Cearenses ganham até R$ 4 mil com vídeos para treinar robôs e IAs; entenda tendência e riscos

Uma das plataformas tem 3 mil cearenses em sua base.

Escrito por Mariana Lemos mariana.lemos@svm.com.br
18 de Setembro de 2026 - 06:00
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Legenda: Cearenses ganham até R$ 1 mil com vídeos para plataformas que treinam robôs humanoides e inteligência artificial.
Foto: Ismael Soares.

Imagine ganhar dinheiro pelos afazeres domésticos que já executa diariamente, como estender roupas e lavar louça. A única diferença é que você precisa gravar essa rotina e enviar as imagens para uma plataforma que treina robôs e ferramentas de inteligência artificial.

Essa prática já existe: plataformas de treinamento pagam por hora de gravação de tarefas domésticas e atraem cearenses em busca de renda extra. A Flambra, uma das empresas do segmento, tem mais de 20 mil usuários em sua base, sendo pelo menos 3 mil do Ceará.

Especialistas chamam atenção, entretanto, para os riscos do compartilhamento de dados e de apostar nisso como uma renda. 

Cearense recebe R$ 1 mil por semana para treinar robôs

A enfermeira Sintia Monteiro venceu a desconfiança inicial e grava vídeos para duas plataformas. Em seus dias de folga, ela grava no mínimo 5 horas de atividade doméstica, que rendem uma média de R$ 1 mil por semana. 

"Essa atividade tem representado uma fonte de renda complementar bastante significativa para mim. Um dos sonhos que consegui concretizar foi a aquisição do meu iPhone 17", conta. 

O trabalho consiste na produção de vídeos seguindo as demandas e orientações apresentadas, com atenção aos critérios de cada plataforma. Satisfeita com o retorno, Sintia pretende ampliar sua atuação para essas plataformas. 

"Estou planejando permanecer em apenas uma escala de 12 horas de trabalho, o que me permitirá conciliar melhor minha vida profissional, a produção de vídeos e o tempo dedicado à minha família", conta. 

Sintia Monteiro grava vídeos de atividades domésticas para duas plataformas e chega a faturar R$ 1 mil por semana.
Legenda: Sintia Monteiro grava vídeos de atividades domésticas para duas plataformas e chega a faturar R$ 1 mil por semana.
Foto: Ismael Soares.

A plataforma Flambra promete remunerar R$ 25 aos usuários por gravações aprovadas, além de bônus por indicações. Segundo a empresa, a renda média é de R$ 4.500 por mês. 

"Também temos membros que, somando produção e ganhos com indicações, já ultrapassaram R$ 30 mil em um único mês", afirma a empresa. 

COMO FUNCIONAM ESSAS PLATAFORMAS? 

Os vídeos são remunerados após aprovação das plataformas, que avaliam o padrão de qualidade e as características das imagens. 

Para começar a enviar vídeos, os usuários fazem um cadastro nas plataformas, que costumam enviar um suporte para prender o celular, garantindo que o vídeo registre o 'ponto de vista' de quem executa a tarefa.

Os vídeos coletados auxiliam na criação de datasets para que robôs humanoides e sistemas de inteligência artificial compreendam e futuramente executem atividades do mundo real.

Segundo a Flambra, os dados são utilizados por grandes laboratórios e empresas de robótica dos Estados Unidos e da China. O tempo que a plataforma utiliza as imagens varia conforme o projeto e as necessidades de treinamento.

As tarefas sugeridas pelas plataformas incluem manutenção da casa, organização, cuidados com carro e até cuidados com pets. Veja alguns exemplos:

  • cozinhar
  • montar móveis
  • varrer
  • tirar mato
  • regar plantas
  • limpar cômodos e aspirar
  • passear com cachorro
  • limpar e conferir pneus de carro
  • organizar prateleiras e gavetas

Há pagamento extra para '"tarefas turbinadas" e por indicação de novos usuários. 

Segundo uma das empresas, a oportunidade deve estar disponível "por muitos anos, já que os robôs precisarão de dados qualitativos do mundo real, mas os primeiros colaboradores serão os mais recompensados". 

REMUNERAÇÃO TENDE A DIMINUIR COM O TEMPO

Fernanda (nome fictício utilizado a pedido da fonte) começou a gravar vídeos para treinar IAs há duas semanas, atraída pela flexibilidade de encaixar a atividade na rotina. 

"Muitas das coisas que eu gravo são tarefas que eu já faria normalmente, como organizar o quarto, arrumar o guarda-roupa, limpar a cozinha, passear com a minha cachorra e outras atividades do dia a dia. Então, para mim, é muito interessante poder receber por algo que eu já teria que fazer de qualquer maneira", comenta.

Ela envia vídeos para duas plataformas e tem a maioria das imagens aprovada rapidamente. Uma das empresas realiza pagamento em dólar, cerca de US$ 3 por hora de vídeo.

A promessa de ganhos de até R$ 4 mil por mês é, na prática, uma isca de marketing para atrair grande volume de usuários, avalia o conselheiro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Pedro Henrique Arruda. 

"O pagamento real costuma girar em torno de R$ 20 a R$ 25 por hora de vídeo rigorosamente validada pela plataforma, o que exigiria um volume impossível de tarefas inéditas em uma única residência para alcançar esse teto", observa.

Entre as atividades que podem ser gravadas para as plataformas, estão passeio e cuidados com pets.
Legenda: Entre as atividades que podem ser gravadas para as plataformas, estão passeio e cuidados com pets.
Foto: Ismael Soares.

Para as empresas de IA, o negócio é lucrativo, já que a terceirização da coleta de dados é muito mais barata que recriar a aleatoriedade de cozinhas e armários em laboratórios.

A tendência, segundo o especialista, é que essa remuneração diminua a médio prazo, conforme o banco de dados da IA atinge a saturação para ações comuns, como lavar louça ou estender roupa.

A recomendação é que os usuários encarem a oportunidade como fonte esporádica de micro-renda, já que não há previsibilidade e certeza de que poderá compor o orçamento. 

"Os riscos dessa aposta vão além da volatilidade da renda. Há um forte risco à privacidade, já que o usuário vende o mapeamento em vídeo do interior de sua casa e a rotina de consumo da família por micropagamentos, além do perigo de golpes que exigem falsas taxas de adesão para começar a trabalhar", complementa.

RISCO DE EXPOSIÇÃO DE DADOS PESSOAIS

O envio de imagens para plataformas de treinamento de IA exige cuidados dos usuários com informações pessoais, explica o gerente do Observatório Brasileiro de Inteligência Artificial (OBIA), Luiz Alexandre Reali Costa.

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, principais legislações desse segmento, não impedem esse tipo de serviço, mas riscos existem.

O acordo com as empresas deve envolver uma finalidade bem definida e amparada por base legal. A forma de armazenamento e o envio de dados para o exterior também podem trazer implicações com a legislação.

"São inúmeras perguntas e fatores que podem caracterizar o material como dado pessoal e, portanto, ficar sujeito à LGPD. No entanto, se o material for anonimizado, por exemplo, de forma a garantir que não possa ser revertido, o material deixa de ser considerado dado pessoal", aponta.

Os vídeos podem conter uma grande quantidade de informações, já que expõem as casas, estilo de vida, hábitos e eventualmente documentos de quem grava e, possivelmente, de terceiros. 

Quanto mais detalhes contiverem e frequentes forem as gravações, maiores as possibilidades de reconstrução de aspectos da rotina. No caso de aparecer algum menor de idade, entram ainda aspectos específicos da LGPD sobre o melhor interesse da criança.
Luiz Alexandre Reali Costa
gerente do Observatório Brasileiro de Inteligência Artificial (OBIA)

O monitoramento e a fiscalização dessas plataformas têm se tornado cada vez mais complexos. Ao mesmo tempo, ainda não há uma conscientização progressiva sobre os riscos, pondera o pesquisador.  

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