Morrer para dar vida não pode ser destino
No Ceará, o boletim epidemiológico da Sesa mostra que a razão de mortalidade materna voltou a subir em 2024, chegando a 71,1 óbitos por 100 mil nascidos vivos
Maio costuma envolver a maternidade em flores, anúncios e afetos. Mas há uma verdade dura que o mês das mães não pode esconder: quando uma mulher morre na gestação, no parto ou no puerpério por causa evitável, não perdemos apenas uma vida. Perdemos também a capacidade do Estado, dos serviços e da sociedade de proteger aquilo que dizem celebrar.
A mortalidade materna é um dos indicadores mais sensíveis da civilização sanitária. Ela revela, com precisão quase cruel, onde a rede funciona e onde a mulher peregrina; onde há pré-natal, transporte, regulação, leito e equipe preparada; e onde a pobreza, o racismo, a distância e a fragmentação institucional continuam decidindo quem vive. O dado global é estarrecedor: em 2023, cerca de 260 mil mulheres morreram por causas relacionadas à gravidez e ao parto, a maior parte prevenível.
No Ceará, o boletim epidemiológico da Sesa mostra que a razão de mortalidade materna voltou a subir em 2024, chegando a 71,1 óbitos por 100 mil nascidos vivos, distante da meta brasileira de 30 até 2030. O Sertão Central alcançou 143,4; Fortaleza, 73,9. Não são números: são biografias interrompidas.
A boa gestão em saúde começa quando deixa de tratar cada morte como fatalidade isolada e passa a enxergá-la como evento sentinela. Hemorragia, hipertensão, sepse, cardiopatias, sofrimento psíquico e agravamentos respiratórios não esperam reunião de gabinete.
Exigem linha de cuidado viva: atenção primária que estratifique risco cedo; ambulatório de alto risco acessível; maternidade previamente vinculada; regulação obstétrica 24 horas; transporte seguro; sangue disponível; sulfato de magnésio, ocitocina e antibiótico onde precisam estar; simulação clínica permanente; e puerpério acompanhado com a mesma seriedade dedicada ao parto.
O Tribunal de Contas do Ceará apontou fragilidades conhecidas por quem vive o SUS real: dificuldade de referência e contrarreferência, acesso insuficiente ao pré-natal de médio e alto risco, problemas de regulação de leitos e entraves no SAMU. O diagnóstico é antigo; a tolerância com ele é que precisa acabar. A Rede Alyne abre uma janela importante, com financiamento ampliado, foco na equidade e compromisso de reduzir mortes. Mas política pública só se realiza quando deixa o decreto e entra na agenda diária dos territórios.
O Ceará deveria instituir um pacto estadual pela maternidade segura, com metas municipais transparentes, auditoria rápida de cada óbito, apoio técnico às regiões críticas, contratualização de resultados e comando regulatório integrado entre atenção primária, maternidades, SAMU e leitos especializados. Não basta inaugurar serviços; é preciso fazê-los conversar. Não basta ter protocolo; é preciso treinar equipe, medir adesão e corrigir falhas antes que elas virem luto.
Reduzir a mortalidade materna não é favor às mulheres nem ornamento de calendário. É dever constitucional, competência de gestão e escolha ética. O 28 de maio deve nos retirar da comoção confortável. Uma sociedade que naturaliza a morte evitável de mães aceita, em silêncio, uma forma extrema de desigualdade. Que o Ceará transforme a dor em governo, a estatística em decisão e a celebração das mães em compromisso público com a vida.