Covid-19: pandemia traz mudanças na rotina dos funcionários de funerárias na Capital

Fortaleza já registra 1.548 mortes por Covid-19, desde o começo da pandemia. Os funcionários de funerárias contam que não aumenta apenas a demanda de trabalho, também aumenta o desgaste emocional de quem convive com a morte diariamente

Legenda: Sofrimento das famílias tem impactado emocionalmente funcionários de funerárias em sepultamentos
Foto: Camila Lima

A pandemia do novo coronavírus já fez mais de 2.200 vítimas fatais no Ceará e cerca de 68% dessas vítimas estão concentradas em Fortaleza, epicentro do contágio no Estado. Essa realidade está atingindo diretamente quem trabalha na prestação do serviço funerário, profissionais que estão na linha de frente e que têm lidado com a família das vítimas, no seu momento de despedida do ente querido, e com o aumento da demanda de trabalho.

O medo, a angústia e o desgaste emocional, fazem parte da rotina diária desses profissionais. “Tá todo mundo assustado, quem está nessa linha de frente. Tentar prestar um bom serviço numa situação como essa é muito desafiador, porque nós somos seres humanos. Todo mundo tem seus medos, seus receios, suas famílias”, declara Patrícia Meireles, diretora do Memorial Fortaleza e conta que foi necessário promover rodas de conversa para os funcionários, com o intuito de orientar sobre saúde e equilíbrio emocional.    

Além da preocupação com a saúde mental dos funcionários e a física, como uso de EPIs pelos funcionários, a diretora explica que a equipe também foi orientada sobre o trato com familiares, que não podem se despedir de maneira tradicional aos seus entes queridos. “A gente escuta pedido de oração, de reza, alguns versos e tenta acolher o máximo possível”, relata.

Para Rodrigo Aragão, gerente da empresa funerária Memorial Sol Poente, que já está há 10 anos no mercado, esse momento é diferente de tudo já presenciado, além da mudança, por causa do aumento da demanda, esse momento tem também um maior desgaste emocional. “Tem situações em que há um grande desgaste emocional, como uma situação, [por exemplo], que uma criança de seis anos gritando em um balcão, perguntando pela mãe e a mãe tinha acabado de falecer por Covid. E todo mundo lá ficou, assim, em uma situação, abalado né, emocionalmente. Mesmo quem já está acostumado a trabalhar com isso”, conta. 

Além do desgaste emocional, pelo momento, a funerária já teve que afastar três trabalhadores por suspeita de Covid-19. Segundo Ricardo Carvalho Filho, advogado da funerária, os funcionários passam o dia inteiro fazendo novas covas. “Tá sendo um trabalho que a gente nunca teve”.

Legenda: Houve aumento no número de enterros por dia após o início da pandemia do novo coronavírus
Foto: Helene Santos

Aumento da demanda

De acordo com Patrícia Meireles, diretora do Memorial Fortaleza, a média de sepultamentos da empresa era de 50 por mês. Em maio deste ano, devido às mortes por coronavírus, já são mais de 130 enterros. O aumento já atinge mais de 250% do que normalmente é demandado do cemitério e da funerária. 

O Memorial Sol Poente também viu os recordes de enterros mensais, semanais e até diários serem batidos durante a pandemia, sendo necessário fazer novas contratações para suprir a crescente demanda. “O movimento que a gente fazia, o máximo que fazíamos eram quatro sepultamentos e agora a gente tava fazendo, no mínimo, seis sepultamentos no dia”, disparou. O local contratou seis novos coveiros para dar vasão à demanda. 

Ricardo, advogado da funerária, afirma que além do aumento da demanda, outro problema enfrentado é fazer clientes entenderem que não podem se aglomerar para os velórios e que têm de usar máscaras para entrar na empresa. “A família não se despedir da pessoa é complicado, mas infelizmente temos que seguir com o que está na lei. A gente vive um momento de muita fragilidade”, lamenta. Ele também relatou que o Dia das Mães, em 12 de maio, foi particularmente difícil, já que normalmente diversas pessoas vão até o cemitério para visitar o túmulo de parentes. Por questões de segurança, a orientação foi para que os clientes não se dirigissem ao local.

Fake news

A categoria também vem sofrendo com a divulgação de informações falsas sobre enterros e procedimentos de notificação de mortes. Com isso, as dúvidas sobre o processo aumentam entre a população. “A essência das fake news é conturbar o processo. Temos feito é deixar o cliente ciente de uma forma muito transparente”, diz Patrícia. 

Ela conta que já aconteceu de pessoas desconfiarem de que os óbitos não aconteceram em decorrência do coronavírus, mesmo sendo registrados como tal. “A gente recebe a declaração de morte do hospital. Só acatamos”. No entanto, a diretora opina que os órgãos públicos poderiam ser mais claros em relação aos procedimentos e informações. “Se isso fosse feito de forma mais clara, as famílias enlutadas, com dor e estresse, sem dúvida seriam melhores assistidas”, concluiu.

No dia 30 de abril, o Governador do Estado, Camilo Santana sancionou uma Lei contra Fake News, que estabelece multa para quem divulgar, por meio eletrônico ou similar, notícias falsas sobre epidemias, endemias e pandemias no estado Ceará.