Falta de efetivação em área de proteção ameaça Soldadinho do Araripe

Há oito meses, foi assinado decreto de criação do Refúgio da Vida Silvestre (Revis) dentro de uma Unidade de Conservação, em Crato. No entanto, o projeto ainda não saiu do papel. Com isso, a ave endêmica fica desprotegida.

A demora para a efetivação do Refúgio da Vida Silvestre (Revis) Soldadinho do Araripe, em Crato, tem causado sérios danos a ave endêmica do Cariri, que está em risco crítico de extinção. Há oito meses, o decreto que criava o Revis dentro de uma Unidade de Conservação (UC) foi assinado, porém, até agora, o equipamento está sem atuação. O impasse reside no Conselho Gestor da UC que ainda não foi formado.

O biólogo Weber Girão, que estuda a ave desde 1996, critica a falta de mecanismos para preservação da espécie e alerta não ser prudente planejar a criação de outras unidades de conservação no Município "sem antes ter terminado o dever de casa", referindo-se a morosidade na efetivação da Revis, que garantirá a proteção integral de aproximadamente quatro mil hectares de área de encosta da Chapada do Araripe. "O desafio é não tornar a Revis do Soldadinho do Araripe em uma Unidade de Conservação apenas de papel", provoca.

O tempo que se acumula sem políticas efetivas, impacta diretamente na sobrevivência do pássaro. Em 2018, foram contados apenas 215 machos adultos da ave. Este número, segundo pesquisa da Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis), representa uma diminuição de 26% em relação a 2013. Por ser um censo auditivo, a pesquisa não contabiliza fêmeas e jovens. Para Weber, o número é muito preocupante.

Formação

O conselho gestor deve ter representantes de órgãos públicos, tanto na área ambiental como de áreas afins, como pesquisa científica, educação, cultura, turismo, e da sociedade civil, como a população residente e do entorno, povos tradicionais, proprietários de imóveis dentro da UC, comunidade científica e organizações não-governamentais com atuação na região.

A formação do Conselho é vital pois é ele o responsável por nortear a gestão da Revis na definição das normas, restrições e ações a serem desenvolvidas no manejo dos recursos naturais da área da UC e seu entorno. Dentre as deliberações do futuro Conselho, Weber espera, por exemplo, a criação de um programa permanente de combate a incêndio na Chapada, pois as queimadas são um dos principais motivos para a diminuição da reprodução do Soldadinho.

Impasse

A gestora ambiental da Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Ceará (Sema), Andrea Moreira, disse que a pasta está à disposição para ajudar na criação do Conselho Gestor da UC, mas a responsabilidade é do Município. "Apoiamos a formação e efetivação da unidade, mas quem cria [o Conselho] é quem gere a Revis". O secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Territorial de Crato, Brito Júnior, reconhece o "retardo na formação" do Conselho Gestor, mas garante que foi instituída uma câmara técnica dentro do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Condema) que priorizará a UC.

Brito justifica que montar uma equipe "demanda trabalho de orçamentação" e avalia que "com muita calma e cautela, tudo vai se organizar". O secretário de Meio Ambiente não se manifestou quanto aos impactos ao Soldadinho.