Por que ler ‘Autobiografia do vermelho’, obra-prima de Anne Carson, vencedora do Nobel?

Escritora canadense foi laureada com o Nobel de Literatura na quinta-feira (8).

Escrito por
Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
(Atualizado às 14:05)
Legenda: Anne Carson venceu o Prêmio Nobel de Literatura no dia 8 de outubro de 2026.
Foto: Divulgação/Chad Pennington.

Se as histórias costumam ser contadas pela perspectiva dos heróis, Anne Carson opta por narrar pela visão do monstro. Gerião é o protagonista de “Autobiografia do vermelho”, o livro mais celebrado da escritora canadense, vencedora do Nobel de Literatura.

A obra é uma releitura do clássico conhecido como Gerioneida, ou “A questão de Gerião”. O poema lírico foi encontrado em fragmentos em papiro, sendo do poeta grego Estesícoro, que nasceu 630 a.C.

O autor narra a história de um estranho monstro alado vermelho, que vive em uma ilha vermelha, e cuidava de um rebanho de gado, também vermelho. Até o dia em que o herói Héracles – ou Hércules, como é popularmente conhecido – chega por mar e mata Gerião para obter o gado.

Nessa versão que inspira Carson, Héracles assassina o monstro como parte de seus doze trabalhos.

Imagem de capa do livro Autobiografia do vermelho, para ilustrar matéria sobre Por que ler ‘Autobiografia do vermelho’, obra-prima de Anne Carson, vencedora do Nobel?.
Legenda: Livro conta a história de Gerião e Héracles.
Foto: Divulgação/Editora 34.

Porém, ao construir sua releitura, ambientada nos dias de hoje, a canadense nos apresenta Gerião como um jovem sensível, tímido, que acredita ocupar as margens da vida. Até que se apaixona por Héracles e, anos depois, reencontra o amante em uma viagem à Argentina. Os dois partem rumo ao Peru.

No livro, ele segue sendo esse monstro, alado e vermelho. Mas é a forma de construção da narrativa que encanta. Ao laurear Carson com o Nobel, na quinta-feira (8), a Academia Sueca destacou que a conquista decorre de "sua obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea".

Assim ocorre nessa autobiografia de Gerião. Ainda que tenha uma formação erudita, a canadense constrói um romance acessível e comovente, que merece ser desbravado. O livro em verso coloca em xeque as narrativas postas no mundo, evidenciando que aquilo que é apontado como monstruoso possui outras camadas.

 

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Mostrar outras camadas na escrita

Ao inverter a ordem das coisas e a brincar com os limites, Carson levanta questionamentos sobre a própria definição de monstro. Reduzir Gerião a uma monstruosidade pode decorrer de uma visão limitante e excludente. 

Ao longo de todo o livro, percebemos Gerião como um personagem que pondera sobre os sentimmentos. Pensa acerca daquilo que está dentro ou fora de si. Ele tem um rico mundo interior. Em sua mente, vagueiam pedaços de cinza e, muitas vezes, vê que o mundo arremete para longe de si e ele parte “rumo às bordas do mundo”. 

Por vezes, esse tímido jovem alado é acometido por um puro e ousado desejo de sumir. Sente cheiro de noite fria, aprecia um costela na borda do céu, deixa-se queimar com a memória. Até perceber que “negar a existência do vermelho é como negar a existência do mistério”. 

Ao fim do livro, o que resta de toda essa jornada de Gerião, Héracles e da autobiografia são os lampejos em que um homem que, enfim, assenhora-se de si. 

Trecho do livro 

"A fotografia é perturbadora, disse Gerião.  (...) Mas você não precisa de uma câmera pra saber disso. E as estrelas? Vai me dizer que nenhuma estrela está lá de fato? Bom, algumas estão mas algumas se consumiram há dez mil anos.  Eu não acredito nisso. Como você pode não acreditar, é fato conhecido. Mas eu as vejo. Você vê memórias". 

Serviço

Livro “Autobiografia do vermelho”
Quanto: R$ 73,00
Onde comprar: Editora 34.

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