Diário da Pandemia: 5 dias da rotina de profissionais em plantões da linha de frente da Covid no CE

O Diário do Nordeste registrou, sob o ponto de vista de enfermeiras e médicas, a rotina das internações nas unidades Covid. Em áudio, por escrito e com imagens, de 8 a 12 de março, as profissionais narraram o árduo dia a dia

Olhar nos olhos da dor. Quase todos os dias. Da linha de frente contra a Covid, montada há um ano, só é possível sair, em curtas fugas, para o descanso no lar. Não sem medo, não sem levar as imagens da batalha repetitiva, não sem preocupações. Nos hospitais que têm pacientes com Covid no Ceará, a função de garantir assistência, sobretudo, em condições adversas, tem sido reiterada, dia após dia, nos últimos 365. O encontro com o vírus, materializado em corpos e mentes debilitadas, é rotina.

Passado um ano do registro oficial dos 3 primeiros casos da doença no Ceará, o que dizer do cotidiano? O que é possível contar sobre o que sente, vê e faz nas unidades de saúde?

Com a limitação de acompanhar o trabalho em campo, a proposta feita pelo Diário do Nordeste, e aceita por quatro profissionais da linha de frente, foi a de deixar transparecer o que ocorre nos sucessivos plantões e recontar o dia a dia, em áudio, por escrito e com imagens durante cinco dias seguidos.

De 8 a 12 de março, registramos a pandemia sob o ponto de vista de enfermeiras e médicas que, embora erguidas à representação do heroísmo, mostram-se, tão humanas, quanto imprescindíveis.   

No diário de Cinthia Queiroz Lima, enfermeira do Hospital Leonardo da Vinci; de Kariny Maria Costa, enfermeira do Hospital do Coração; e de Mayna Moura, obstetra no Hospital César Cals, as três unidades em Fortaleza; e de Geórgia de Oliveira, médica intensivista do Hospital Regional do Cariri, em Juazeiro do Norte, sobre as internações na segunda onda, constam desabafos, observações, preces e, vez em quando, comemorações.

As narrativas se cruzam, ainda que distantes. Angústias que só têm leveza quando o veredito é: está melhorando, vai sair da UTI, teve alta! 

Segunda-feira - 8 de março de 2021

Dia Internacional da Mulher. A semana começou com o Brasil ultrapassando a marca de 265 mil mortos pela Covid. Ao menos, 12,1 mil vítimas eram do Ceará. A obstetra Mayna Moura, que atua no Hospital César Cals, no Centro de Fortaleza, após 6 meses, voltou ao centro cirúrgico geral para operar uma paciente com Covid.

Há seis meses, ela também não entrava em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para avaliar pacientes, e no sábado (6), retomou o procedimento, com: propés (proteção para os pés), 2 capotes (aventais cirúrgicos) , 2 máscaras, óculos, face shield e toca, além de calor, ansiedade, adrenalina e medo, escreveu ela.  No domingo, Mayna folgou. 

Nas segundas-feiras, Mayna passa o dia no hospital. Pela manhã na emergência e à tarde no ambulatório de pré-natal de alto risco. 

> Relato Mayna:
“Durante o plantão, pude perceber uma diminuição no número de atendimentos gerais, mas manutenção da alta procura de gestantes com sintomas respiratórios e suspeita de Covid. O caso que mais chamou atenção foi de uma gestante que estava em trabalho de parto, chegou trazida por uma conhecida de trabalho e teve sua bebê ainda no carro.

Prestamos toda a assistência ao parto na porta do hospital, ainda dentro do carro, pois, não daria tempo de transportar a paciente para a sala de parto. Após prestarmos toda a assistência ao parto, fomos conversar com a paciente sobre seu histórico gestacional e, ao interrogar sobre possíveis queixas gripais.

A paciente confirma alguns sintomas e é classificada como suspeita, tendo que ser transferida para o setor de isolamento para realizar exames investigatórios. Ainda no hospital, sou informada que a paciente que operei sábado continua em estado grave”. 

Naquele 8 de março, exaustivo para Mayna, o Governo Federal anunciou, após recusar ofertas feitas pela Pfizer, que 14 milhões de doses da vacina da farmacêutica devem chegar ao Brasil em maio e junho. No mesmo dia, a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) abriu o cadastro da vacinação para todas as pessoas dos grupos prioritários.  

Terça-feira - 9 de março de 2021

Nesse dia, o debate público tinha como foco a movimentação no Supremo Tribunal Federal e as decisões quanto às questões relacionadas ao cenário político. A enfermeira Kariny Maria Costa, atua em uma UPA e no Hospital de Messejana. Naquele dia ela estava na enfermaria da UPA e seguiria no dia seguinte para a UTI do hospital. Na UPA recebeu o plantão com 12 pacientes graves. Na madrugada, durante as 3 horas de descanso, ela narra:

> Relato Kariny:
“Daqui a pouco eu volto pra terminar o plantão e voltar lá pro hospital de Messejana. Mas é isso. É uma rotina muito pesada, muito cansativo. Todos os profissionais muito doados. Mas o cansaço é grande. A gravidade dos pacientes aumentou muito. A gente observa que tem muito mais homens internados do que mulheres. Não sei ainda explicar o motivo.

E assim foi meu plantão na enfermaria. Agora à noite eu estou na UPA, como eu já havia dito, e amanhã eu estou na UTI. Então, amanhã já vamos ter outras novidades. Amanhã, provavelmente, os pacientes serão já pacientes entubados. Em uso de ventilação mecânica”. 

Em Juazeiro do Norte, a médica Geórgia de Oliveira, que mora em Brejo Santo e trabalha no Hospital Regional do Cariri, havia despertado às 3h. Na semana, dá plantão diários e diurnos. 

> Relato Geórgia:
 “Tenho que correr, o HRC me espera. Mais uma vez sacudo a cabeça pensando nos 10 pacientes graves que me esperam. No carro vou escutando minhas músicas favoritas e aproveito pra tirar um pouco a n95 (máscara), checo o rosto no retrovisor, bochechas marcadas. No Regional, no elevador, escuto conversas aleatórias sobre o clima, a chuva, e quando desço no segundo andar olhares fuzilantes e temerosos me acompanham. Porque desci no andar de número 2. Já tô acostumada com o preconceito em torno de quem trabalha no Covid.

Hoje vai ser difícil. Troco de roupa. Recebo o plantão tenho, 1 vaga que já está reservada, 2 tubos pra tirar e 2 pronas pra fazer. Partiu. Aguardo um dos computadores liberar, sento na bancada. Meu telefone está silencioso. Checo a tela tem 59 mensagens no whats. Na maioria pedindo informações de pacientes. Mas agora não posso responder. 

O técnico da diálise chama, 'dra a pressão do leito 216 da baixando, subo a nora [noradrenalina]?'. Aí pergunto: tá em quanto agora? e ele responde 50. Um frio sobe a espinha. Apresso o passo e encontro o paciente com várias bombas infusoras, muitas drogas. Autorizo ele a subir um pouco mais. Chego na cabeceira do leito. Me aproximo mais como que pra conversar com ele. Uma lágrima saindo do cantinho. Enxugo. Falo no ouvido dele que dê pra escutar no quarto inteiro: vai ficar tudo bem”. 

Nesse mesmo dia, Geórgia, junto à Assistência Social do hospital, garante a organização das “visitas”. Por ligação há choro, desespero, mas também muita esperança, relata. O plantão termina às 20h. Em casa, o encontro com a mãe e o marido relembra o medo cotidiano de se contaminar e contaminá-los.  

Quarta-feira - 10 de março de 2021

Com 2,3 mil vidas perdidas em 24 horas: o Brasil tem o dia mais letal desde o início da pandemia. Naquela data, o Ceará recebeu o 8º lote de vacinas contra a Covid. Ao todo já foram recebidas 805 mil doses. A enfermeira Cinthia Queiroz Lima, que há 12 anos atua na profissão, e desde o dia 23 de março de 2020 está no Leonardo da Vinci, encerra mais um plantão às 8h10min. 

> Relato Cinthia:
“Graças a Deus hoje foi um dia tranquilo. Na nossa unidade, temos 18 leitos. Eu passei o plantão com 16 pacientes e aguardando receber 2 pacientes das UPAs que estão regulados pra fazermos as admissões no período noturno. Hoje foi um dia de alegria. Ontem foi um dia mais tenso. Porque a gente teve um paciente que complicou e infelizmente teve que ficar entubado. Porque não estava mais suportando ficar só no Elmo. Mas hoje foi um dia sem intercorrências.

Um dia feliz porque um dos nossos pacientes, que estava conosco há onze dias, paciente de 74 anos, conseguimos deixá-lo em área ambiente. Sem o uso de oxigênio. Ele chegou muito grave, prestes a ser intubado e a gente conseguiu, com toda a equipe multiprofissional, fazer o desmame. 

Hoje tivemos duas altas, uma alta de uma paciente que veio da Pacatuba, que já estava conosco há oito dias. De 72 anos. Saiu muito bem. Respirando sem oxigênio. Ficou muito emocionada. Saiu sobre a nossa salva de palmas no nosso corredor da vitória. Hoje foi um dia de vitórias, né? De duas altas, né? Então, hoje foi um dia de mais alegrias do que de tristeza”.

No Hospital de Messejana, a enfermeira Kariny conta:

> Relato Kariny:
“Hoje os pacientes que eu fiquei foram pacientes de UTI, 8 pacientes na UTI que eu estava, pacientes sem ventilação mecânica, dependendo de oxigênio, de drogas e vasoativas, pacientes bem graves. E pacientes jovens, tinha idoso, mas tinha pacientes jovens também.

Graças a Deus não morreu ninguém no meu setor. Mas, tentamos levar um deles pra fazer um exame de tomografia, quando nós colocamos o paciente no respirador portátil, o paciente não suportou, saturou. Então, não chegamos nem a sair da UTI, voltamos o paciente pro ventilador, porque ele não suportaria o percurso até a tomografia”. 

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Quinta-feira - 11 de março de 2021

A partir dessa data, a Sesa informa que todo morador do Ceará, que tenha acima de 18 anos, já pode se cadastrar na plataforma digital para vacinação contra a Covid. Mas ainda não há data para começar a vacinação do público geral. No Estado, a Sesa também comunica que pessoas a partir de 70 anos vacinadas têm taxa de internação 46% menor que a de não vacinados, conforme análise preliminar. 

Em Fortaleza, no Leonardo da Vinci, a rotina segue com intensas demandas. Às 19h4min, Cínthia encerra mais um plantão. 

> Relato Cinthia

“Foi um dia longo, cansativo, foi um dia feliz pra alguns pacientes que receberam alta, mas um dia triste por aqueles que, infelizmente, não conseguiram sobreviver. Dos pacientes de ontem da clínica, todos os estáveis receberam alta hoje. E eu me emocionei muito. Hoje foi um dia com emoção bem misturada, alegria com tristeza.

Alegria porque eu vi pacientes chorarem indo pra casa. Dos 16 pacientes que a gente recebeu, 6 receberam altas.  Com 4 deles eu presenciei a saída. E eles saíram sob aplausos. Com lágrimas, lágrimas de alegria, esperança. E foi bem comovente a despedida. Alguns deles já estavam há alguns dias conosco. E saíram elogiando, agradecendo. Falando que foram bem atendidos. Isso não tem preço pra gente que lida na linha de frente há um. É o que me conforta e me dá paz". 

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No Cariri, a situação também envolvia cansaços, tensões e alívios. A médica Geórgia, além do Regional do Cariri, atua no Instituto Madre Teresa de Apoio à Vida (IMTAVI), antigo hospital geral de Brejo Santo. 

> Relato Geórgia:
“Quase não consegui dormir. Olhava meu esposo. Será que vou perdê-lo? Que vou passar pela mesma dor que vi estampada no rosto de tanta gente? Levantei às 6h e o levantei pra irmos ao hospital. Fomos fazer o swab. Tinham sido 9. E o que é que tem? Nada demais pra quem quer escapar da doença. Exame coletado. Em poucas horas saberemos o resultado.

Fiquei aqui no hospital mesmo. IMTAVI, antigo HGBS, já são tantos anos. Hoje são 31 famílias daqui que se desesperam, que brigam, que se descontrolam. 

Na enfermaria 13, vejo rostos bem melhores e mãe e filha de alta, sem oxigênio se abraçando e agradecendo a Deus pela vitória. Escaparam. Lembro do dia da chegada delas aqui. Saturação abaixo de 70, a filha gestante com idade gestacional, tempos de ganhar e parir. Realizada cesárea, foi pra UTI e a mãe também com indicação, mas sem vaga. Vai dar certo. E deu. Deus abençoou”.

Sexta-feira - 12 de março de 2021

O Diário Oficial do Estado traz um novo decreto que regulamenta a situação de lockdown no Ceará inteiro. A medida havia sido anunciada no dia anterior pelo governador Camilo Santana. As restrições, que passaram a valer no sábado, 13 de março, seguem até o dia 21 de março. A medida permite apenas o funcionamento de atividades essenciais. 

No Hospital César Cals, Mayna registra:

> Relato Mayna:
“Estou novamente de plantão na emergência e, como não poderia ser diferente, atendi muitas gestantes contaminadas com sintomas leves e uma bastante grave com indicação de cuidados em terapia intensiva. Finalizo uma semana de muito trabalho, muito cansada mas com a sensação de dever cumprido e grata a Deus pela minha saúde e da minha família”.

Em Messejana, a enfermeira Kariny segue entre perdas, muito trabalho, e algumas vitórias.
 
> Relato Kariny: 
“Eu recebi o plantão hoje na UTI com sete pacientes. Um foi a óbito de manhã cedo, um paciente já idoso, que já tava há muito tempo lá. Durante o dia, nós também perdemos outra paciente.  Uma paciente que já tem uma doença de base complicada, já tinha DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica), já tinha algumas complicações. No final do plantão houve outro óbito. Então foram três óbitos na nossa UTI.

Nossas enfermarias não estão mais suportando acompanhar o ritmo dos pacientes, porque eles tão chegando cada vez mais graves. Vi a correria dentro do setor, tentando transferir paciente, transformar a nossa enfermaria em mais leitos de UTI. Os pacientes estão sendo entubados dentro das enfermarias. Não tem mais o que fazer. O hospital está na luta, tentando conseguir material pra poder a gente conseguir salvar a vida dessas pessoas”.

Segunda-feira - 15 de março de 2021

Um ano após os 3 primeiros registros oficiais de Covi no Ceará, 12,2 mil pessoas morreram. Destas, 51 eram profissionais da saúde. As UTIs e enfermarias continuam lotadas. Os lutos se sucedem.

Nesse tempo, das quatro profissionais, apenas a enfermeira Kariny foi contaminada pelo coronavírus. Todas já receberam as duas doses da vacina contra a Covid. E seguem olhando nos olhos da dor, quase todos os dias. Trabalham e torcem por um tempo de mais vidas salvas.