Mulheres recebem 16% menos recursos de campanha que homens na disputa à Câmara dos Deputados pelo CE

PontoPoder analisou os repasses nominais do Fundo Eleitoral, referente à campanha de primeiro turno, a candidatos de todos os gêneros nas eleições deste ano.

Escrito por Ingrid Campos ingrid.campos@svm.com.br
03 de Novembro de 2026 - 10:00
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Legenda: Ceará terá cinco representantes na bancada feminina da Câmara a partir de 2027.
Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados.

As candidaturas femininas do Ceará à Câmara dos Deputados receberam, em média, cerca de 16% a menos do Fundo Eleitoral do que as masculinas em 2026. As mulheres representaram, no Estado, 38,7% dos concorrentes à Casa Baixa, mas a rubrica total chegou em proporção menor, de 34,7% dos recursos disponíveis. 

Por outro lado, a distribuição de recursos dentro de cada gênero – e não entre ambos – indica que o cenário de subfinanciamento não é uniforme entre as mulheres, já que aquelas com mais apelo eleitoral receberam parcelas maiorias do fundo. Isso é comum e faz parte da estratégia oficial dos partidos, não só para o gênero feminino, mas também para o oposto. 

Na disputa em questão, contudo, as eleitas concentraram um total de R$ 11,5 milhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC). Há casos em que candidaturas femininas concentraram 48% e até 84% dos recursos totais reservados às mulheres dos seus respectivos partidos. Já os eleitos receberam R$ 36,1 milhões em termos absolutos, mas isso indica uma divisão mais equilibrada entre concorrentes do mesmo gênero, representando entre 16% e 63,5% da rubrica. 

Sendo assim, as outras 98 mulheres (95% de todas as candidatas à Câmara pelo Ceará) que ficaram na suplência ou cujos partidos não conquistaram assento na Casa, receberam, juntas, R$ 33 milhões (74% do FEFC enviado a campanhas femininas, uma diferença de quase 20 p.p. em relação à presença na chapa).  

As 98 candidatas que não foram eleitas somaram 460,2 mil votos, o equivalente a 35,8% da votação total recebida pelas mulheres que disputaram vagas na Câmara. Entre os homens, os candidatos não eleitos somaram 1,39 milhão de votos, ou 34,2% da votação obtida pelo grupo masculino.

A nova bancada cearense na Câmara terá, a partir de 2027, cinco deputadas federais e 17 deputados, distribuídos em dez partidos. Outras 15 legendas concorreram a vagas no Congresso, mas seus quocientes ficaram aquém do necessário para conquistar um assento. 

103 mulheres
se candidataram à Câmara dos Deputados pelo Ceará, em 2026

163 homens
se candidataram à Câmara dos Deputados pelo Ceará, em 2026

Considerações sobre este material

O PontoPoder escolheu trabalhar somente com o valor de Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) enviado, sem intermediários, das direções nacionais dos partidos aos candidatos e candidatas à Câmara dos Deputados no Ceará. As cifras em questão são contabilizadas pela Justiça Eleitoral como despesas do órgão partidário central, ou seja, são desembolsos da legenda para as contas de campanha dos seus respectivos candidatos. Por isso, nesta análise, o PontoPoder não considera eventuais rateios feitos pelas direções estaduais dos partidos aos seus postulantes.

Isso exclui também receitas de campanhas reforçadas com recursos próprios dos candidatos, com doações de terceiros e com outras fontes de arrecadação. Em síntese, a reportagem buscou jogar uma lupa sobre a estratégia de financiamento público das legendas em nomes competitivos em ano eleitoral. A consulta foi feita pela reportagem entre 21 e 22 de outubro de 2026, no site Divulgacand, do TSE, e os dados foram organizados nos dias seguintes. 

Estratégia financeira prioriza candidaturas competitivas

O Fundo Eleitoral não representa apenas uma questão formal, mas sim um mecanismo que dá concretude à estratégia das campanhas para converter a exposição política em voto. É com essa (e outras fontes) de receita que os postulantes confeccionam material impresso, custeiam propaganda e publicidade, alugam imóveis para seus comitês, remuneram ou gratificam qualquer serviço envolvido na campanha, etc.

Essa relação entre desempenho eleitoral e suporte financeiro dos partidos é fruto de uma escolha estratégica, oficializada pelos partidos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às véspera do período de campanha. Os parâmetros declarados, em alguns casos, deram margem para concentração do dinheiro em candidaturas proporcionais consideradas competitivas, privilegiando campanhas à reeleição, desempenho eleitoral anterior ou viabilidade estimada. 

As mulheres que representarão o Ceará no próximo mandato se encaixam nesses critérios, já que todas detêm capital político prévio – seja por já terem ocupado mandato eletivo ou função política de destaque, seja por contarem com uma rede de apoio geracional e consolidada para a disputa.

Erika Amorim (Republicanos) já havia sido deputada estadual e aposta do antigo partido, o PSD, para o Senado, além de estar, atualmente, casada com o prefeito de Caucaia, Naumi Amorim (PSD). Já Luisa Cela (PT), filha da ex-governadora Izolda Cela (PSB) e do ex-prefeito de Sobral, Veveu Arruda (PSB), foi Secretária de Cultura do Estado.

Giordanna Mano (PRD) e Tainah Marinho (PSB), por sua vez, são esposas de expoentes da política cearense: respectivamente, o deputado federal e suplente de senador eleito, Junior Mano (PSB), e o presidente da Assembleia Legislativa do Ceará, Romeu Aldigueri (PSB). Elas também têm trajetória política própria, sendo a primeira ex-prefeita de Nova Russas e a segunda ex-candidata à Prefeitura de Barroquinha. 

A única veterana na Câmara dos Deputados é Fernanda Pessoa (PSD), que assumirá seu segundo mandato na Casa a partir de 2027. Ela também é filha do prefeito de Maracanaú, Roberto Pessoa (PSD), e esposa do vice-prefeito de Pacatuba, Ésio de Sousa (PT).

Por outro lado, candidatas tão experientes quanto e bem guarnecidas enfrentaram dificuldades na eleição ao Congresso, a exemplo de Priscila Costa (PL), Dayany do Capitão (União), Luana Régia (PSD), Enfermeira Ana Paula (SD), Larissa Gaspar (PT), Jacqueline Gouveia (MDB) e Katia Rodrigues (PDT). 

Todas elas ocupam ou já ocuparam cargo eletivo anterior – Priscila, Ana Paula e Dayany, inclusive, têm passagens pela Câmara dos Deputados –, mas ficaram na suplência ou sequer conseguiram a chance de assumir um assento ao longo do próximo mandato, como Katia. Essas sete candidatas também receberam investimentos médio de R$ 1,5 milhão em 2026, considerando apenas as transferências incluídas no recorte metodológico.

Candidata Partido Votos nominais Fundo Eleitoral
Dayany do Capitão União 48.160 R$ 2,9 milhões
Luana Regia PSD 4.256 R$ 1,7 milhão
Priscila Costa PL 47.409 R$ 1,5 milhão
Enfermeira Ana Paula SD 23.269 R$ 1,14 milhão
Larissa Gaspar PT 73.034 R$ 1,3 milhão
Jacqueline Gouveia MDB 10.667 R$ 1,1 milhão
Katia Rodrigues PDT 12.361 R$ 1,05 milhão

Diferenças entre partidos

Os percentuais de financiamento feminino variam entre os partidos eleitos. A média de recursos do FEFC recebidos por mulheres foi superior aos homens no PRD, no Solidariedade, no União Brasil e no PT. Nessas legendas, o resultado foi puxado principalmente por:

  • Enfermeira Ana Paula (R$ 1,14 milhão): vantagem feminina de 2,6% no SD;
  • Dayany do Capitão (R$ 2,9 milhões): vantagem feminina de 24,4% no União Brasil;
  • Luisa Cela (R$ 1,49 milhão): vantagem feminina de 41,7% no PT;
  • Giordanna Mano (R$ 3 milhões): vantagem feminina de 51% no PRD.

Em contrapartida, no PL e no PP, a parcela do FEFC destinada às candidatas à Câmara dos Deputados no Ceará ficou abaixo de 30% do total repassado às candidaturas desses partidos no Estado. A legislação estabelece que o percentual destinado às mulheres deve acompanhar a proporção de candidaturas femininas do partido em âmbito nacional, respeitado o mínimo de 30%. A regularidade da aplicação do FEFC é verificada nas contas dos diretórios nacionais.

O Fundo Partidário também possui uma regra de destinação mínima às candidaturas femininas, mas sua aplicação é fiscalizada separadamente. Por isso, o PontoPoder procurou PL e PP para esclarecer os critérios usados na distribuição dos recursos às candidaturas cearenses e a destinação das verbas dos dois fundos. Até o momento, não houve retorno.

Abaixo, há o detalhamento das diferenças de gênero por partido eleito no suporte financeiro de campanha:

Prestação de contas

A distribuição das receitas de campanha não encerra a discussão sobre o financiamento das candidaturas femininas. Com o fim do período eleitoral, os partidos e candidatos ainda precisam apresentar suas prestações de contas à Justiça Eleitoral, etapa em que são informadas e submetidas à análise as receitas recebidas e as despesas realizadas.

O prazo referente às contas de campanha no primeiro turno da disputa de 2026 começou em 5 de outubro e vai até 3 de novembro. É nesse processo que será possível verificar a regularidade da aplicação dos recursos públicos e a observância das regras de financiamento de gênero.

A análise contábil também permitirá acompanhar se os valores declarados pelas legendas correspondem às transferências efetivamente realizadas e se os recursos destinados às candidaturas femininas foram aplicados conforme as exigências legais. Até a conclusão desse processo, os dados sobre os repasses oferecem um retrato da estratégia financeira adotada pelos partidos em 2026, mas não representam, por si só, um julgamento definitivo sobre o cumprimento das cotas.

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