Um ano depois de entrar na Bolsa, vale a pena comprar ações do Nubank?

Banco digital tem ações negociadas nos Estados Unidos desde dezembro de 2021 e não está mais no mercado brasileiro, mas analistas indicam como acessar os papéis

Tendo completado um ano desde a oferta inicial de ações (IPO da sigla em inglês Initial Public Offering), no dia 9 de dezembro de 2021, o Nubank esteve sempre em destaque no mercado brasileiro. Contudo, investir nos papéis do banco internacional pode não ser a melhor das escolhas para os investidores em 2023, pelo menos neste momento. 

A coluna conversou com assessores de investimento sobre as projeções do banco para o próximo e o cenário indica uma evolução de desempenho, mas ainda com certa preocupação focado nos cenários macroeconômicos mundial e brasileiro.  

Vale ressaltar, no entanto, que essas perspectivas podem ser alteradas a partir dos fatos no futuro, mas não cabe usar bola de cristal nesse momento. 

Desde a oferta inicial, as ações do "banco roxinho" desvalorizaram 72%, analisando o fechamento do dia 10 de dezembro de 2021 até as 15h55 do dia 22 de dezembro de 2022. Antes negociados a R$ 11,50, os papéis estavam sendo comprados a R$ 3,21 na tarde da última quinta-feira (22). 

Fato relevante destacado por Márcio Landim, sócio da SWM Investimentos - BTG Pactual, é que o banco não oferece mais ações no mercado brasileiro, então os investidores precisam ter conta em uma corretora ou banco americano. Anteriormente, os papéis do Nubank eram negociados como BDRs (Brazilian Depositary Receipts, na sigla em inglês). 

"O Nubank entrou no mercado americano, e as ações deles são negociados em uma cesta que chama de BDRs, e em setembro as ações deles pararam de ser negociadas no Brasil, fazendo uma OPA. Eles recompraram as ações pagando um percentual acima do que elas estavam valendo. Então, hoje, você não consegue comprar ações do Nubank no mercado brasileiro. Você só consegue se tiver conta em banco ou corretora americana", disse Landim. 

Papéis supervalorizados 

O sócio da SWM explicou também que um dos motivos da forte queda para o valor das ações do Nubank em 2022 foi o fator da supervalorização inicial. Landim afirmou que os papéis do banco estavam sendo negociados em um preço muito acima das expectativas do mercado, e isso fez com que, no longo prazo, a partir dos resultados da empresa, o patamar de negociações caísse. 

"Quando eles abriram IPO, foi supervalorizado, e isso já foi um fator para a desvalorização para esses papéis. Outro fator foi a macroeconomia, em que a gente vive em um cenário de alta de juros pelo mundo, com aumentos constantes no Brasil, para conter a inflação. E esse cenário prejudica instituições que têm um mercado de pessoas de baixa renda, que é o caso do Nubank", disse. 

Cenário macroeconômico 

Outro ponto que pode ter prejudicado o rendimento das ações do Nubank é o cenário de juros altos e inflação acima do esperado nos principais mercados mundiais, como nos Estados Unidos, como aponta Gilberto Barbosa, sócio da V8 Capital. 

Barbosa mencionou as recentes altas de juros nos EUA, pelo FED (Banco Central americano), e os efeitos disso em empresas de tecnologia, que dependem de resultados financeiros de longo prazo. Com os juros altos, as projeções dessas empresas acabam sendo reduzidas. 

Além disso, considerando a estratégia do Banco de focar no mercado de pessoas de renda mais baixa, os juros mais altos pelo mundo também geram prejuízos aos resultados financeiros. Esses dois fatores acabaram sendo cruciais para as últimas desvalorizações. 

"No acumulado do ano, os papéis que negociam lá fora estão com queda de 60% e as BDRs estão caindo mais por conta do dólar, cerca de 63%. A principal razão dessa performance é uma questão macro", disse. 

"Esse ano tem sido bastante duro para as bolsas e para as empresas de tecnologia. O FED realizou uma das maiores altas da história e isso prejudica empresas de tecnologia, que tem uma expectativa de realizar resultados no futuro", completou Barbosa. 

Devo investir no Nubank em 2023? 

Considerando todas essas análises, investir no Nubank em 2023 pode não ser a melhor escolha, considerando ainda que o "valuation" (termo para avaliação financeira de empresas) não é dos mais positivos, segundo os analistas. 

Contudo, ambos os especialistas apontaram haver pontos positivos no futuro da empresa. 

"Segundo a análise aos últimos resultados do Nubank, eles vieram mais fortes, muito devido às previsões mais fracas que o mercado fez, então eles vieram acima da expectativa de mercado", disse Landim. 

"O mercado esperava que o Nubank apresentasse um prejuízo de US$ 25 milhões, mas apresentou lucro líquido de US$ 8 milhões. De positivo, temos o crescimento das ativações de conta, então ele continua crescendo o número de clientes, e também tem um ótimo nível de satisfação dos clientes", completou. 

Questão do 'valuation' 

Barbosa também projetou que o Nubank, após rever algumas estratégias, deverá registrar números positivos sobre a carteira de clientes e dos valores acumulados a partir das operações de crédito para os clientes. Contudo, o sócio da V8 não acredita que haja um espaço muito grande para a valorização dos papéis do banco, uma vez que os preços já estariam acima do patamar esperado. 

"O Nubank continua crescendo e eles têm um modelo de negócios muito inovador, apesar de não ver, em 2023, um crescimento na carteira de crédito, a gente tem alguns drivers que podem beneficiar as margens da empresa. A gente deve ter uma melhora na precificação dos empréstimos e otimização do custo do funding, e isso deve melhorar as margens da empresa", explicou. 

"Então, pelos fundamentos, a empresa deve continuar reportando crescimento. Agora, o problema das ações é de 'valuation'. As ações negociam a quase 4 vezes o valor patrimonial, e 30 vezes o lucro esperado do ano que vem, então está muito caro. Considerando o cenário macro deve perdurar e que o papel está caro, vejo um 'upside' pequeno para as ações", completou.