Agro

Quem são as mulheres do agro no Ceará: elas comandam cooperativas e negócios que vão do coco ao gado

Letícia do Vale leticia.dovale@svm.com.br
11/10/2026 - 07:00

Assim como em outros espaços da sociedade, a mulher no agronegócio ainda enfrenta desafios enraizados na cultura patriarcal, como a desvalorização do trabalho, a falta de credibilidade e a dupla jornada. Mas isso não significa que a atuação feminina no campo não esteja crescendo. 

A Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), designou 2026 como o Ano Internacional da Mulher Agricultora. O objetivo é valorizar o papel do grupo nos sistemas agroalimentares e promover políticas públicas para reduzir as desigualdades de gênero no setor.

No Ceará, a transformação ao longo dos anos é relatada pelas próprias produtoras rurais: cada vez mais mulheres passam a ocupar funções dentro das propriedades e a ganhar visibilidade nos negócios.

Em 2017, segundo os dados mais recentes do Censo Agropecuário, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 20,1% dos estabelecimentos de agricultura familiar no Ceará eram dirigidos por mulheres. 

A dimensão do cenário, no entanto, não é exata. Além dos números defasados, a constante invisibilização do trabalho feminino no campo dificulta um registro oficial apropriado. 

Diante da ausência de um retrato mais recente, a reportagem buscou ouvir quem vive essa realidade diariamente para entender como o papel das mulheres no agro cearense vem mudando e quais barreiras ainda permanecem.

Desigualdade de gênero faz mulher ser vista como “ajudante” no campo

Segundo dados do Censo Agropecuário de 2017, disponíveis no relatório "Mulheres no Mercado de Trabalho – um recorte sobre agricultoras familiares do Ceará", desenvolvido pela Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), entre os 297,8 mil estabelecimentos classificados como agricultura familiar no Ceará, 59,7 mil eram dirigidos por mulheres (20,1%). 

Do total de 59.730 estabelecimentos, 78% eram totalmente comandados por mulheres, enquanto 17,6% eram geridos pelo casal e 4,4% tiveram o comando classificado como "outros".  

Além disso, 85,8% dos estabelecimentos ainda destinava a produção agrícola principalmente para o consumo próprio e de familiares, enquanto apenas 14,2% tinha como finalidade principal a comercialização. 

“A sociedade patriarcal atribuiu às mulheres as responsabilidades familiares, onde elas dedicam seu tempo parcial ou integral a atividades importantes para a reprodução da família, e essas não são remuneradas e nem economicamente visíveis. Esse tempo dedicado às responsabilidades familiares compete com a sua disponibilidade para outras atividades, inclusive, no mercado de trabalho”
Mulheres no Mercado de Trabalho – um recorte sobre agricultoras familiares do Ceará
SDA e Dieese
 

O estudo ainda classifica o trabalho produtivo realizado pelas mulheres na agricultura familiar como “desvalorizado e pouco visível". Segundo o documento, isso se deve à ideia de que as atividades femininas no campo restringem-se às tarefas de casa, sendo a condição da mulher, nesse espaço, vista como a de uma "ajudante” não remunerada, expressando uma forte desigualdade de gênero. 

Dessa forma, o trabalho conclui que as estatísticas oficiais disponíveis não conseguem dimensionar efetivamente a presença das mulheres na produção e geração de renda na agricultura familiar.

Desafio entre manter legado familiar e conquistar o próprio espaço

A ideia da mulher como apenas "ajudante" no agro ainda é forte. É o que relata a conselheira da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) e da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (FAEC), Candice Rangel.  

Candice Rangel assumiu a Fazenda Ribeirão em 2017.
Legenda: Candice Rangel assumiu a Fazenda Ribeirão em 2017.
Foto: Reprodução/Instagram.

Segundo ela, uma das principais demandas da mulher cearense no campo, atualmente, é o reconhecimento. 

"Muitas mulheres geram renda dentro das propriedades, mas ainda não se enxergam como produtoras rurais. Muitas vezes o próprio marido ou familiar, emocionalmente, sabotam essa produtora. A gente ouve muito nas palestras, elas têm todo um trabalho por trás, mas se consideram o que a gente chama de ajuda. 'Eu ajudo o meu marido, eu ajudo a minha família'. Muitas vezes elas não têm o reconhecimento e não sentem o quanto elas fazem diferença para a renda familiar e para o desenvolvimento da propriedade", aponta. 

Para Candice, também foi necessário conseguir se enxergar no agro. Mesmo sendo filha de pecuarista e tendo sempre o campo integrado à própria história, a primeira carreira profissional da nascido em Brejo Santo foi na odontologia. Depois de 15 anos de trabalho como dentista, no entanto, veio a mudança: em 2017, assumiu os negócios da família e passou a se dedicar integralmente ao agronegócio. 

“Meu pai não podia estar mais à frente, e a fazenda exigia cada vez mais presença, gestão e profissionalização, e comecei a entender que ali também existia um propósito para mim. Não foi simplesmente abandonar uma profissão e começar outra. Foi assumir uma história familiar de mais de 50 anos de pecuária, na época e, ao mesmo tempo, construir o meu próprio espaço dentro dela”, relembra. 

Com o comando da Fazenda Ribeirão, vieram os primeiros desafios: respeitar o legado familiar enquanto constrói a própria história, além da necessidade de aprender sobre gestão, genética, índices produtivos, mercado e tudo aquilo que envolve uma propriedade rural. 

Nesse cenário, o fator gênero também foi uma questão. “Ser mulher trouxe desafios adicionais. A pecuária de corte ainda é um ambiente predominantemente masculino. Muitas vezes, a mulher precisa demonstrar conhecimento e capacidade antes mesmo de ter sua opinião considerada”, conta.

Mas Candice não deixou de buscar o próprio espaço. Hoje, a Fazenda Ribeirão, de cerca de 5 mil hectares, foca na pecuária de corte com o gado Nelore e conta com 3 mil animais, além de 15 funcionários diretos. Além de estar ligada à gestão das propriedades da família e à pecuária de corte, Candice conta que a atuação na ABCZ e na FAEC ampliou sua visão.

“Hoje, consigo enxergar o agro tanto sob a perspectiva de quem está dentro da fazenda e enfrenta diariamente os desafios da produção quanto de quem participa da construção de soluções coletivas para o setor”, destaca.

Na visão da produtora, ainda existem ambientes do agronegócio nos quais a mulher precisa provar sua capacidade muito mais vezes do que um homem para conquistar a mesma credibilidade. 

Outro problema é a dificuldade de conciliar diferentes responsabilidades, já que a gestão da família, dos filhos e da casa recai majoritariamente sobre as mulheres.

“Durante muito tempo, inúmeras mulheres trabalharam nas propriedades, participaram da administração, cuidaram das contas, da produção e da família, mas eram vistas apenas como alguém que ajudava. Hoje encontramos cada vez mais mulheres sendo reconhecidas como produtoras rurais, gestoras, técnicas, empresárias e lideranças. Elas começaram a ocupar sindicatos, federações, associações e espaços de decisão”
Candice Rangel
Conselheira da ABCZ e da FAEC

“Precisamos trabalhar capacitação, oportunidade e pertencimento. Quanto mais capacitadas estiverem, mais segurança terão para ocupar posições de liderança e gestão. Mas também precisamos abrir espaços reais para que elas participem das decisões. A mulher precisa olhar para o agro e compreender: esse espaço também é meu. Eu posso produzir, administrar, liderar e decidir”, salienta. 

Mesmo entre dificuldades, ela enxerga positivamente as transformações na atuação feminina no agronegócio ao longo dos anos, principalmente em relação à visibilidade da mulher no campo. 

Fazenda que começou com 8 hectares produz 3,5 milhões de cocos por ano

A CEO das marcas Mycoco e Soulcoco, Rita Grangeiro, iniciou a produção do fruto em 1996, quando recebeu do sogro como presente de casamento um pequeno terreno de oito hectares, localizado em Paracuru, a cerca de 90 km de Fortaleza.

Fazenda Grangeiro produz 3 milhões e meio de cocos por ano.
Legenda: Fazenda Grangeiro produz 3 milhões e meio de cocos por ano.
Foto: Divulgação.

Ali, a produtora rural deu continuidade à vocação pelo trabalho no campo, já florescida em uma infância repleta de contato com a natureza e os animais, vivida em diferentes cidades do interior do Ceará. 

Com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), estudo e dedicação, a Fazenda Grangeiro chegou aos atuais 200 hectares. Desses, 70 hectares são ocupados só pela plantação de coco, com produtividade de 3 milhões e meio de frutos por ano. 

A colheita é dividida em três frentes: a Mycoco, coco descascado personalizável; a Soulcoco, água de coco microfiltrada vendida em garrafinhas plásticas; e o coco verde, chamado coco de mesa, comercializado para supermercados. 

Localizada às margens do rio Curu, a propriedade ainda produz e comercializa maracujá, feijão verde e melancia. 

Ao longo dessa trajetória, Rita acompanhou de perto as transformações no agronegócio. Segundo ela, um dos pontos de mudança é a visão que as pessoas têm da atividade. 

“Há 30 anos, quando você dizia ‘eu sou do agro’, você era marginalizada, e eu sempre tive orgulho de dizer ‘eu sou do agro, eu sou produtora rural’. Hoje, ser produtor rural é status. O agro tá em alta”, reflete. 

“A mulher tá muito envolvida no agro a cada dia. Aqui no Ceará eu vejo muita participação. Hoje eu tenho mais de 15 mulheres trabalhando na fazenda. A cada dia eu tento colocar mais atividades que envolvam as mulheres. Se você vir as feiras agropecuárias, a quantidade de mulheres vendendo castanha, biscoito, artesanato, tudo no mundo, isso é uma participação. Isso mudou muito a vida da mulher no campo. A vida da mulher hoje é outra”
Rita Grangeiro
Ceo da Mycoco e Soulcoco

Outra diferença apontada por ela é em relação ao espaço ocupado pelas mulheres no campo. Há 30 anos, quando passou a se apresentar como produtora rural, Rita relata que a mulher era sempre minoria nos espaços de representação do setor. Em algumas associações que participou, lembra que era frequentemente uma das poucas mulheres, ou até a única, a estar presente. 

Atualmente, ela acredita que o cenário está mudando. 

Cooperativismo vira renda para agricultores familiares no Ceará

A diretora financeira e fundadora da Cooperativa da Agricultura Familiar de Itapajé (Copita), Marli Oliveira, construiu uma relação com o campo desde pequena. 

Nascida e criada em Itapajé, a cerca de 125 km de Fortaleza, gostava de ajudar a família em algumas atividades na agricultura, mas foi depois de finalizar a graduação em zootecnia que os laços com o agronegócio se estreitaram de vez. 

Marli Oliveira entrou no agronegócio como prestando assistência técnica a agricultores.
Legenda: Marli Oliveira entrou no agronegócio como prestando assistência técnica a agricultores.
Foto: Acervo.

“Quando eu terminei a graduação, em 2009, início de 2010, eu comecei a trabalhar com agricultores. Eu prestava assessoria de assistência técnica aos agricultores e foi onde eu comecei a entender, a gostar, do ramo agro. E estou até hoje”, relembra.

À época, o foco de Marli era o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que estabelece que pelo menos 30% do valor dos recursos federais da iniciativa sejam investidos na compra de produtos da agricultura familiar. 

Assim, a diretora atuava orientando individualmente os agricultores da região durante todo o processo de comercialização dos produtos para as escolas. 

“Só que a gente foi vendo que de forma individual era muito difícil, porque ficava cada um isolado com as suas dificuldades. Então eu busquei a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) do Estado do Ceará, e a gente constituiu a cooperativa em 2013. No início eram 27 cooperados e hoje são 48”, relata Marli. 

Atualmente, ela destaca que a Copita abrange oito municípios cearenses e comercializa a produção dos cooperados tanto para escolas dessas cidades quanto para as de municípios vizinhos. Além disso, os membros da cooperativa têm acesso a capacitações e oportunidades de venda em feiras e eventos. 

De acordo com a diretora, o próximo objetivo é alcançar mercados privados, já que, até o momento, a atuação do grupo está restrita a programas institucionais. 

“O ramo agro ainda é muito focado no homem. Às vezes as pessoas não acreditam que as mulheres podem fazer a diferença. Mas eu acredito e tenho exemplos de que hoje, apesar das dificuldades, conseguimos muito espaço, principalmente com o cooperativismo. No início a gente tinha 11 cooperadas mulheres, hoje a gente tem 23. O que precisa é que as mulheres acreditem no seu potencial, e que a gente não se deixe vencer. A gente tem que ocupar os nossos espaços com coragem, porque a gente tem capacidade de estar ali”
Marli Oliveira
Diretora financeira e fundadora da Copita

“Foi uma diferença muito grande na renda dessas famílias que entraram na cooperativa, porque hoje elas têm pra onde vender os produtos de forma organizada. Antes não tinha uma renda certa, não tinha pra onde vender, nem sabia como vender, como se organizar. A cooperativa mudou muito a realidade dessas famílias, a minha inclusa. É o que eu gosto de fazer”, declara Marli.

Em paralelo com a atividade de acompanhar a comercialização, o controle financeiro e a gestão da Copita, Marli se tornou agricultora e iniciou uma criação de galinha caipira em Ocara, onde reside atualmente. 

De salão de beleza a agroindústria que produz 1 tonelada de doces por dia

O contato com a agricultura também veio de berço para Rosemeire Eloi. Aos 47 anos, ela é diretora comercial da Agroindústria Acaragri, localizada em Acarape, município do Maciço de Baturité, a 61 km da Capital. 

A Agroindústria Acaragri conta com 50 produtos, como doces, cachaça, mel e frutas desidratadas.
Legenda: A Agroindústria Acaragri conta com 50 produtos, como doces, cachaça, mel e frutas desidratadas.
Foto: Reprodução/Instagram.

Vinda de uma família de agricultores, Rosemeire se formou como professora para realizar o sonho de ter uma faculdade, mas nunca chegou a exercer a profissão. Em vez disso, passou por trabalhos nos ramos de supermercado, celulares e confecção, já flertando com o empreendedorismo.  

Em 2009, conheceu o marido, que, em 2010, comprou uma propriedade em Acarape, onde passou a produzir culturas como banana, mamão, jerimum e caju, além de fabricar cachaça. 

“Ele fazia doces e eu comecei a levar pra vender. Era tudo orgânico, artesanal. Ele não sabia comercializar, aí eu resolvi entrar. Comecei a gostar dessa área. A gente desenhava os rótulos, idealizava as embalagens”, conta Rosemeire. 

Foi durante a pandemia que a diretora comercial decidiu pedir demissão do emprego como gerente de um salão de beleza e passou a se dedicar integralmente à Acaragri. 

Atualmente, a agroindústria tem oito colaboradores e 50 produtos, sendo os principais doces, cachaça, mel e frutas desidratadas. Os itens são comercializados em todo o Estado e já participaram de feiras nacionais, sendo o próximo passo a capacitação para chegar ao mercado internacional. A produção diária chega a 1 tonelada de doces.  

“Eu fui me apaixonando pela agricultura. Eu via que do campo podemos aproveitar tudo. Em relação à atuação da mulher no agronegócio, eu acho que ainda existem muitas dificuldades, mas melhorou muito. Eu conheço muitas mulheres do agronegócio, de Ocara, Baturité, Acarape, Redenção. A mulher vem ganhando seu espaço e fazendo acontecer. Hoje eu tenho muito orgulho de ter me encontrado nessa profissão, de estar no agro, de ser mulher e de poder contribuir com várias famílias”
Rosemeire Eloi
Diretora comercial da Agroindústria Acaragri
 

Além das práticas agrícolas e da transformação do produto, a Acaragri atua no turismo rural, com passeios de escolas nos quais os estudantes podem acompanhar todo o processo de fabricação dos produtos. 

 

 

Créditos

Letícia do Vale, Repórter | Louise Anne Dutra, Artes e Diagramação | Bruna Damasceno e Hugo R. Nascimento, Editores de Negócios | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | André Melo, Gerente de Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo do Diário do Nordeste, Verdinha e TV Diário | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte

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