Ídolo. Significado: por quem se tem grande admiração ou representação de um ser fantástico. No futebol, esporte que mexe diretamente com a paixão das pessoas, a palavra é referida, em quase todos os casos, para jogadores. Entretanto, para um time que tem 11 anos de profissional e que é considerado “Um clube que tem as suas particularidades”, um mineiro pode fincar seu nome na trajetória recente do Floresta. Aos 47 anos de idade, Leston Júnior está a um passo de conquistar mais um acesso à frente do Lobo e a história do treinador e do clube ficam quase que entrelaçadas.
Neste sábado (10), o treinador pode aumentar ainda mais seu status de ídolo do clube caso vença o Maringá e, assim, selar uma histórica classificação para a Série B de 2027.
COMO TUDO COMEÇOU
Filho do ex-jogador Leston Isaías, que teve longa passagem pelo Cruzeiro, Leston Júnior se apaixonou quando criança pelo futebol e, como boa parte dos jovens, sonhava em se tornar atleta. Entretanto, com o sonho interrompido pelo próprio pai, que o instruiu a procurar algo “menos inconstante”, o garoto natural de Divinópolis decidiu estudar para seguir trabalhando com o esporte.
“Fui estudar, fui fazer educação física e comecei muito novo, né, a trabalhar com o futebol. Sou o treinador mais jovem da história do América Mineiro e do Cruzeiro a dirigir uma categoria de base desses clubes. E, a partir dali, eu comecei essa trajetória, essa caminhada que já se vão aí 23 anos, né, trabalhando efetivamente com futebol de alto rendimento.”
PROPÓSITO DE VIDA
Seguindo seu sonho e trabalhando com sua paixão, mesmo começando nos times das categorias de base em Minas, como Cruzeiro e América Mineiro, Leston Júnior admite ter encontrado o sentido da sua vida à frente do campo. Para além disso, nos bastidores, o treinador busca impactar e melhorar as vidas de seus jogadores, utilizando o futebol como ferramenta social.
Segundo o comandante, boa parte dos atletas são poucos ajudados ao longo do processo de se tornarem profissionais. Nesse sentido, o papel do treinador ultrapassa o limite tático e a busca incessante somente por bons resultados.
“Eu digo que eu sou pago para ganhar jogo, eu sou pago para conquistar títulos, acessos, etc. Mas o que dá sentido e o que eu faço é verdadeiramente tentar impactar positivamente na vida dos atletas para que a gente possa ser uma ferramenta de transformação através do futebol.”
FORMA DE TRABALHAR E REFERÊNCIAS
Na sua carreira, Leston já comandou uma total de 16 clubes profissionais, como Remo, Botafogo-PB, Santa Cruz e América de Natal. Seguindo uma linha de conselheiro dos atletas, o comandante busca proporcionar um clima agradável e que reflita em bons resultados nos jogos.
O mineiro, inclusive, ressaltou que tem como referência treinadores que aplicam essa mesma forma de trabalho. Ainda no processo de formação para se tornar treinador, Júnior chegou a estagiar com grandes nomes do país como Dorival Júnior, quando ele treinou o Cruzeiro em 2007 e Muricy Ramalho, em 2012, quando comandava o Santos. Além dele, teve também proximidade com Fernando Diniz, atual treinador do Vasco e ex-Seleção Brasileira.
“A parte técnica e tática existem muitas maneiras de se ver futebol, então, não existe o certo e errado. Talvez as maiores referências que eu tenho enquanto treinador, ela está muito mais voltada para essa questão mesmo de perfil de gestão. Todos esses passam muito por essa condição de gestão, de conseguir a manutenção de um ambiente seguro para trabalhar.”
RELAÇÃO COM O FLORESTA
Depois de deixar as categorias de base e iniciar sua trajetória no futebol profissional, o treinador rodou diversos estados e assumiu times como Guarani-MG, Mogi Mirim-SP, Villa Nova-MG, Moto Club-MA, até chegar no clube que mais trabalharia na carreira, com 125 jogos: o Floresta Esporte Clube, equipe fundada em 1954 no bairro Vila Manoel Sátiro, em Fortaleza, mas que começou a atuar em campeonatos profissionais somente no ano de 2015, na Série C do Campeonato Cearense.
A relação dos dois, entretanto, começou a se interligar em 2020, quando assumiu o Verdão na primeira rodada da Série D. Vale ressaltar que a equipe tinha acabado de ter sido rebaixada para segunda divisão do Campeonato Cearense. Em meio à crise, a parceria entre o clube e o técnico foi imediata. No fim do ano, o Lobo fez campanha histórica na competição, conquistando o acesso à Série C e ficando com o vice-campeonato, perdendo a final para o Mirassol.
“O Floresta é um clube que tem as suas particularidades. É um clube de um proprietário que determina as diretrizes, os objetivos e em todas as oportunidades que eu tive, sempre me entregou aquilo que eu sempre busco quando chego num clube de futebol, condição de trabalho e estabilidade, possibilidade de introdução, implementação e realização de um planejamento. Então é um clube que eu tenho um carinho muito grande, pelas pessoas, pelo seu proprietário e sua família, pela forma sempre respeitosa e carinhosa, que sempre me trataram. Tudo isso já foi muito bacana no acesso para a Série C em 2020, com o vice-campeonato brasileiro.”
BUSCA PELO ACESSO À SÉRIE B
Desde 2021 na terceira divisão do Campeonato Brasileiro, o Lobo fez campanhas contra o rebaixamento na Série C nos anos seguintes e conseguiu se manter. Treinadores como Sérgio Soares e Marcelo Chamusca, com bagagem e bons trabalhos em clubes foram alguns que assumiram o comando do time no intervalo. Inclusive, o próprio Leston retornou à equipe em 2022 em segunda e rápida passagem.
Entretanto, a história dos dois realmente parece estar entrelaçada. Em meio à crise que o time vivia no início de 2025, conseguindo se livrar do rebaixamento para segunda divisão do estadual apenas nos playoffs do estadual, a diretoria do Verdão contratou o mineiro para sua terceira passagem. Dessa vez, tal como a primeira vez, o treinador conseguiu recuperar a equipe e quase levou o grupo ao inédito acesso.
Com confiança da diretoria no trabalho do treinador, o Floresta apostou na continuidade do comandante, no plantel de jogadores e até no trunfo do Estádio Domingão, em Horizonte, que é utilizado como espécie de amuleto para fazer uma campanha sólida.
Durante todo o campeonato, o espírito argentino pelo Floresta, conhecido por um futebol aguerrido e sério, contrasta com o ambiente de leveza entre a rotina de treinamentos, viagens e concentração para os jogos. Segundo o próprio técnico, a felicidade e boa harmonia foram as peças centrais do acesso histórico.
“Acredito que o diferencial dessa campanha é a felicidade que nós tivemos na montagem do elenco. No final de tudo, são as pessoas. O futebol é uma indústria de pessoas e nós tivemos uma felicidade grande de reunir muita gente com quem vivia um momento e que vinha ao encontro daquilo que nós estávamos propondo ali de usar uma competição tão dura como essa como grande oportunidade de vida”.
SONHOS E O FUTURO
Quando perguntado sobre o significado de um possível acesso à Série B com o Floresta, o treinador foi enfático em dizer que seria uma forma de consolidação do seu trabalho. Pode ser o terceiro acesso conquistado (subiu o Tupi em 2015 para B e o Floresta para C em 2020), além da conquista do Campeonato Paraibano com o Botafogo-PB.
Portanto, já projetando o futuro, ainda que tenha que concluir a temporada atual e quem sabe disputar o título nacional na final da Série C, caso consiga a liderança do Grupo B, o técnico admitiu a vontade de dirigir um time da Série A. Porém, até por “não ter isso como um sonho”, o mineiro ainda deixou em aberto sua permanência no clube cearense na próxima temporada.
“Para mim, o que importa hoje é continuar tentando fazer o melhor que eu posso para o Floresta.”