A chegada dos últimos meses do ano faz lembrar que o Ceará está prestes a ingressar em sua pré-estação chuvosa. Entre dezembro e janeiro, Fortaleza e os municípios do Interior começarão a registrar as tradicionais precipitações que antecedem o inverno cearense e que, a exemplo do que ocorreu no fim do ano passado e início deste ano, podem ser intensas. Embora desde 2013 chuvas de grande volume tenham se tornado cada vez mais escassas no Estado, até mesmo as leves quedas de água são capazes de ocasionar mudanças no cenário das cidades.
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Enquanto no Interior do Estado elas representam alento para os reservatórios, ainda que mínimo, na Capital geralmente significam prejuízo. Tudo isso em virtude da deficiência da rede de drenagem urbana, que, além da baixa cobertura, tornou-se ineficiente para dar conta das demandas da cidade e evitar prejuízos como alagamentos, inundações e ameaças para áreas de risco.
Hoje, a Prefeitura Municipal estima que apenas 59% de Fortaleza seja coberta pela rede. Em novembro do ano passado, conforme mostrou o Diário do Nordeste, a gestão anunciava a meta de terminar 2016 com 65% de alcance, mas o índice só deve ser atingido na metade de 2017. Ainda assim, boa parte da Capital continuará da mesma forma que se encontra atualmente: não atendida pelo serviço.
Alagamentos
Conforme a própria Prefeitura destacou em seu Plano de Drenagem, divulgado em 2015 como parte do Plano Municipal de Saneamento Básico, o resultado da insuficiência da rede é a existência de pontos de alagamento na cidade. De acordo com o relatório, até ano passado, eram 20, espalhados por 14 bairros.
Para especialistas, a rede de drenagem em Fortaleza não conseguiu acompanhar o crescimento da cidade. Segundo Francisco de Assis Souza, professor do departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Universidade Federal do Ceará (UFC), a ocupação desordenada e o processo de verticalização do meio urbano fizeram com que os espaços para absorção das chuvas diminuíssem, aumentando o volume de água escoada.
"Boa parte da rede foi feita anos atras, mas a cidade cresceu e ficou mais impermeável. Isso está aumentando as vazões que precisam ser drenadas pelo sistema e gerando mais dificuldade, porque o sistema foi projetado para uma vazão bem menor do que a que temos hoje", afirma.
Ao mesmo tempo, o funcionamento da rede existente é comprometido pelo descarte irregular de lixo nas ruas e pela prática de ligações clandestinas de esgoto diretamente no sistema. "Enquanto as pessoas continuarem jogando lixo nas ruas, o problema da rede de drenagem não será resolvido nem se houver 100% de cobertura. Todos esses resíduos que são lançados nas vias serão carregados com as chuvas e terão como consequência o entupimento de bocas de lobo, galerias pluviais, poços de visita e assim por adiante", diz o professor Marco Aurélio de Castro, coordenador da pós-graduação em Engenharia Civil, Recursos Hídricos, Saneamento e Geotecnia da UFC.
Investimentos
Na visão de ambos os especialistas, o baixo investimento na área é histórico e, apesar dos avanços nos últimos anos, as deficiências no serviço apenas serão solucionadas com políticas integradas de saneamento.
"O setor de drenagem sempre foi desprezado. Não tem dotação orçamentária própria, não tem impostos recolhidos diretamente para ele. É sempre deixado de lado, disputando recursos com outras áreas. Só quando ocorrem chuvas, inundações e os prejuízos, a drenagem é lembrada", destaca Castro. "Além disso, a drenagem tem impacto sério em relação a doenças que hoje são mais preocupantes no País, como a zica, a dengue e a chikungunya, causadas pelo mosquito que tem como meio de reprodução a água", completa.
"O problema é que as obras de drenagem são chamadas "obras enterradas", porque ninguém vê o impacto. Termina que não investem nessa infraestrutura porque não tem tanta visibilidade", afirma Francisco de Assis Souza.