrigadas para isso", explica.
Pereira foi um dos participantes do Coalizão Agro, em Limoeiro do Norte, evento que discutiu o agronegócio no Ceará. A pecuária de corte foi um dos destaques pelo potencial registrado na região.
"A agricultura familiar pode criar também, desde que produza a alimentação desse gado dentro da propriedade. Podemos tirar 40 bois por ano em apenas 1 hectare de terra de produção de lavouras. A lavoura servirá para alimentar os animais: mandioca, sorgo boliviano, cana, milho", observa.