E o que acontece com a formação dos novos?

Escrito por Silvia Leticia producaodiario@svm.com.br
07 de Junho de 2026 - 06:00
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Legenda: Silvia Leticia é advogada
A automação está mudando a forma como trabalhamos em uma velocidade impressionante. Ferramentas baseadas em inteligência artificial já produzem textos, organizam dados, respondem clientes, analisam informações e executam atividades que, até pouco tempo atrás, faziam parte da rotina de profissionais em início de carreira. O ganho de produtividade é evidente. A questão é que existe um efeito colateral sobre o qual ainda falamos pouco: o desaparecimento gradual das tarefas que ajudam a formar novos profissionais.

Durante décadas, a lógica do desenvolvimento profissional seguiu um caminho relativamente previsível. Quase todo especialista começou realizando atividades consideradas simples, repetitivas ou operacionais. Eram justamente essas tarefas que permitiam observar processos, entender contextos, cometer erros, receber orientação e desenvolver repertório. Em outras palavras, eram o primeiro degrau da escada.

Hoje, muitos desses degraus estão sendo removidos. Relatórios são gerados automaticamente. Resumos são produzidos em segundos. Planilhas são analisadas por algoritmos. Demandas que antes serviam como espaço de aprendizado passaram a ser executadas por sistemas cada vez mais eficientes. Sob a perspectiva da produtividade, faz sentido. Sob a perspectiva da formação profissional, o cenário merece atenção.

O problema não está na tecnologia. Automatizar processos é um movimento natural e, em muitos casos, desejável. O desafio surge quando eliminamos etapas sem criar alternativas capazes de substituir os aprendizados que elas proporcionam. Afinal, experiência não nasce apenas do acesso ao conhecimento. Ela se constrói na prática, na repetição, na observação e, principalmente, na possibilidade de errar e corrigir o caminho.

Forma-se uma geração com menos vivência prática, menos compreensão dos fundamentos e menos contato com situações que tradicionalmente ajudavam a desenvolver senso crítico e capacidade de decisão.

Existe também uma contradição importante. As organizações buscam profissionais experientes, estratégicos e capazes de resolver problemas complexos. Mas esses mesmos profissionais só existem porque um dia tiveram espaço para aprender fazendo. Sem oportunidades de entrada, torna-se cada vez mais difícil construir a experiência que será exigida no futuro.

Como formar bons profissionais em um ambiente que está eliminando justamente as atividades que serviam como porta de entrada para a carreira?

No fim das contas, nenhuma trajetória profissional nasce pronta. Sem júnior, não existe sênior. E toda estrutura que perde sua base, cedo ou tarde, começa a sentir os efeitos dessa ausência.

Silvia Leticia é advogada