Contratação de mais termelétricas pode causar enormes prejuízos

Escrito por Ricardo Cavalcante producaodiario@svm.com.br
02 de Junho de 2026 - 08:32 (Atualizado às 08:51)
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Legenda: Ricardo Cavalcante, presidente da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec).
Foto: Kid Junior

Atualmente, o Nordeste brasileiro conta com 67,7 GW de usinas em operação para geração de energia. Desses, 56,5 GW são de origem renovável, sendo 79% provenientes de usinas eólicas e solares. Já as termelétricas fósseis somam 11,3 GW. Isso faz com que a matriz elétrica instalada do Nordeste seja composta por 86% de fontes renováveis.

No entanto, esse cenário pode mudar significativamente em função do recente Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), que resultou na contratação de 16,5 GW de termelétricas fósseis, sendo 9,5 GW em novas usinas, das quais 69% serão instaladas na Região Nordeste. Assim, o índice de renovabilidade da matriz elétrica do Nordeste poderá cair significativamente. No Ceará, por exemplo, poderá passar dos atuais 79% de renovabilidade para cerca de 70%. Esses novos indicadores poderão prejudicar fortemente a atração de investimentos verdes para o Ceará e para o Nordeste.

A contratação de energia de reserva tem como uma de suas justificativas servir de respaldo em períodos de crises hídricas, substituindo a energia que seria gerada nas hidrelétricas e preservando água nos reservatórios. Ocorre que 70% da energia armazenada nas hidrelétricas do país está concentrada na Região Sudeste, enquanto o Nordeste responde por apenas 17,7% do total. Como, então, se justifica a contratação de 69% das novas termelétricas na Região Nordeste?

Ao expandir a oferta em áreas já caracterizadas por excedentes e estruturalmente exportadoras de energia renovável, foram ignorados os conceitos de sinal locacional e a necessidade de reserva de potência nos grandes centros de carga do Sudeste e do Sul do país, locais onde se concentram os maiores reservatórios de energia do sistema. Como essa energia será transmitida para o Sudeste? Ao custo de mais cortes de geração renovável?

As fontes renováveis vêm sofrendo cortes recorrentes (curtailment), que impactaram mais de 20% da energia eólica e solar que poderia ter sido produzida no Brasil em 2025, gerando perdas bilionárias para toda a cadeia produtiva. Além disso, o aumento da geração térmica no Nordeste pode ampliar ainda mais o desperdício de energia renovável e tornar insuficientes os empreendimentos de transmissão recentemente licitados para reduzir o problema e escoar a energia da região.

Assim, tal escolha impõe um custo econômico desproporcional ao consumidor brasileiro. Os investimentos em sistemas de transmissão de energia, originalmente projetados para escoar a energia renovável e de baixo custo do Nordeste, poderão passar a integrar uma competição física por espaço na rede, penalizando a transição energética e contrariando o princípio da expansão de custo mínimo do setor elétrico.

E, para completar, por que não foram incluídas no LRCAP as baterias, que, em todo o mundo, já somam mais de 260 GW instalados, enquanto o Brasil ainda sequer iniciou sua implantação em escala comercial? Diversos estudos demonstram que os custos para o consumidor poderiam ser mais de 30% inferiores aos preços contratados no LRCAP. Casos internacionais de sucesso em países como Argentina, Chile, Estados Unidos, Alemanha e Austrália demonstram que pelo menos uma parcela substancial dessa contratação poderia ter sido realizada utilizando geração eólica e solar associada a sistemas de armazenamento.

Estamos em um processo de transição energética global e não podemos desperdiçar as vantagens competitivas de que dispomos, especialmente em um momento em que os preços dos combustíveis fósseis sofrem pressões de alta em razão dos conflitos internacionais no Golfo Pérsico.

Os sistemas de armazenamento são a tecnologia mais eficiente para trazer flexibilidade ao setor elétrico. Eles equilibram instantaneamente a oferta e a demanda e garantem capacidade ao sistema ao deslocar a energia renovável — hoje desperdiçada — para os períodos mais críticos de consumo. Tudo isso a um custo muito menor do que o das termelétricas.

O ônus financeiro dessa contratação massiva de termelétricas recairá sobre todos os consumidores brasileiros, que poderão arcar com aumentos de custos superiores a 10% na conta de energia. Esses aumentos poderão ser ainda maiores para o setor produtivo, comprometendo significativamente a competitividade das cadeias produtivas.

 

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