'Não subestimem a força da juventude', afirma Matuê sobre sucesso repentino

Em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, cantor cearense falou sobre infância, inspirações e os planos para trabalhos internacionais

Questões como "Quem é o Matuê?", "Ele é de que bairro de Fortaleza?" e "O que é trap?" permearam a timeline das redes sociais em um sábado de setembro. A resposta para os questionamentos estava no ranking do aplicativo de streaming musical Spotify, no qual o artista cearense ocupava seis colocações do top 10. Não era o ritmo do forró, muito menos música sertanejo.

O som derivado do rap levou Matuê ao topo. No domingo, a situação era semelhante no aplicativo Deezer. 
Matuê, 27, nasceu em Fortaleza. Aos oito anos, deixou a Capital cearense para viver com os pais em Oakland, na Califórnia, em busca de uma melhor condição de vida. Com 12 anos, retornou para o Ceará e vive até hoje na cidade natal. O gosto pela cultura e pelas artes foi atiçado pela avó. 

“Tenho uma figura importante na minha vida, que já se foi, que é a minha avó. Ela era professora de artes, música e literatura. Desde criança, tive contato com a arte, principalmente a nordestina. Essa questão de valorizar o Nordeste, principalmente Fortaleza, é uma coisa bem presente na minha música muito por isso”, conta o cearense.

“Busco trazer as gírias, as expressões e a revolta que existe nas pessoas da periferia em relação ao sistema”, é o que define Matuê sobre o que escreve e canta. Ao mesmo tempo, ele reconhece que não enfrentou tantas dificuldades na vida por ter tido privilégios familiares.

Em “Máquina do Tempo”, primeiro álbum da carreira, a canção “É Sal” é destacada por Matuê como um grande “salve a Fortaleza”. Segundo ele, o objetivo, nessa música, foi trazer um pouco mais de consciência em torno das dificuldades que muitas pessoas passam. “Não foi em nenhum momento representar a minha situação, porque sou uma pessoa privilegiada, graças a Deus. Nunca tive que passar por nada disso e reconheço. Mas conheço e tenho convívio com vários que passam por dificuldades todos os dias”, revela o cearense.

Ascensão 

“Máquina do Tempo” foi lançado pela 30PRAUM e Sony Music. O primeiro álbum de Matuê é todo autoproduzido. Em oito músicas, uma jornada que envolve um mundo digno das melhores ficções científicas de Hollywood e psicotrópicos. O cearense credita o sucesso repentino do repertório nos aplicativos de streaming à juventude.

“A gente não pode subestimar nunca a força dos jovens em torno daquilo que eles têm interesse em fazer e empurrar para frente. Desde o início da nossa caminhada, a gente se propôs a fazer algo com excelência. Queríamos um projeto que fosse inovador para criar um vínculo com quem nos escuta”.

Lugares citados 

Os bairros Aldeota, Praia de Iracema, Serviluz e Pirambu são ressaltados em boa parte das composições. “Tá nevando em Fortal, já resgata o Manaus. Mas vai pela sombra. Quem tá andando com Deus, nunca se assombra. Os homi tão na esquina cortando a lombra. Peugeotzin no Titanzin, vai cortando a onda”, diz a letra “É Sal”. 

Com o trap, subgênero musical derivado do rap que se originou na década de 1990, no sul dos Estados Unidos, em Atlanta, Matuê ascendeu. O som é caracterizado por conteúdo agressivo e incorpora bumbos sub-baixo, em tempo duplo, triplo e outros mais rápidos de divisão chimbais, além da presença sintetizadores de som.

De nome estrangeiro a ressaltar no ritmo, Matuê cita o trabalho do americano Young Thug. “Não que eu busque fazer nada parecido com ele. Entendo que o meu negócio é uma coisa, e ele, outra. O que valorizo muito dentro do que ele trouxe foi a atenção voltada para o sul dos Estados Unidos. Uma área como se fosse, traçando um paralelo, o Nordeste. É como se fosse uma cultura mais parecida com a nossa, tanto no jeito de falar como nas expressões. Ele mostra que você não precisa ser de Nova Iorque ou Los Angeles, do Rio de janeiro ou São Paulo, para se dar bem nessa caminhada”. 

Marcada pelo som sintetizado do eletrônico, o cearense conta que as composições dele nascem sem amarras. “O meu processo criativo não tem muita escrita, a não ser que queira destrinchar um assunto. É a captura de um sentimento do momento. Busco não ter barreiras. Quando chego ao estúdio, não tenho engenheiro de som ou alguém que faça nada por mim, eu mesmo que faço. O meu processo é bem livre. Muitas vezes, não busco analisar escrita, é mais o freestyle, de está ali cuspindo no microfone as ideias”, descreve. 

“Máquina do Tempo” no Brasil ainda é um álbum em descoberta, mas o desejo pelo boom internacional é uma realidade. “Por mais que eu fale outra língua, é diferente de eu viver a cultura do rap lá fora. Acredito que essa transição será natural. Tem coisa sendo trabalhada”.