Chefs de cozinha se voluntariam para produzir 600 quentinhas para pessoas em situação de rua

A doação desses alimentos e de kits com produtos essenciais acontece nesta quarta-feira (13), por meio de uma parceria envolvendo chefs de cozinha, a Ong AmeBem e algumas empresas da Capital

Não há dúvidas de que o novo coronavírus afastou fisicamente muita gente, fazendo com que outras formas de contato fossem estabelecidas. Neste sentido, entre os sentimentos que a pandemia despertou, é preciso destacar a empatia. E é seguindo este princípio, de se colocar no lugar do outro, que nove chefs de cozinha renomados de Fortaleza se unirão nesta quarta-feira (13), em um projeto para alimentar pessoas em situação de rua, não só com comida, mas também com esperança.

A iniciativa partiu de uma conversa informal entre amigos. A diretora de Gastronomia do La Maison, Izabela Fiuza, chegou à conclusão de que precisava fazer alguma coisa para ajudar quem mais necessita durante este período. Dessa forma, ela, Anna Paula Rezende, Leo Gondim, Edil Costa, Freitas Júnior, Wladimir Ponte, Alain Tortosa, Elcio Nagano e Felipe Viana decidiram realizar uma ação focada em produzir 600 quentinhas de macarrão à bolonhesa, acompanhadas de itens como água, biscoito, colheres, álcool em gel e máscara para pessoas em situação de rua. 

A ideia que, à princípio, contava com poucos colaboradores, foi se espalhando. Logo, fez-se necessário um lugar amplo para abrigar os preparativos, e o escolhido foi o La Maison, por oferecer uma estrutura que permite maior produção. “Foi tomando forma e foi crescendo”, relembra Izabel.

Quem cozinha

Os chefs escolhidos para produzir a refeição já têm algum tipo de relacionamento com trabalhos sociais. “A maioria dos projetos que eu realizei foi na França, porque nasci lá, e fiz também pequenas atividades na Praia de Iracema”, diz Alain Tortosa, um dos profissionais convidados. “A gente queria fazer uma coisa que não fosse só o alimento, mas focado no respeito com as pessoas que estão em situação de rua. Achamos ruim ficar em casa, mas imagine essas pessoas que não têm onde ficar. Queremos atingir essas áreas que não são sempre assistidas”, acrescenta o professor de Gastronomia da Universidade Federal do Ceará, Leo Gondim. 

Todos os participantes concordam que a ação tem um peso especial por ser promovida em meio à pandemia de coronavírus. “Tem muita gente necessitada, quanto mais procuramos saber quem precisa, mais bate essa vontade de ajudar. Eles já precisavam normalmente, mesmo se virando do jeito que podiam”, reflete o chef Wladimir Ponte. Anna Paula Rezende, uma das convidadas para cozinhar, acredita que a doença pode revelar novas sensações de convívio

“Essa pandemia veio para mostrar o sentimento que o ser humano tem um pelo outro. Todo mundo estava muito egoísta. Essa doença veio para nos aproximar”.

Parceria

Outra peça importante nessa rede de solidariedade é a AmeBem. A ONG começou a atuar em 2013, apenas como um grupo de amigos decididos a levar um “sopão” a pessoas em situação de rua. Há dois anos, eles se organizaram em uma associação para que pudessem ter apoio de entidades parceiras da causa. 

Hoje, a principal ação da AmeBem ainda é a distribuição da sopa, que acontece diariamente, às 19h, na Praça do Bisão, no Mucuripe. Lá, eles oferecem ainda uma espécie de contêiner, com três banheiros e um mictório. Devido à pandemia, o trabalho se estendeu para outros bairros de Fortaleza, a fim de levar orientação para mais comunidades carentes. “Por conta da Covid-19, a demanda social tem aumentado”, informa o voluntário Fredy Albuquerque.

Na ação, em parceria com os chefs, a administração do La Maison e demais empresas envolvidas, a associação terá o papel de distribuir as quentinhas para os beneficiados e mostrar onde está essa população que precisa de assistência. Os locais mapeados para a doação são: Favela do Pau Finim, Contêiner da AmeBem no Mucuripe, Praça do Náutico, e avenidas Monsenhor Tabosa, Beira Mar e Abolição.

Preparativos

Para que a produção funcione de forma lógica, todos os voluntários foram divididos em três equipes: cozinha, montagem e gift kits - sendo estes o conjunto de itens essenciais que cada beneficiado receberá. Os chefs serão separados em duas cozinhas para acelerar o processo, de acordo com o passo a passo do macarrão à bolonhesa, e claro, para evitar aglomerações.

Os materiais usados nos kits foram doados principalmente por empresas parceiras, a exemplo da Indaiá, que cedeu água para acompanhar as porções de comida. Segundo Izabela, a ação recebeu produtos suficientes para produzir maiores quantidades de quentinhas do que foi proposto, mas a intenção é trabalhar com cautela, já que esse tipo de alimento tende a ser perecível. Por isso, a equipe de voluntários deve fazer um segundo dia de distribuição, ainda com data a definir.

Precauções

Como o assunto é produção alimentícia, é inevitável falar sobre os cuidados na preparação. Além da divisão dos chefs em espaços diferentes, as medidas básicas de proteção contra o novo coronavírus estarão em vigor. “O uso de máscaras é evidente. Teremos outros cuidados, como lavar as mãos com sabonete e passar álcool em gel, higienizar os utensílios e cuidar da procedência dos alimentos usados”, conta o chef Alain Tortosa. 

Leo Gondim cita precauções mais específicas no ambiente da culinária, a exemplo da limpeza do local de trabalho. Evitar conversas, para não haver possibilidade de propagação do vírus, é outra medida necessária. 

O chef Wladimir Ponte garante que todos esses cuidados já estão incluídos na rotina de um profissional gastronômico, e por isso serão bem executados. “Já é o nosso dia a dia, já sabemos o que fazer”, ressalta. 

Para a entrega dos kits, o presidente da AmeBem, Aldemir Nunes, pontua algumas medidas de segurança, que segundo ele, são de fácil aplicação. “Não tem aglomeração, fornecemos água e sabão pra lavar as mãos e mantemos a distância adequada”.