As primeiras moradas do bairro surgiram através de mutirões há 40 anos. Hoje, a ocupação é desordenada
O bairro Vila Velha, vizinho a Barra do Ceará, é o quinto mais populoso de Fortaleza, com 49 mil habitantes, e o oitavo maior da Capital. Ele é imenso não só em números, mas também em problemas, começando pelo desordenamento urbano. Nascido às margens do estuário do Rio Ceará, a localidade cresceu de forma irregular. Nos idos de 1970 eram centenas de casas construídas, em regime de mutirão pelos próprios moradores. Hoje o cenário é de caos.
Na falta de onde mais construir, habitantes cometem o crime de "levantar" as moradas em cima do mangue, dentro do leito marítimo, sufocando e matando, aos poucos, o já sofrido espelho de água, um dos mais importantes do Estado. Visto de longe, nem parece que a região é uma Área de Proteção Ambiental (APA), tamanho é o adensamento populacional.
Além do problema da "invasão" das casas sob o mangue, há outros que preocupam os moradores. Demanda por mais escolas e creches, reclamação da sujeira nas ruas e esgotos à céu aberto, precariedade no único posto de saúde e muitas queixas da falta de segurança. Apesar da lista de "broncas", a merendeira Ana Valentina Silveira, 37, diz sentir muito orgulho de morar na casa que ela mesma ajudou a "subir" os tijolos.
"Hoje está ruim, mas quando viemos morar aqui, lá pelos anos 1980, isso era um sonho, era a cidade do futuro, cheia de conjuntos habitacionais todos erguidos em regime de mutirão. Era bonito ver todo mundo se ajudando e enfrentando os problemas. Nossa marca é a solidariedade", afirma. A merendeira lembra ainda de quando estava grávida e, mesmo assim, botava a mão na massa.
Pela característica de conjunto, o bairro atualmente é divido em quatro etapas, o Vila Velha I, II, III e IV além de ter ruas marcadas em formato "xadrez", com nomeações com letras do alfabeto. Já que a características do Vila Velha é a formação dos grandes conjuntos, sobram opções de nomes: Assunção, Nova Assunção, Conjunto dos Bancários, Planalto da Barra e Beira Rio, são alguns deles.
Por ter sido criado, assim, de modo comunitário, todo mundo parece se conhecer. É uma tal de Socorro do Assis, de Rita do Cláudio, de Zé da Mercearia. É a grande família da Vila Velha. Mas, com esse regime de mutirão, também surgiram "embaços". A maioria dos moradores não possui papel da casa, não conseguem comprovar a posse das moradoras. "Ainda sofremos com isto. Precisamos de uma regularização fundiária urgente", afirma a liderança comunitária, Assis Leal, 52.
Entretanto, não há só do que lamentar no Vila Velha. Há também boas experiências culturais e artísticas. Entre elas, a Associação Vidança Cia de Dança do Ceará, presidida pela bailarina Anália Timbó, que trabalha com cerca de 250 crianças do bairro ensinando arte e realizando sonhos.
Há também a presença do Projeto Emaús que oferece aulas de reforço e ambulatório médico. No mais, o Vila Velha possui um jornal impresso, formado por jovens da comunidade, para denunciar e informar, é o Vila Notícia.
Fique por dentro
Histórico
O bairro Vila Velha surge da demanda por moradia em Fortaleza. Diante da crise da habitação, o Estado tenta amenizar a situação erguendo uma série de conjuntos habitacionais.
Estes foram feitos em sistema de mutirão divididos em quatro partes Vila Velha I, II, III e VI (construídos a partir da década de 1990), e loteamentos que atualmente dão lugar aos conjuntos habitacionais Polar, Planalto da Barra, Bancários Nova Assunção e Beira Rio (erguidos entre 1970-1980).
As casas foram construídas por etapas, sendo a primeira iniciada em 1991. Foram construídas 150 casas e a origem dos moradores é do bairro Jardim Iracema.
Equete
Problemas de sobra
"Um dos maiores problemas do bairro é a falta de creches para as mães colocarem os filhos enquanto trabalham. Tem uma que fechou há anos"
Socorro Araújo
62 anos
Dona-de-casa
"Para mim o que mais atrapalha é a falta de Posto de Saúde para atender a multidão de gente que mora aqui, precisamos de mais médicos"
Sílvia dos Santos
24 anos
Dona-de-casa
"Tem que melhorar muito a segurança. Apesar do Ronda do Quarteirão, todo dia tem assalto e morte por causa dos meninos que vivem de usar drogas"
Socorro Campos
60 anos
Aposentada
OCUPAÇÃO IRREGULAR
Não há projetos para remoção
O Vila Velha parece divido em dois: aquele com casas oriundas dos mutirões e os ditos casebres que foram construidos irregularmente nas margens do Rio Ceará. Moradores chamam de "invasão" as tais moradas em cima do mangue.
Por estarem em uma área alagada, as habitações correm o risco de desabar, reclama o técnico em eletrônica, Sebastião da Silva, 39, lamentando as rachaduras na parede e os alagamentos quando chove na Capital. "Sei que estou morando em um mangue, que não devia estar aqui, mas não tenho outro lugar para ir", lamenta.
O pior é que os órgãos que deveriam retirar os moradores e garantir a proteção dos ecossistemas parecem estar de "mãos atadas". Não há, segundo o gerente da APA do Rio Ceará e técnico da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), Adahil Garcez, prazo algum para retirada das famílias na margens do estuário, no Vila Velha IV.
"Lá é uma área altamente precária, insalubre e de risco. É preciso uma ação coletiva, mas está difícil, não sabemos ainda como vamos resolver esse problema de crime ambiental", lamenta o gerente da APA da Semace.
No canto da casa, com os pés sujos de lama e um siri apanhado de dentro do Rio Ceará, o estudante Lindenberg Silva, 12, conta que vai almoçar o pequeno crustáceo a fim de não ficar com fome. "Tem dias que só falto morrer, sem ter o que comer. Não dá nem para pescar com a água seca", conta a criança magricela.
Sobre a falta de escolas, a Secretaria Municipal de Educação, esclarece que uma nova creche será inaugurada em abril e a localidade tem três escolas públicas e três Centros de Educação Infantil. Na área da saúde, há o Centro de Saúde João Medeiros e o Hospital Distrital Governador Gonzaga Mota.
Contradições
Bom
Nas conversas entre os moradores mais antigos pode-se perceber que a maioria deles se conhece, existe um censo de comunidade muito forte, visto que boa parte dos que lá habitam chegaram juntos, ocupando os mesmos conjuntos habitacionais construídos há 30, 40 anos. O espírito de solidariedade é forte tal qual a vida cultural do local com a presença de dezenas de grupos artísticos.
Mau
Um dos pontos negativos do bairro é a sujeira e a falta de cuidado com os bens naturais tais como o Rio Ceará, o estuário, as margens e o mangue da Área de Proteção Ambiental. Foi percebido um descuido com o lixo, falta de políticas públicas de educação ambiental. Com isso, muriçocas, baratas e ratos são facilmente encontrados em uma simples volta pelas ruas do Vila Velha I, II, III e IV.
IVNA GIRÃO
REPÓRTER
O bairro Vila Velha, vizinho a Barra do Ceará, é o quinto mais populoso de Fortaleza, com 49 mil habitantes, e o oitavo maior da Capital. Ele é imenso não só em números, mas também em problemas, começando pelo desordenamento urbano. Nascido às margens do estuário do Rio Ceará, a localidade cresceu de forma irregular. Nos idos de 1970 eram centenas de casas construídas, em regime de mutirão pelos próprios moradores. Hoje o cenário é de caos.
Na falta de onde mais construir, habitantes cometem o crime de "levantar" as moradas em cima do mangue, dentro do leito marítimo, sufocando e matando, aos poucos, o já sofrido espelho de água, um dos mais importantes do Estado. Visto de longe, nem parece que a região é uma Área de Proteção Ambiental (APA), tamanho é o adensamento populacional.
Além do problema da "invasão" das casas sob o mangue, há outros que preocupam os moradores. Demanda por mais escolas e creches, reclamação da sujeira nas ruas e esgotos à céu aberto, precariedade no único posto de saúde e muitas queixas da falta de segurança. Apesar da lista de "broncas", a merendeira Ana Valentina Silveira, 37, diz sentir muito orgulho de morar na casa que ela mesma ajudou a "subir" os tijolos.
"Hoje está ruim, mas quando viemos morar aqui, lá pelos anos 1980, isso era um sonho, era a cidade do futuro, cheia de conjuntos habitacionais todos erguidos em regime de mutirão. Era bonito ver todo mundo se ajudando e enfrentando os problemas. Nossa marca é a solidariedade", afirma. A merendeira lembra ainda de quando estava grávida e, mesmo assim, botava a mão na massa.
Pela característica de conjunto, o bairro atualmente é divido em quatro etapas, o Vila Velha I, II, III e IV além de ter ruas marcadas em formato "xadrez", com nomeações com letras do alfabeto. Já que a características do Vila Velha é a formação dos grandes conjuntos, sobram opções de nomes: Assunção, Nova Assunção, Conjunto dos Bancários, Planalto da Barra e Beira Rio, são alguns deles.
Por ter sido criado, assim, de modo comunitário, todo mundo parece se conhecer. É uma tal de Socorro do Assis, de Rita do Cláudio, de Zé da Mercearia. É a grande família da Vila Velha. Mas, com esse regime de mutirão, também surgiram "embaços". A maioria dos moradores não possui papel da casa, não conseguem comprovar a posse das moradoras. "Ainda sofremos com isto. Precisamos de uma regularização fundiária urgente", afirma a liderança comunitária, Assis Leal, 52.
Entretanto, não há só do que lamentar no Vila Velha. Há também boas experiências culturais e artísticas. Entre elas, a Associação Vidança Cia de Dança do Ceará, presidida pela bailarina Anália Timbó, que trabalha com cerca de 250 crianças do bairro ensinando arte e realizando sonhos.
Há também a presença do Projeto Emaús que oferece aulas de reforço e ambulatório médico. No mais, o Vila Velha possui um jornal impresso, formado por jovens da comunidade, para denunciar e informar, é o Vila Notícia.
Fique por dentro
Histórico
O bairro Vila Velha surge da demanda por moradia em Fortaleza. Diante da crise da habitação, o Estado tenta amenizar a situação erguendo uma série de conjuntos habitacionais.
Estes foram feitos em sistema de mutirão divididos em quatro partes Vila Velha I, II, III e VI (construídos a partir da década de 1990), e loteamentos que atualmente dão lugar aos conjuntos habitacionais Polar, Planalto da Barra, Bancários Nova Assunção e Beira Rio (erguidos entre 1970-1980).
As casas foram construídas por etapas, sendo a primeira iniciada em 1991. Foram construídas 150 casas e a origem dos moradores é do bairro Jardim Iracema.
Equete
Problemas de sobra
"Um dos maiores problemas do bairro é a falta de creches para as mães colocarem os filhos enquanto trabalham. Tem uma que fechou há anos"
Socorro Araújo
62 anos
Dona-de-casa
"Para mim o que mais atrapalha é a falta de Posto de Saúde para atender a multidão de gente que mora aqui, precisamos de mais médicos"
Sílvia dos Santos
24 anos
Dona-de-casa
"Tem que melhorar muito a segurança. Apesar do Ronda do Quarteirão, todo dia tem assalto e morte por causa dos meninos que vivem de usar drogas"
Socorro Campos
60 anos
Aposentada
OCUPAÇÃO IRREGULAR
Não há projetos para remoção
O Vila Velha parece divido em dois: aquele com casas oriundas dos mutirões e os ditos casebres que foram construidos irregularmente nas margens do Rio Ceará. Moradores chamam de "invasão" as tais moradas em cima do mangue.
Por estarem em uma área alagada, as habitações correm o risco de desabar, reclama o técnico em eletrônica, Sebastião da Silva, 39, lamentando as rachaduras na parede e os alagamentos quando chove na Capital. "Sei que estou morando em um mangue, que não devia estar aqui, mas não tenho outro lugar para ir", lamenta.
O pior é que os órgãos que deveriam retirar os moradores e garantir a proteção dos ecossistemas parecem estar de "mãos atadas". Não há, segundo o gerente da APA do Rio Ceará e técnico da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), Adahil Garcez, prazo algum para retirada das famílias na margens do estuário, no Vila Velha IV.
"Lá é uma área altamente precária, insalubre e de risco. É preciso uma ação coletiva, mas está difícil, não sabemos ainda como vamos resolver esse problema de crime ambiental", lamenta o gerente da APA da Semace.
No canto da casa, com os pés sujos de lama e um siri apanhado de dentro do Rio Ceará, o estudante Lindenberg Silva, 12, conta que vai almoçar o pequeno crustáceo a fim de não ficar com fome. "Tem dias que só falto morrer, sem ter o que comer. Não dá nem para pescar com a água seca", conta a criança magricela.
Sobre a falta de escolas, a Secretaria Municipal de Educação, esclarece que uma nova creche será inaugurada em abril e a localidade tem três escolas públicas e três Centros de Educação Infantil. Na área da saúde, há o Centro de Saúde João Medeiros e o Hospital Distrital Governador Gonzaga Mota.
Contradições
Bom
Nas conversas entre os moradores mais antigos pode-se perceber que a maioria deles se conhece, existe um censo de comunidade muito forte, visto que boa parte dos que lá habitam chegaram juntos, ocupando os mesmos conjuntos habitacionais construídos há 30, 40 anos. O espírito de solidariedade é forte tal qual a vida cultural do local com a presença de dezenas de grupos artísticos.
Mau
Um dos pontos negativos do bairro é a sujeira e a falta de cuidado com os bens naturais tais como o Rio Ceará, o estuário, as margens e o mangue da Área de Proteção Ambiental. Foi percebido um descuido com o lixo, falta de políticas públicas de educação ambiental. Com isso, muriçocas, baratas e ratos são facilmente encontrados em uma simples volta pelas ruas do Vila Velha I, II, III e IV.
IVNA GIRÃO
REPÓRTER