A luta de Serginho Junior começa antes da contagem do tempo do árbitro. Antes mesmo dele encarar o oponente. A persistência do atleta de kickboxing levou à criação da categoria para pessoas com deficiência (PcDs) da modalidade no Brasil. Cadeirante há três anos, o cearense de 32 anos se reinventa no esporte e desafia os limites do corpo a cada apresentação no tatame. Para seguir em atividade e com o sonho de ser campeão mundial, ele conta com o apoio do Fortaleza, time do coração, e de quem mais puder contribuir.
O primeiro amor? O Tricolor do Pici. Ainda pequeno, o futebol abriu as portas da relação com o esporte. Em seguida, veio o triathlon, que ele praticou até os 15 anos. Multiesportista, ampliou o leque de atividades. Logo enveredou pelas artes marciais com: kickcboxing, muay thai, jiu-jitsu e mma. Conquistou títulos.
Como qualquer atleta em ritmo de disputa, ele se preparava com foco em mais um desafio. Ia competir o Brasileiro quando, em 6 de junho de 2023, um disparo de arma de fogo mudou a trajetória da vida dele.
“Estava pronto para viajar para competir e houve uma fatalidade. Mas, em frente de casa, fui atingido por bala e fiquei tetraplégico”, relembra o atleta
A tetraplegia é a perda total ou parcial dos movimentos e da sensibilidade dos braços, da perna e do tronco. Com os treinamentos, a musculação e a fisioterapia custeada pelo Tricolor do Pici, ele conseguiu recuperar os movimentos dos membros superiores.
“Nada é impossível para Deus. Eu queria a minha recuperação o mais rápido possível e eu precisava me dedicar. Não era ficar tetraplégico que ia me parar. Então, junto com a minha equipe, os treinadores, a gente foi adaptando os treinos. Voltei a treinar jiu jitsu novamente, fui campeão no surf pcd e assim vamos adaptando”, destaca Serginho.
A mudança de esporte e no esporte
A disputa do parakickboxing ou kickboxing inclusivo ocorre por meio de apresentação no tatame, não do combate tradicional. Nele, os atletas precisam demonstrar habilidades técnicas dentro das possibilidades. São sequências de movimentos de luta, que precisam ser mostrados com qualidade.
Execução dos movimentos, controle corporal, equilíbrio e postura, precisão dos golpes, fluidez da apresentação e dificuldade das técnicas são alguns dos pontos avaliados pelos juízes. A apresentação com melhor técnica, controle e qualidade de execução vence.
“É importante destacar que o objetivo não é comparar o atleta com uma pessoa sem deficiência. O parakickboxing busca valorizar a capacidade técnica, a evolução, a autonomia e a performance de cada atleta, respeitando suas características e necessidades”, explica em nota a Federação Cearense de Kickboxing.
O Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, de acordo com o Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O número representa 7,3% da população do país. Desses, 5,2 milhões, para andar ou subir degraus. Com a perda dos movimentos, o lutador teve o apoio da família, dos amigos, dos alunos e do clube de coração.
A adaptação ocorreu gradualmente, numa cadeira de rodas comum, embora a dele seja elétrica. Então, de segunda a sexta-feira, Serginho se divide entre os treinos de kickboxing e musculação.
“Meu mental é muito blindado. tenho psicólogas que sempre me deixaram com a cabeça forte e eu sempre segui em frente. Minha cabeça estando 100% o resto a gente corre atrás”, destaca o atleta.
Ee costuma ouvir música gospel antes de entrar no tatame. A preferida é “Tu Podes”, de Régis Danese. “Mesmo que tudo se acabe ainda me resta a fé”, diz a letra da canção. É quando vem à mente os preparativos para a luta, a vida, as histórias que ainda quer contar por meio do esporte.
Vitorioso no tatame
Serginho é bicampeão brasileiro, tricampeão cearense, tem dois títulos da Copa Cearense, 2 do Norte/Nordeste e um título do Campeonato Aberto Sesc de Lutas. Ele faz parte da Seleção Cearense há seis anos, mesmo antes de ser do paradesporto.
“Sempre foi um atleta dedicado e apaixonado pelo kickboxing. Depois do acidente, ele poderia ter escolhido parar, mas fez o contrário. Tornou-se uma pessoa e um atleta ainda mais incrível, mostrando uma força, uma determinação e uma vontade de viver que inspiram todos nós”, afirma Leonia Oliveira, Delegada Estadual da Confederação Brasileira de KickBoxing (CBKB).
“E o mais bonito é que, muitas vezes, somos nós que pensamos em dar forças a ele. Mas é o Serginho quem nos dá forças. É ele quem nos inspira a continuar, a acreditar e a nunca desistir dos nossos sonhos”, completa.
A modalidade começou a ser desenvolvida no Ceará graças à persistência de Serginho e de quem faz a federação local. Um movimento que se expandiu nacionalmente até nascer o 1º Campeonato Brasileiro Sudeste de Kickboxing. A competição vai ocorrer em Vitória, no Espírito Santo, entre os dias 9 e 11 de outubro. Será o primeiro evento dedicado exclusivamente aos atletas com deficiência da modalidade.
“Talvez eu não consiga ir por falta de patrocínio para comprar as passagens dele e da esposa, que o acompanha. São R$ 5 mil reais para ida e volta. Mas desistir não está no meu dicionário. Nunca foi uma opção”, afirma o atleta.
Às milhões de pessoas com deficiência, Serginho Júnior deixa um recado importante e um desejo de que a história dele seja um estímulo para quem deseja praticar esportes de luta ou quaisquer outros.
“Só quero que as pessoas olhem para mim e vejam que é possível a gente fazer também. O meu legado já está escrito. Os limites estão aí para serem quebrados. Digo aos PcDs para não deixarem as pessoas diminuírem vocês. Hoje há mais inclusão e a gente pode sonhar mais alto. É esquecer a vergonha, as críticas e aproveitar o bom da vida”, finaliza.