O novo tarifaço imposto pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que lança tarifa adicional de 25% sobre produtos importados do Brasil, pode gerar cerca de R$ 56 milhões (US$ 11 milhões) em impostos em um intervalo de seis meses nas exportações do Ceará para os Estados Unidos.
O cálculo foi feito pelo economista especialista em relações internacionais Pedro Rafael Fernandes e se baseia nos dados das exportações do Estado para o país americano no primeiro semestre deste ano, disponibilizados pela plataforma Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Máquinas e calçados são afetados; carnaúba e castanha isentos
No Ceará, os setores mais afetados pelo novo tarifaço, de acordo com o também membro do Conselho Regional de Economia Ceará (Corecon-CE), são os de máquinas, equipamentos elétricos e calçados.
“No caso dos calçados, há uma preocupação adicional porque se trata de uma atividade intensiva em mão de obra”, reflete.
Por outro lado, itens como cera de carnaúba e castanha de caju foram isentos do novo tarifaço.
A medida americana foi confirmada nesta quarta-feira (15) e entrará em vigor a partir de 22 de julho. Ela é resultado da investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que apontou que as políticas comerciais do Brasil são desleais ao governo americano.
Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), os produtos que forem embarcados antes do dia 22 de julho e chegarem aos EUA até o dia 29 de julho estão isentos da nova cobrança.
Até 13% das exportações do Ceará para os EUA serão afetadas por novo tarifaço
Conforme explica Pedro Rafael, o Ceará exportou quase US$ 350 milhões para os EUA neste primeiro semestre. Porém, cerca de dois terços desse valor correspondem a produtos siderúrgicos, não inclusos no novo tarifaço.
"Em uma análise conservadora e ainda preliminar, algo entre 12% e 13% das exportações cearenses aos Estados Unidos estariam claramente sujeitas à nova tarifa. Aplicando os 25% sobre essa base apenas como medida de exposição, teríamos um proxy tarifário da ordem de US$ 11 milhões (aproximadamente R$ 56 milhões)"
Ou seja, caso as exportações cearenses para os Estados Unidos sigam o fluxo dos números do primeiro semestre de 2026, os 25% incidirão sobre cerca de US$ 45 milhões (13% de US$ 350 milhões), resultando em US$ 11 milhões de tributos.
Impacto no Ceará é menor que em outros estados, diz economista
Na análise do especialista, o impacto da nova tarifa no Estado é relevante, mas "bastante concentrado". Segundo ele, considerando apenas o novo tarifaço, “o Ceará tende a ser menos afetado do que outros estados”.
Isso ocorre porque os produtos que concentram a maior exposição nacional à nova tarifa, como produtos químicos e determinados alimentos processados, possuem participação relativamente menor na pauta cearense destinada aos Estados Unidos.
Além disso, a exportação de máquinas elétricas e calçados do Ceará para os EUA, maiores mercados estaduais afetados pela medida, representam uma parcela bem menor do valor exportado pelo Estado.
De acordo com os dados do Comex Stat, no acumulado de 2026, a comercialização de máquinas e equipamentos elétricos chegou a US$ 19 milhões, enquanto a de calçados foi de cerca de US$ 13,5 milhões.
Quais os impactos do novo tarifaço para o Ceará?
Pedro Rafael também acredita que o novo tarifaço não significa, necessariamente, perda de exportações, já que o custo pode ser dividido entre exportador e importador, repassado ao consumidor americano ou parcialmente compensado pelo câmbio.
Em relação à redução de produção ou demissões, o economista reconhece a possibilidade, mas destaca não ser possível afirmar que esses efeitos ocorrerão automaticamente, ressaltando que as consequências dependem “da participação dos Estados Unidos nas vendas de cada empresa, das margens de lucro, da possibilidade de dividir o custo da tarifa com o importador, do comportamento do câmbio, dos estoques e da capacidade de encontrar novos compradores”.
O efeito direto sobre o consumidor cearense também tende a ser limitado, argumenta, já que a tarifa é cobrada na entrada da mercadoria nos Estados Unidos.
“Os efeitos podem aparecer indiretamente por meio da redução da produção, do emprego, da renda e da arrecadação nos municípios onde estão localizadas as empresas exportadoras. Também pode haver impacto sobre transportadoras, operadores portuários, fornecedores e outras atividades ligadas à cadeia exportadora”, indica.
Somado a isso, caso uma parcela da produção destinada aos Estados Unidos seja redirecionada para o mercado brasileiro, pode ocorrer aumento da oferta doméstica e alguma pressão de redução de preços.
“Por outro lado, uma eventual desvalorização cambial pode encarecer insumos importados”, acrescenta.
Já o redirecionamento de produtos para outros mercados internacionais não costuma ocorrer rapidamente a baixo custo, uma vez que o processo envolve medidas de defesa comercial, limites de demanda, contratos de longo prazo e custos logísticos.
Aço e ferro não entram no novo tarifaço mas continuam sujeitos à tarifa de 50%
Apesar de Pedro Rafael considerar o impacto do novo tarifaço nas exportações cearenses relativamente moderado, o economista frisa que não significa que o Estado esteja pouco exposto às barreiras comerciais americanas.
Os produtos siderúrgicos brasileiros, como aço e ferro, que correspondem a 67% das exportações cearenses para os Estados Unidos, continuam com tarifa de 50% para a entrada no país americano.
Em fevereiro deste ano, a Suprema Corte dos EUA revogou a sobretaxa dos produtos brasileiros (1º tarifaço), mas manteve para os materiais siderúrgicos.
No primeiro semestre deste ano, o Ceará exportou cerca de US$ 233 milhões em produtos de siderurgia para os Estados Unidos.
O que dizem os setores
Por meio de nota (leia abaixo na íntegra), a Fiec classificou o cenário como um “momento que exige cautela no intercâmbio comercial”. A entidade defende que a nova medida desacelera a competitividade da indústria nacional e gera desvantagem para os exportadores brasileiros em relação a concorrentes de outras nações.
A federação também ressaltou a necessidade de estudar novos mercados e seguir com as negociações, alegando que entidades e empresas dos Estados Unidos se posicionaram contra o tarifaço nas negociações, “argumentando que a medida impactaria negativamente o comércio norte-americano”, diz a nota.
O Diário do Nordeste também tentou contato com o Sindicato da Indústria Metalúrgica e Mecânica do Ceará (Simec Ceará) e com o Sindicato Calçadista de Sobral, mas não obteve retorno até o momento. O espaço permanece aberto.
Em nota publicada no site oficial, a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) manifestou preocupação com a decisão. A nova tarifa deve resultar em uma queda média de 7,1% nas exportações totais de calçados ao final de 2026, de acordo com estimativa da entidade.
Para o presidente-executivo da entidade, Haroldo Ferreira, a decisão representa um retrocesso. “A aplicação desta tarifa adicional reduz significativamente a competitividade do calçado brasileiro nos Estados Unidos e inviabiliza muitas operações que vinham sendo retomadas desde o fim da tarifa adicional de 40%, em fevereiro deste ano. Trata-se de uma medida que penaliza não apenas os exportadores brasileiros, mas também importadores, marcas, varejistas e consumidores norte-americanos, dada a interdependência produtiva e comercial entre os dois países ", expõe.
Ainda conforme a Abicalçados, representantes da Footwear Distributors and Retailers of America (FDRA), da American Apparel & Footwear Association (AAFA), da United States Fashion Industry Association (USFIA), além de importadores e varejistas norte-americanos, representados pelo JPT Group LLC Bernardo Footwear e Dillard’s Incse manifestaram contrariamente à aplicação da tarifa sobre os calçados brasileiros.
Confira nota da Fiec
É mais um momento que exige cautela no intercâmbio comercial. A decisão do governo dos EUA de impor uma tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros entra em vigor em 22 de julho, e desacelera a competitividade da indústria nacional. A alíquota aponta desvantagem imediata para os exportadores brasileiros em relação a concorrentes de outras nações. É indispensável acelerar as negociações diplomáticas entre o governo do Brasil e dos Estados Unidos. Os produtos que forem embarcados antes do dia 22 de julho e chegarem aos EUA até o dia 29 de julho estão isentos da nova cobrança. A tarifa adicional de 25% posiciona o Brasil em desvantagem em relação a outros países que também fornecem produtos aos Estados Unidos. Os Estados Unidos permanecem como principal parceiro comercial do Ceará. De acordo com a publicação atual, Castanha de Caju, Cera de Carnaúba e Mel Natural são exemplos de produtos que foram incluídos na lista de isenção. Entidades e empresas dos Estados Unidos se posicionaram contra o tarifaço nas negociações, argumentando que a medida impactaria negativamente o comércio norte-americano. Para o Ceará, o setor de calçados é um dos setores que foi inserido na tarifa adicional. É relevante estudar novos mercados e seguir com as negociações.