O grupo sul-coreano Posco está avaliando voltar ao Brasil, mas não é para pagar a dívida milionária que tem com empresas cearenses. A companhia firmou um memorando de parceria com a australiana Meteoric para entrar em um novo segmento: a exploração de terras raras.
A tratativa ocorreu nesta semana, durante a visita do presidente sul-coreano ao Brasil. Uma série de executivos sul-coreanos integrou a comitiva, incluindo Jang In-hwa, presidente do Grupo Posco.
O memorando, anunciado nesta quarta-feira (29), prevê que a Posco possa adquirir até 30% da produção de terras raras do Projeto Caldeira, em Minas Gerais, segundo reportado pela agência Reuters.
Terras raras são um grupo de elementos químicos aplicados em ímãs superpotentes e outros equipamentos da nova indústria. Como o Brasil tem a segunda maior reserva dos elementos, há uma série de estudos em andamento, inclusive no Ceará.
A Posco e a Meteoric firmaram cooperação tecnológica para avaliar alternativas de financiamento para o empreendimento, incluindo a aproximação com instituições financeiras e agências de crédito da Coreia do Sul.
POSSÍVEL RETORNO É BOA NOTÍCIA PARA CREDORES
O possível retorno da empresa ao Brasil é um sinal positivo para os credores, segundo Frederico Costa, presidente da Associação Internacional dos Credores da Posco.
O advogado projeta uma possível responsabilização da nova operação do grupo sul-coreano no País. A empresa deixou o país após a construção da Companhia Siderúrgica do Pecém, sem pagar a maioria das empresas terceirizadas.
"A Posco é um conglomerado muito grande. Pode ser que não seja a mesma empresa que venha a ter atividades econômicas e laborais aqui no Brasil? Pode. Mas, obviamente, é uma empresa do grupo e certamente conseguiremos, na justiça, que ela responda, tão logo ela tenha qualquer atividade aqui", comenta.
A investida da sul-coreana na exploração de minerais em um novo segmento pegou os credores de surpresa. Frederico Costa avalia que o cenário reforça como a saída abrupta da empresa do Brasil, deixando um calote milionário, foi uma decisão mal pensada.
"É um dos grandes conglomerados mundiais, não só da Coreia. São diversas atividades: portos, trades de diversas commodities, aço, construção. Então, ela não pode ignorar o Brasil. A Posco viu a solução de fazer uma falência fraudulenta e planejada para se furtar do problema no dia 2, mas o dia 3 e o dia 4 vão chegar", comenta.
O Diário do Nordeste tentou localizar representantes da Posco para comentar o caso, mas não obteve sucesso.
FALÊNCIA PLANEJADA E CALOTE DE R$ 1,1 BILHÃO
A empresa Posco Engenharia e Construção do Brasil, braço do grupo sul-coreano no País, decretou falência no fim de 2025, com dívida declarada de R$ 644 milhões. Ela já havia desativado as operações após a conclusão da construção da siderúrgica.
Em 2017, foi denunciada pelo Ministério Público Federal (MPF) por evasão de divisas e associação criminosa. Oito ex-integrantes da empresa foram denunciados e estão foragidos, atualmente procurados pela Polícia Federal, Justiça Federal do Ceará, Interpol e Justiça da Coreia do Sul.
Entre os credores estão 50 empresas (das quais boa parte tem sede no Ceará), ex-funcionários brasileiros e sul-coreanos, prestadores de serviço e órgãos públicos como a Fazenda Nacional, o INSS e a Receita Federal.
O calote pode ser ainda maior do que o registrado, chegando a R$ 1,1 bilhão, segundo a associação de credores. Em maio deste ano, as empresas ganharam o direito de cobrar a dívida diretamente da matriz sul-coreana.
Uma decisão judicial da 3ª Vara Empresarial, de Recuperação de Empresas e de Falências do Estado do Ceará, reconheceu que a falência da subsidiária brasileira foi previamente planejada pela controladora coreana.
Conforme exposto, vídeos de reuniões, conversas telefônicas e trocas de e-mails comprovam que a decisão pelo pedido de falência da Posco Brasil foi articulada pela matriz.
Foi comprovado que a Posco conduziu estratégias jurídico-financeiras para não pagar os fornecedores, incluindo o esvaziamento de contas bancárias e o direcionamento de pagamentos priorizados por meio de empréstimos simulados.
A partir disso, a Justiça determinou a desconsideração da personalidade jurídica da Posco Engenharia e Construção do Brasil e a inclusão da Posco Engineering & Construction no polo passivo da falência da subsidiária brasileira.
CREDORES ESPERAM PRESSÃO DO GOVERNO SUL-COREANO
Com a vinda da comitiva sul-coreana ao Brasil, a associação de credores solicitou ao Itamaraty que o caso fosse tratado na reunião com o presidente Lee Jae Myung.
"Nós acreditamos que isso foi tratado. Mas, por toda a característica da diplomacia brasileira de ser comedida, e como esse encontro foi há dois dias, não tivemos ainda um feedback", explica Frederico.
O advogado espera que um campo de negociação seja criado e que a Posco indique, por pressão do governo sul-coreano, um interlocutor para atender às demandas dos credores.
Frederico ressalta que o caso deve ser de grande interesse nacional, já que a Posco deixou de pagar cerca de R$ 440 milhões em tributos federais.
"O nosso desejo é que o governo brasileiro, que já vem nos apoiando, nos apoie cada vez mais. Se esse caso não for tratado de forma exemplar pelo governo, tanto local quanto federal, estamos dando um guia de como as empresas podem vir aqui, usurpar as riquezas e se furtar disso", observa.