Supervulcão japonês volta a acumular magma após 7.300 anos da grande erupção

Estudo identificou uma grande reserva de material parcialmente derretido sob a Caldeira Kikai, no Japão.

Escrito por João Lima Neto joao.lima@svm.com.br
25 de Outubro de 2026 - 09:46 (Atualizado às 09:58)
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Legenda: Iōdake (ou vulcão Iō-dake), o pico vulcânico ativo da ilha de Satsuma-Iōjima (ou apenas Iōjima), localizada no Japão, que faz parte da famosa Caldeira Kikai.
Foto: Nagoya Tarō / Wikimedia Commons.

Um supervulcão localizado no sul do Japão voltou a chamar a atenção dos cientistas após um estudo identificar uma grande reserva de magma sob a estrutura.

A descoberta foi feita na Caldeira Kikai, palco de uma das maiores erupções vulcânicas dos últimos milhares de anos, ocorrida há cerca de 7.300 anos.

A pesquisa, publicada na revista científica "Communications Earth & Environment", indica que material parcialmente derretido está presente em uma região relativamente rasa, entre 2,5 e 6 quilômetros de profundidade.

Os resultados sugerem que o sistema vulcânico continua recebendo material proveniente do interior da Terra, mesmo muito tempo depois da erupção que formou a caldeira.

Apesar da descoberta, os pesquisadores não afirmam que uma nova erupção de grandes proporções seja iminente.

O estudo busca entender como o magma volta a se acumular depois de uma explosão gigantesca e quais processos podem contribuir para a recuperação desses sistemas vulcânicos.

Erupção antiga liberou enormes quantidades de material vulcânico

(A) Mapa batimétrico da área estudada, com a linha vermelha indicando o trajeto da pesquisa sísmica e o quadrilátero destacando a Caldeira Kikai. (B) Modelo da velocidade das ondas sísmicas no subsolo, que mostra quatro regiões com características distintas e ajuda os pesquisadores a investigar a estrutura subterrânea do vulcão.
Legenda: (A) Mapa batimétrico da área estudada, com a linha vermelha indicando o trajeto da pesquisa sísmica e o quadrilátero destacando a Caldeira Kikai. (B) Modelo da velocidade das ondas sísmicas no subsolo, que mostra quatro regiões com características distintas e ajuda os pesquisadores a investigar a estrutura subterrânea do vulcão.
Foto: Reprodução/Communications Earth & Environment

A Caldeira Kikai fica no mar, ao sul da ilha japonesa de Kyushu. Há aproximadamente 7.300 anos, o vulcão protagonizou a chamada erupção Kikai-Akahoya, um evento de de grandes proporções que lançou grandes quantidades de material vulcânico para a atmosfera e para as áreas ao redor.

De acordo com estimativas reunidas pelos pesquisadores, a erupção liberou um volume equivalente a aproximadamente 133 a 183 quilômetros cúbicos de rocha sólida.

Explosões dessa magnitude podem esvaziar parcialmente grandes reservatórios subterrâneos de magma. Com a retirada de tanto material, o terreno acima pode afundar, formando uma depressão extensa conhecida como caldeira.

No caso de Kikai, a atividade vulcânica não terminou definitivamente com a grande erupção. Ao longo dos milênios seguintes, o vulcão continuou apresentando sinais de atividade, incluindo a formação de uma grande estrutura de lava na região central da caldeira.

Como os cientistas descobriram o magma

Para investigar o que existe abaixo do fundo do mar, a equipe realizou uma pesquisa sísmica.

O trabalho foi conduzido com 39 sismômetros instalados no fundo oceânico e equipamentos que produziram ondas sonoras por meio de canhões de ar comprimido.

Essas ondas atravessam as camadas subterrâneas e retornam com características diferentes dependendo do material encontrado pelo caminho.

Ao analisar as mudanças na velocidade das ondas, os cientistas conseguem identificar regiões que podem conter rochas quentes, materiais parcialmente derretidos ou magma.

Os resultados revelaram uma área em que as ondas sísmicas se deslocam mais lentamente, localizada diretamente abaixo da Caldeira Kikai. Essa característica indica a presença de uma grande região com material menos rígido do que as rochas sólidas ao redor, compatível com um reservatório de magma.

A estrutura foi identificada entre 2,5 e 6 quilômetros de profundidade. Os cálculos dos pesquisadores estimam que apenas cerca de 3% a 6% do volume dessa região seja composto por material fundido, embora a proporção possa chegar, no máximo, a aproximadamente 10%, conforme as limitações do modelo utilizado.

Isso significa que o reservatório não é necessariamente uma enorme câmara preenchida inteiramente por lava líquida.

Ele pode conter uma mistura de rocha sólida, cristais e material derretido.

Magma estaria voltando a ocupar o reservatório

A principal interpretação do estudo é que novos volumes de material derretido estão sendo introduzidos no reservatório subterrâneo após a grande erupção de milhares de anos atrás.

Esse processo é chamado pelos pesquisadores de reinjeção de material fundido. Em termos simples, o magma produzido em regiões mais profundas da Terra volta a alimentar uma estrutura subterrânea que já existia antes e durante a antiga erupção.

O modelo proposto indica que esse reservatório está localizado logo abaixo da caldeira e pode corresponder à mesma estrutura que alimentou a erupção Kikai-Akahoya.

Ainda assim, a pesquisa não determina com precisão quando esse processo começou, a velocidade com que o material está se acumulando ou quanto tempo seria necessário para que o sistema pudesse produzir outra grande erupção.