Fé e amor à arte são marcas do Otávio Bonfim

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
11 de Agosto de 2010 - 20:07
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Oficialmente, o bairro recebe o nome de Farias Brito, um dos mais eruditos pensadores brasileiros

A imponente Igreja de Nossa Senhora das Dores, templo espiritual administrado pelos frades franciscanos, é um ícone do bairro. Esse se chama oficialmente Farias Brito, mas, no coração popular, nunca deixará de ser o Otávio Bonfim. Também há a obstinação pela arte, manifestada pelo seu tradicional cinema Nazaré, o aconchego da praça e a reverência do monumento ao filósofo do Cariri que emprestou o nome ao bairro.

A arquitetura da casas, as árvores antigas da praça e até mesmo a estação ferroviária, que passa por desmonte em vista das obras de construção do Metrofor, revelam os estreitos laços com o passado. Contudo, não é um qualquer.

Pensadores

As referências nas ruas e praça do bairro abrangem um dos mais eruditos pensadores brasileiros, como Farias Brito, passando pelo romancista Domingos Olímpio e homenageando, ainda, Carlos Severo, poeta, pintor e dramaturgo.

O Farias Brito/Otávio Bonfim pode ter nomenclatura confusa, mas não no sentimento de seus moradores. É o que afirma um morador ilustre, Raimundo Carneiro de Araújo, o Vavá.

É conhecido por tocar o cinema do bairro, enquanto se vivencia o fechamento de muitas salas, inclusive aquelas que são referências históricas para a Cidade. Ainda hoje, mantém o cinema - que divide espaço com uma oficina de eletrodomésticos - exibindo filmes desde os de 16 mm até VHS e DVDs, numa sala com 75 assentos.

Persistência

"Antes, ficava à frente do Cine Familiar, que funcionava ao lado da igreja. Já o Cine Nazaré teve seu apogeu no fim da década de 1940. Depois, fechou e, por fim, fiquei com a sala e alguns equipamentos. Se depender de mim, ele continuará funcionando até quando for possível", afirma Vavá, com 79 anos. As idas e vindas do Cine Nazaré ora tem relação com a decadência do cinema diante do advento da televisão ora com o período da Ditadura Militar, mas nunca com os laços reais da comunidade local.

Vavá lembra que o lugar sempre se constituiu numa opção de lazer, embora tivesse seus hiatos. No entanto, basta um longo período sem funcionar para gerar indignação e protesto.

Enquanto isso, tem lembranças da presença forte dos frades franciscanos, não apenas no trabalho pastoral, como na ajuda efetiva às comunidades mais pobres, a exemplo das residentes no Morro do Ouro e no Beco dos Pintos. As missas e festas da padroeira animavam os católicos e toda a comunidade.

Trem

"Nas manhãs de sábado, não tinha passeio melhor do que pegar os filhos menores, subir no trem, e, de joelhos, nas poltronas rasgadas e das janelinhas abertas, acompanhar o desfile de casas, árvores e pessoas que, indiferentemente à observação, postavam-se à beira do caminho", conta a professora Else Studart Gurgel de Oliveira.

Ivan Bezerra, 90 anos, conta que sua maior travessura, quando criança, foi entrar num vagão e se deixar levar para um destino desconhecido. "Naquele tempo, eu tinha seis anos. Não sabia o que era perigo, as pessoas não eram tão ameaçadoras. Foi uma aventura arriscada. Por sorte, consegui ser vista por alguém próximo da nossa família", afirma Ivan Bezerra. Ela conta que era inacreditável a magia que o trem provocava nas pessoas.

A professora Else destaca que o bairro foi sempre um reduto da família Gurgel. Se não era parente, era amigo ou conhecido. "Do outro lado da Bezerra de Menezes, já depois da linha do trem, ficava a Siqueira Gurgel. Era lá onde se fabricava o sabonete Sigel, o óleo Pajeú, a gordura de coco Cariri e o famoso sabão Pavão.

Jingle

Havia, na época, um jingle muito popular: "Uma mão lava a outra com perfeição, e as duas lavam roupa com sabão pavão". O óleo de algodão Pajeú, produzido na Siqueira Gurgel, ficou na história, isso porque a lata trazia estampada a figura de uma negra de tranças, bem sapeca em seus modos. Os tempos mudaram, a Siqueira Gurgel foi vendida e a área pertence, hoje, a uma rede de Hipermercado", afirma a docente.

Avaliação

Bom
A proximidade com o centro fez com que o bairro rapidamente se expandisse e fosse alvo de bons equipamentos urbanos. A Avenida Bezerra de Menezes favoreceu essa expansão. Também é reconhecido pela religiosidade

Mau
A violência intimida os moradores mais antigos. Eles lamentam que o convívio social passou a ser mais difícil. Isso se dá, segundo a comunidade, não pelas áreas de risco, mas por uma ação menos expressiva da Polícia na área

MAIS INFORMAÇÕES
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CONFLITOS URBANOS
Violência diminui encanto e faz cair qualidade de vida

Até mesmo em comunidades estigmatizadas pela pobreza, como o Morro do Ouro e o Beco dos Pintos, a violência deixa sua marca e interfere na qualidade de vida de seus moradores.

A situação não é diferente para toda a extensão do Farias Brito/Otávio Bonfim, que já foi pontuado como um dos recantos nos quais a prevalência das tradições familiares influenciavam na boa convivência social.

Não é o que vê, hoje, a aposentada Ivan Bezerra. Ela observa a expansão do bairro - que atraiu as vantagens e o conforto de uma vida urbana exigente - e, ao mesmo tempo, seus problemas crônicos, como o comércio de drogas, os assaltos e a sensação constante de insegurança.

Festas

"Fui do tempo em que esta praça (dos Libertadores) era um lugar de reunião das famílias. Aqui, nós nos organizávamos para as festas da padroeira, o Natal e até os festejos de São João", conta Maria Alcina de Luz, 81 anos e residente na Avenida Domingos Olímpio.

Porém, o vandalismo se instalou naquele logradouro. Os bancos quebrados e as mudas novas em substituição a outras plantas mortas ou subtraídas de seus canteiros são, hoje, realidades que fazem os moradores, no mínimo, refletirem.

O fato de o bairro também ter passado a ser mais bem servido de equipamentos urbanos é contestado por Maria Alcina. Ela disse que houve ganhos em alguns desses benefícios, como a instalação de agências bancárias na Avenida Bezerra de Menezes, mas piorou o problema da mobilidade.

Para Alcina, o trem metropolitano - que vinha de Maracanaú ou que saía da Estação Ferroviária João Felipe até a Vila das Flores, no município de Pacatuba - era a alma do lugar. "É como se um ente querido houvesse morrido. Não escutamos mais o sinal do trem, a corrida para a estação a fim de que não fossem perdidos os horários de saída e chegada da locomotiva e seus vagões", conta a moradora.

A Secretaria Executiva Regional (SER) I, por meio de sua assessoria de imprensa, diz que o Farias Brito é um dos bairros que menos apresenta problemas de infraestrutura. As comunidades, como o Morro do Ouro e o Beco dos Pintos, são recantos privilegiados. "A ideia que passa é de que, aqui, não existe favela. Pode haver, sim, ruas estreitas e pessoas pobres", afirma um servidor da SER I.

ENQUETE
Pelos bons tempos

"A insegurança é um problema sério, porque nos tira a tranquilidade e a paz. Queríamos uma presença maior da Polícia"
Aldo Vieira
62 ANOS
Comerciante

"Temos a vantagem de contarmos com shoppings e supermercados e ficarmos próximos do Centro da Cidade"
Elen Queiroz
28 ANOS
Terapeuta

"A MEMÓRIA está se acabando, mas a união da comunidade ainda persiste. Isso nos fortalece como cidadãos"
Raimunda Damasceno
85 ANOS
Aposentada

Fique por dentro
Ferrovia

Desde o início, o trem sempre foi uma referência importante para o Farias Brito. Ao mesmo tempo em que a dependência ferroviária fez crescer aquela área, o desmonte é motivo de desalento para a comunidade, que surgiu de uma povoação ao lado da antiga Estrada para o Soure (atual Caucaia). Os frades franciscanos construíram a Igreja de Nossa Senhora das Dores. Com a expansão da Estrada de Ferro de Baturité, em 1922, foi construída uma estação de trem com o nome "Quilômetro 3", depois passou a ser denominado Matadouro e, finalmente, Otávio Bonfim.

MARCUS PEIXOTO
REPÓRTER

Edição do Dia